Cantor de ópera, jornalista com paralisia cerebral se inspira em ‘La Traviata’ para viver
Inspiração

Cantor de ópera, jornalista com paralisia cerebral se inspira em ‘La Traviata’ para viver

No fim da década de 1980, Cassiano Fernandez colecionava histórias da Disney que eram vendidas na banca de jornal. Diagnosticado com paralisia cerebral ainda na infância, ele começou o hábito graças à mãe e à madrinha, que lhe davam exemplares da coleção de presente. Entre os títulos, estava "Willie, a Baleia Cantora", sobre um grande animal marinho que tinha não só o talento de cantar, como também a habilidade de entoar, ao mesmo tempo, três vozes dos naipes masculinos: tenor, barítono e baixo. Ali, Cassiano foi apresentado ao gênero musical que move sua vida até hoje, a ópera.

"Quando eu comecei a descobrir a ópera, a primeira coisa que eu fiz foi procurar as músicas que eu ouvia na história da baleia cantora. Ali foi o início de tudo. Antes, eu não sabia nada de nada", conta Cassiano, jornalista de 32 anos.

Estudioso, ele se aprofundou nos conhecimentos sobre o gênero. Descobriu a ópera "La Traviata", de Giuseppe Verdi, que é sua favorita até hoje. Curiosamente, a ária que abre a história da baleia cantora integra a obra do compositor italiano. Dali em diante, se tornou cada vez mais um especialista teórico da ópera. Foi quando percebeu que poderia dar um passo a frente.

"Eu pensei: 'por que não posso cantar?' e vi que, na verdade, eu poderia se quisesse. Sabia que teria limitações, como de fato tenho, mas é um desenvolvimento semanal. Cada semana são novos erros e novas descobertas. Hoje em dia eu sou considerado um especialista no assunto", afirma o cantor.

Especialista em ópera, Cassiano Fernandez superou medos para ser cantor / Foto: Arquivo pessoal
Especialista em ópera, Cassiano Fernandez superou medos para ser cantor / Foto: Arquivo pessoal

Já há oito anos, ele estuda canto com Mirna Rubim, cantora lírica e preparadora vocal. Os dois se conheceram ao acaso, durante uma apresentação em que estavam na plateia. Do encontro, nasceu uma amizade incrível. Em 2016, chegaram a estrelar juntos uma peça de teatro, "Paradinha Cerebral". "Na última ou penúltima noite da temporada, o Miguel Falabella e a Alessandra Maestrini foram e adoraram. Foi a partir disso que eles tiveram inspiração para criar o espetáculo 'O Som e a Sílaba', em cartaz atualmente com a Mirna e a Alessandra", diz.

"Uma das coisas mais marcantes para mim foi o dia em que eu consegui encaixar minha voz no buraco certo, para começar a ter aquela sensação de amplitude do som. Meus primeiros cinco anos foram dedicados a isso, era minha grande dificuldade. A partir disso foi uma questão de desenvolvimento", explica. "Eu costumo dizer uma coisa que eu aprendi com a grande Maria Callas, que é o ícone desse movimento musical: quanto mais eu aprendo, menos eu percebo que eu domino. Então é um aprendizado eterno".

A cantora grega, morta em 1977 e considerada um dos maiores nomes da ópera, é sua maior inspiração. Cacá, como Cassiano é chamado pelos amigos, lamenta não tê-la visto se apresentar ao vivo, mas afirma ter aprendido muito com suas entrevistas, aulas e explicações.

"O interessante é que a Callas é uma das cantoras do chamado ciclo de ouro da ópera, da década de 1950, que menos se queimou publicamente. Tudo que ela falava, inclusive no sentido técnico do canto, há 40 anos, hoje em dia é super atual. É uma referência que nunca sai de moda", explica o jornalista.

Apesar das minhas limitações, eu quero ser sempre livre e alegre

Há quatro anos, Cacá trabalha em uma agência de publicidade no Rio de Janeiro. Por ter a carga horária de trabalho reduzida, ele consegue tirar as sextas-feiras de folga para suas atividades, incluindo a aula de música e a produção de vídeos para seu canal no YouTube.

“A música representa libertação. Apesar das minhas limitações devido à deficiência, eu posso fazer o que eu quiser. Eu vou cantar, mal ou bem, mas eu vou cantar”, diz, categórico.

“É irônico porque a canção que abre a história da baleia cantora, que faz parte de 'La Traviata', se chama ‘Sempre Libera’, que quer dizer ‘sempre livre’. Ela diz: ‘sempre livre eu quero viver / transbordante de alegria / minha vida a correr / pelos campos do prazer / seja dia ou seja noite / sempre alegre quero estar’. E continua: ‘em busca de deleites sempre novos que deve o meu pensamento voar’. É exatamente isso. Essa música, que é minha favorita e que foi a primeira que eu ouvi, diz exatamente o que é a minha vida: apesar das minhas limitações, eu quero ser sempre livre e alegre”.

'Paradinha cerebral': Cartaz do espetáculo protagonizado por Cassiano / Foto: Reprodução
'Paradinha cerebral': Cartaz do espetáculo protagonizado por Cassiano / Foto: Reprodução

Canais de Marcas

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest