Caetano Veloso: herói da liberdade que lutou por um Brasil melhor
Especial

Caetano Veloso: herói da liberdade que lutou por um Brasil melhor

Quando foi preso pela ditadura militar, junto de Gilberto Gil, em 27 de dezembro de 1968, Caetano Veloso e o movimento tropicalista já haviam deixado uma marca indelével não só na música como na própria cultura brasileira em pouco mais de um ano. Levados de São Paulo ao Rio de Janeiro, os dois passaram os primeiros meses de 1969 enjaulados na vila militar do bairro de Deodoro, no subúrbio carioca. Não havia contra eles nenhuma acusação oficial nem processo formal, a não ser uma fraudulenta e raquítica suposição de terem desrespeitado a bandeira nacional em um show.

O AI-5 havia sido decretado duas semanas antes e, com o poder irrestrito que se reservou ao regime militar, criou-se a oportunidade para privar a qualquer custo os dois artistas justamente daquilo que ambos haviam oferecido de forma radical à cultura brasileira – e que se tornaria a marca essencial da vida e obra de Caetano desde então: a liberdade. Foi por conta de sua liberdade que Caetano foi preso, foi por ela que ele criou, lutou e resistiu, e é em nome dela que o artista atua até hoje com protagonismo único na história do Brasil. Para além do imenso compositor e poeta que é, não seria exagero algum afirmar que Caetano é o maior artista que esse país possui.

Tanto o AI-5 quanto a prisão dos tropicalistas estão em vias de completar 50 anos e, em um bizarro paradoxo, enquanto Gil e Caetano desde então só fizeram reafirmar a grandiosidade de suas obras e atuações, terrivelmente a assassina sede de sangue do ato institucional parece também ainda em voga por aqui – como traço essencial do lado mais sombrio de nossa identidade nacional. E talvez seja por isso também que a obra e a vida de um artista como Caetano Veloso seguem tão importantes quanto em 1968.

Na dimensão da liberdade e do desejo de um país melhor, Caetano parece ser justamente a antítese de qualquer ditadura, e principalmente de qualquer burrice que nos leve a crer no ódio como possibilidade de crescimento. Quando foi preso, tinha lançado somente três discos: “Domingo”, seu belo porém ainda tímido trabalho de estreia ao lado de Gal Costa; “Caetano Veloso”, o primeiro álbum solo; e o histórico “Tropicália ou Panis Et Circensis”, disco-manifesto do movimento, que Caetano realizou ao lado da turma tropicalista. A prisão viria a significar o ocaso do movimento, mas a marca já era tamanha que até hoje é impossível medir qualquer expressão posterior dentro da música brasileira sem perceber a influência direta da Tropicália.

Se hoje a música brasileira é celebrada por seu caldeirão de estilos e ritmos sem perder sua riqueza, isso se deve em muito pelo gesto – corporal, corajoso, radical, belo – de Caetano e dos tropicalistas.

Caetano entendia que a música popular era (como, apesar de tudo, ainda é) o coração afetivo de nossa identidade nacional, o mais importante combustível cultural do sonho de um Brasil melhor - que a medida artística de um Brasil grandioso estava em sua música. Mas além do embrutecido cenário político que regia a política e polícia nacional, o cenário em que nasceu o artista Caetano Veloso e seu movimento era também de um país que cultural e musicalmente se encontrava engessado em disputas dialéticas anacrônicas simbólicas da época – entre proteger a “verdadeira” música brasileira da influência estrangeira, em especial do rock e do pop norte-americano e inglês, entre a música engajada e a música alienada, entre esquerda e direita.

Por isso, não era mais possível deixar a música brasileira amordaçada e limitada por tais disputas empoeiradas. Gil, Tom Zé, Os Mutantes, Gal Costa, Torquato, Capinam, Rogério Duprat e outros, liderados por Caetano, decidiram que não havia mais o que esperar: era hora de atualizar a música brasileira e equaliza-la com o que de mais moderno e radical acontecia no mundo. Era preciso misturar o que era entendido como “alta” e “baixa” cultura, o popular com o erudito, os ritmos nacionais com o rock, o dito “cafona” com o bom gosto, o tradicional com o experimental, o velho com o jovem, sem limites. Os Beatles, Jimi Hendrix e o rock inglês tinham um encontro marcado com Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Carmem Miranda e João Gilberto no ponto exato do coração tropicalista. Se hoje a música brasileira é celebrada por seu caldeirão de estilos e ritmos sem perder sua riqueza, isso se deve em muito pelo gesto – corporal, corajoso, radical, belo – de Caetano e dos tropicalistas.

Assim, foi sem se preocupar em desagradar a todos, da esquerda à direita, em nome da justa e jovem liberdade que Caetano conduziu sua revolução. Depois de trazer ao mundo, em escândalo no Festival da Canção de 1967 (ano da fundação do movimento), o clássico “Alegria, Alegria”, no ano seguinte, três meses antes de ser preso, diante da plateia que o vaiava com intensidade antes mesmo de começar a cantar (e do júri que havia eliminado Gil dias antes) em setembro de 1968, Caetano fez no Festival daquele ano o histórico discurso durante “É Proibido Proibir”, do qual se pode tirar também as bases viscerais do que defendia a revolução tropicalista – como se seus gritos no ambiente do festival fossem também um furioso manifesto improvisado.

De lá para cá, desde que voltou do exílio em Londres, quase dois anos depois da prisão, foram mais de 50 discos, que confirmam no próprio protagonismo de Caetano na música e na cultura nacional a importância incontornável da mudança realizada pelos tropicalistas – tendo suas obras como ilustração de tal revolução. Nada permaneceu intocado nessa libertação: os costumes, a política, a estética, a moda, até mesmo a sexualidade – ou é possível negar, por exemplo, a importância de Caetano para a aceitação e a afirmação da identidade LGBT na cultura nacional?

“Transa”, “Joia”, “Qualquer Coisa”, “Muito”, “Outras Palavras”, “Uns”, “Caetano”, “Estrangeiro”, “Circuladô”, “Livro”, “Noites do Norte”, e os mais recentes “Cê”, “Zii e Zie” e “Abraçaço” – entre realmente muitos outros – são alguns dos exemplos dessa imensa obra, do compositor e artista de 76 anos, e que segue iluminando como um sol não só o quanto a música brasileira pode ser a melhor do mundo, como também a promessa de um Brasil melhor como um todo – mais rico, mais afetivo, mais refinado, mais amoroso e, acima de tudo, mais livre.

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