Bruce Springsteen e a sensação de intimidade que mantém com os fãs
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Bruce Springsteen e a sensação de intimidade que mantém com os fãs

Bruce Springsteen é um homem simples — que canta as coisas simples dos Estados Unidos, de seu coração, de sua história. Apesar de pouco conhecido no Brasil, essa simplicidade do cantor e compositor nascido em Nova Jersey é inversamente proporcional à dimensão de seu reconhecimento em seu país: hoje, o Boss, como é chamado por lá, é uma espécie de bandeira nacional. Bruce Springsteen tornou-se um símbolo do rock e da música popular no país que, assim como o Brasil, tem a música como seu batimento cardíaco cultural.

Com mais de 135 milhões de discos vendidos, Bruce Springsteen é um dos mais bem sucedidos artistas de todos os tempos. As bases de suas canções estão trançadas às suas raízes trabalhadoras e nas próprias bases populares de seu país, sobre as quais ele vive e canta. Foram a música popular americana, do folk, blues e country, e a chegada do rock por Elvis Presley e os Beatles que formaram o repertório estético e poético de Springsteen, para celebrar e, ao mesmo tempo, criticar a cultura americana em seus paradoxos: riqueza e pobreza, liberdade e injustiça, sonho e crueldade. “Eu passei a maior parte da minha vida como músico medindo a distância entre o Sonho Americano e a realidade americana”, ele disse.

Por mais bem sucedida que seja, a carreira de Springsteen foi construída num ritmo operário, e seu sucesso foi talhado com muito suor e trabalho incessante, como se ele próprio fosse um minerador, um montador em uma fábrica, um trovador proletário incansável com uma guitarra na mão. Sua E-Street Band é celebrada como uma das melhores e mais dedicadas da história da música, e seus shows costumam durar cerca de 3 horas, em turnês infinitas ao longo das últimas décadas — duas delas passaram pelo Brasil, em 1988 e em 2013, no Rock in Rio. Aos 69 anos, Springsteen ainda corre, berra, dança e canta sob os palcos com energia juvenil.

E seu imenso sucesso criou um efeito paradoxal: apesar de ter se tornado um dos maiores artistas do mundo, tal reconhecimento parece se dar por uma sensação de intimidade que Springsteen mantém com sua base de fãs – como se ele se tornasse mais próximo à medida em se tornava maior. É nessa intimidade que se constrói seu legado: como se fosse deles, de nós, um sábio e próximo amigo.

A mesma medida paradoxal constrói o universo de suas canções e de sua obra: temas profundamente pessoais, cotidianos, objetivamente íntimos, relatados por Springsteen em canções como “Born To Run”, “Racing in the Street”, “Darkness on the Edge of Town”, “Backstreets”, “The River”, “Thunder Road” e “Badlands”, entre tantas outras. São verdadeiros épicos de um compositor e letrista (da escola de gigantes como Bob Dylan, Woody Guthrie, Leonard Cohen e John Lennon) e, ao mesmo tempo, um relato pessoal, um segredo, um papo entre amigos em uma longa conversa informal ao redor de cervejas em uma mesa de bar.

Tal aproximação entre o que supostamente é simplório e banal na vida com o sentido épico e profundo que toda experiência existencial possui parece ser o grande estofo emocional e poético da obra de Bruce Springsteen. Em entrevista recente, quando do lançamento de sua autobiografia, o cantor afirmou ter sido um “jovem neurótico e ansioso”, que encontrou na música sua cura, como uma saída que até hoje procura para não enfrentar os “terrores da noite”.

Na mesma entrevista, Bruce conta uma história capaz de ilustrar essa dimensão profunda e ao mesmo tempo simples que a relação com sua obra parece oferecer. Diante do leito de morte de seu pai – com quem o cantor manteve uma relação complexa e difícil, por conta dos ires e vires de uma forte depressão que seu pai enfrentou a vida toda – em um momento de redenção, o compositor perguntou quais seriam as suas canções preferidas, ao que seu pai responde: as que falam sobre mim. Em certa medida, essa parece ser a resposta que todos podem dar quando se apaixonam pela obra de Springsteen – seja você o pai do compositor falando literalmente de tal representação, seja você um simples fã, se reconhecendo simbolicamente nas canções: por mais americano que Springsteen seja, são sempre sobre nós.

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