Bruno Schiavo: 'Fica difícil levantar a bandeira do rock, por causa do pessoal que queima o filme'
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Bruno Schiavo: 'Fica difícil levantar a bandeira do rock, por causa do pessoal que queima o filme'

Ele não se assume como neopsicodélico ou neotropicalista (muito justo: quem precisa de rótulos somos nós, jornalistas, não eles, artistas), mas aí vão duas pistas boas para entender o som do cantor e compositor paulista Bruno Schiavo, que acaba de nos entregar seu primeiro álbum, “A vida só começou”. Outras pistas são sua formação na base do pop dos Beatles e uma transgressão multicolorida da escola da música de vanguarda paulistana. Muitas guitarras, muita informação, muito caos, mas um ótimo clima solar atravessam todo o disco.

O álbum foi lançado pelo selo Rockit! e, do guitarrista Dado Villa-Lobos (Legião Urbana), ao mesmo tempo que é um ótimo cartão de visita, também lança a curiosidade pelos próximos passos de Bruno. Conversei com ele a respeito de “A vida só começou”, suas ambições e seus desafios.

Bruno Schiavo lança o álbum de estreia 'A vida só começou': cartão de visita solar (Foto: Divulgação)
Bruno Schiavo lança o álbum de estreia 'A vida só começou': cartão de visita solar (Foto: Divulgação)

Li que as primeiras sessões de “A Vida Só Começou” são de 2018, o que poderia resultar em um disco frio e fragmentado. Esse processo foi intencional ou circunstancial? Como você acha que ele se reflete no resultado final do álbum?

Circunstancial. Deve-se ao cronograma da Rockit!, do estúdio onde sempre acontecem ensaios e filmagens além de gravações. A distensão no tempo é um equilíbrio tênue a ser buscado em um disco, como você sugere: equacionar pressa e sedimentação, energia e construção. Ao longo de um ano e meio, fui ao Rio de Janeiro cinco vezes, sendo a primeira a mais fotográfica porque fizemos as bases de baixo e bateria que marcam bastante o clima de “A Vida Só Começou”. Mesmo com esses longos períodos entre as sessões e a ansiedade que isso gerou, estar em viagem, encontrar amigos, andar na rua, ir ao mar foi a disposição do espírito que ficou mais impressa ali. A intensidade própria da cidade havia ganhado, no começo de 2018, uma camada sombria a mais pela intervenção militar e por mortes absurdas como a de Marielle Franco e a de Victor Heringer. A temperatura do disco talvez seja resultado do mesmo imperativo circunstancial que deu às gravações velocidades maiores para a evasão do esperado, do óbvio, do panfletário, até mesmo pelo reconhecimento da interpretação contextual como inevitável para tempos tão perturbados.

Eu já te vi falando bastante sobre pop como um elemento fundamental do álbum. Qual a tua definição de pop? Você gostaria de, digamos, ouvir uma música sua no sistema de som de um supermercado?

Uma coisa que se percebe tanto através da fruição na internet quanto do consumo de música experimental, por exemplo, é que aquilo que se repete, se acostuma; ou seja, vira meme; ou seja, é hit em potencial. As pessoas assimilam e amam, mas pense como é difícil uma música como “Índios”, da Legião Urbana. Daí se vê como é arbitrária a programação musical num sentido mais século 20, e pelo mesmo caminho se percebe o quanto é banal o dilema do shuffle nas playlists algorítmicas: para ser assegurada a fluidez sem conflito do “aleatório”, não pode ter muita variação informacional, a pasteurização é dado fundamental, o imprevisto tem de ser domesticado. Isso significa que existe uma confecção mais microscópica das coisas, entre elas da própria escuta, para que não se apresentem contradições substanciais no espectro do mercado. Talvez a definição de pop nesse disco venha de um recuo em relação a esse espectro paramétrico, uma desaceleração ou retrocesso programado com alguma compreensão do precário, do improviso. A recepção doálbum tem enfatizado bastante esse aspecto pop, então eu mesmo sinto mais liberdade pra não ter que afirmá-lo, bastando reconhecer que a esfera da circulação é sim considerada, integra de fato o produto. Penso em Itamar Assumpção, na intuição avançada que ele teve dessa mesma esfera. Foi suficiente para chamá-lo de pop? Hoje já acho que o pop é um conceito a se deduzir mais do que algo tangível a ser aferido com segurança nos produtos contemporâneos. Na verdade, há mais coisas no caminho entre a minha casa e o que toca no supermercado do que sonham os antigos diretores de gravadora ou os algoritmos de streaming. Elas habitam o espaço de encontro com o imprevisto, cada vez mais difícil quando ficamos com o pior dos dois mundos: algoritmos que só levam aos mesmos produtos para que o lucro seja antecipado, em um mecanismo muito próximo de uma persistência do jabá. Certamente eu gostaria que uma parte de A Vida Só Começou tocasse no supermercado, junto com uma parte do material histórico que já toca e junto também com uma parte maior do que se produz de novidade. Me vejo atuando nesse sentido porque não tenho pudor para achar que a música que circula nessa escala de público deva ficar para sempre ali. É interessante as pessoas perceberem contradições desse tipo através do meu disco. Ocupar esse lugar meio impossível, meio imaginário, aponta para um caráter não-sustentável do nosso consumo de cultura, sobre o qual quem lança um disco busca ter alguma interferência, evidentemente. Vários têm realizado esse projeto comigo, e aceito o apoio de quem mais estiver disposto.

Queria falar um pouco sobre “Lambada”, porque podemos aprofundar um pouco a questão do pop da questão anterior. É uma música que poderia estar em dos dois primeiros álbuns do Kid Abelha, digamos. Mas a letra e o arranjo afastam essa sombra logo no início (“como duas ximbras opacas sob os cascos da cavalaria”). Até que ponto você está interessado em levar sua música até o grande público do Brasil 2020?

Interessante você falar em "Lambada", uma das duas que gravei que não tem parte minha na composição. Música e letra são de meu amigo Tazio Zambi, poeta aguçado demais, de linguagem viral e elíptica, simultaneamente camuflada e concreta. Ximbra é palavra alagoana para bola-de-gude que, como uma pequena escultura em palito de fósforo, está em tensão máxima com um "fora" gigante, um contexto opressor. É difícil para mim o cálculo do quanto poderia ser impermeável essa letra. Entre nossa geração e o Kid Abelha existiu o Kid A, falando em elipse, ainda que Tazio não se ligue muito no Thom Yorke. Outro dia me assustei vendo que “Creep” ainda é a música mais tocada do Radiohead no Spotify, então começo a entender a segunda parte da sua pergunta. Apesar disso, desconfio da suspeita de que certas escolhas possam carregar inconscientemente uma auto-sabotagem, no sentido de uma programação voltada para melhores entendedores. Da mesma forma, nunca fez sentido para mim qualquer artifício compensatório de dificultar ou facilitar uma música para o ouvinte que fosse. Sinto que, antes de conseguirmos qualificar a escuta de qualquer um, mais oportuno seria tentar expor os mecanismos que programam e desprogramam ouvidos. Imagino que "Lambada" possa ser das músicas que mais fazem sentido hoje no mundo em quarentena. É a vitória da casinha de sapé, para citar o refrão mais complementar possível de “Revirá”. Talvez nessa comparação a gente encontre uma briga central, forjada entre um realismo psicológico e um utopismo ambiental. Felizmente, em "Lambada" essa dicotomia já está superada.

Semana passada, o Gabriel Thomaz, dos Autoramas, estava dizendo que a palavra “indie” hoje em dia ganhou um significado mais para a MPB e para o sambinha do que para o rock, como era no início da banda dele. E a tua música, embora tenha muitos elementos brasileiros, e do tropicalismo em específico, tem as guitarras e a dinâmica do rock como ponto de partida. Você concorda? O que é ter uma banda de rock em 2020?

A importação do termo indie fala de um nicho que não conseguiu ainda dar o salto para uma sonoridade instigante, menos anestesiada, as bandas daqui que desfrutam desse status atingem seu ápice quando abrem para um artista estrangeiro que já surfa no rótulo. Eu mesmo não sei se ele se refere à independência histórica reivindicada no pós-punk e ao seu correspondente inventivo de fato ou se serve só para preparar o frenesi exagerado em torno de mais um disco hiperglicêmico do Tame Impala. Com o rock talvez aconteça algo parecido. Minha formação primeira é bastante ali, Beatles, Mutantes, Arnaldo Baptista, Rita Lee, mas não sinto necessidade de afirmar o termo para além de declarar essas influências já bem decantadas que aparecem no disco. A busca pela pureza no rock é alguma coisa absurda que ainda carrega o cheiro dos fantasmas que estiveram ou não presentes na passeata contra a guitarra elétrica, a discussão rancorosa do Lobão, o orgulho valvulado, a defesa fálica de um norte-americanismo, ou seja, acaba vindo como uma cultura de pouco interesse, datada. Claro que essa é uma visão da superfície e é assim mesmo que ela faz pra girar todo um mercado de hormônios e historicismo. Fica difícil mencionar, levantar bandeira, por causa do pessoal que queima o filme. Além disso, não sei o que é trabalhar com um termo a priori, muito menos um tão amplo quanto rock. Mas há várias figuras importantes que sobressaem e acabam trazendo consigo outras bandas (muito menos interessantes). Exemplos bem soltos pra tentar pontuar um arco: Raul Seixas, Renato Russo, Julian Casablancas, Rodrigo Amarante, interessam quando expõem as fraturas do rock, ou sua própria ossada. O problema pior acontece quando, com a assimilação do termo indie vindo de certo modo no lugar do termo rock, é introduzida também a noção de conforto.

Você é paulista, mas o álbum foi gravado no Rio e a sua “turma” parece ser a dos neopsicodélicos (ou neotropicalistas) cariocas. Você concorda? Você se enxerga como parte de uma cena, ou de uma geração?

Não acho que quem gravou esse disco se reconheça assim, seja numa neopsicodelia ou num neotropicalismo. De dentro da produção esses termos não são operativos e não houve ainda uma avaliação histórica da música recente que os pudesse nomear. Me parece que os critérios para avaliação não foram ainda formulados, daí a falibilidade e imprecisão dos gêneros. É possível que o sentido mais investigativo às pesquisas harmônicas, timbrísticas, rítmicas os aproximem da abertura tropicalista. Mesmo sendo esse o parâmetro, a presença mais forte do free jazz e do ruído seria suficiente para uma nova e significativa ampliação de horizontes. Também em relação ao caráter mais acadêmico e reverencial de São Paulo há bastante diferença. Acredito que existem muitas razões, entre pessoais, locais e urbanas para isso ter se dado com maior intensidade ali. Em um sentido específico, a cena ou geração a que posso dizer que pertenço está em parte na ficha técnica do disco: quem se puser a rastrear o que cada pessoa ali faz, encontrará materiais musicais ótimos para sobrevivência durante essa quarentena. Sobretudo encontrará talento e vontade suficiente para não se criarem à sombra da música brasileira que os meios tradicionais cuidaram de canonizar e neutralizar.

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