Cantora Urias usa a música para dar força e esperança à comunidade trans
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Cantora Urias usa a música para dar força e esperança à comunidade trans

Talvez você já tenha ouvido falar de Urias como “a amiga de Pabllo Vittar, mas a mineira de 24 anos é mais do que apenas parça da cantora. Ela própria está prestes a lançar a primeira mixtape da carreira e, a julgar pelo time por trás do trabalho, é possível que em breve esteja ao lado de Pabllo também nas concorridas playlists de sucessos dos serviços de streaming. Os notórios produtores de hits Gorky, Maffalda e Zebu comandarão as bases da mixtape.

Urias começou a carreira no mundo da moda, como modelo fotográfica e de passarela. Porém, desde muito antes de “brincar” de cantar com Pabllo pelo campus da Universidade Federal de Uberlândia, onde cursava Tradução, já se imaginava no palco. “Sabe aquele sonho que você tem quando criança, mas que tem meio que a consciência de que pode não acontecer?”, aponta. Enquanto Pabllo trilhava o caminho da música, Urias envederou pelas passarelas. Testemunhar os passos bem-sucedidos da amiga foi, claro, um incentivo extra. “Vê-la com certeza me inspirou. Não só a mim, como ao Brasil inteiro, no sentido de ‘vá atrás dos seus sonhos, não deixa ninguém te falar não’. Representividade é, sim, muito importante”. As duas cantam juntas na faixa “Ouro”, lançada por Vittar no disco “Não Para Não”, de 2018.

Ela fala de representatividade com conhecimento de causa. Urias sempre foi, como diz, a “criança diferentona” da família, a que recebia olhares tortos na escola, a que era perseguida pelos valentões ao sair da sala de aula. Demorou alguns anos para que ela se descobrisse/se aceitasse como transexual.

As estatísticas do Brasil, o país que mais mata transexuais no mundo, não ajudaram nesse processo de admissão. Tampouco o fizeram as perspectivas de futuro como mulher trans. “Tinha o medo de não arrumar emprego, de ter que ir para situações extremas, ter que considerar estilos de vida que não são seguros… Eu me preservei, esperei um momento em que estivesse física e financeiramente bem para começar minha transição”, explica. “Não contei nada para ninguém, eu só comecei. Minha mãe foi vendo e perguntando. Mãe tem esse negócio, né. Quando confirmei pra ela, chorei muito. Foi bonito. Meu pai ainda não está muito preparado, ainda está digerindo a informação. Aos poucos a gente vai botando a cabeça de todo mundo no lugar, explicando direitinho… Cada um possui um tempo para as coisas, né?”, diz ela, que tem ainda um irmão, de 20 anos, a quem define como “o melhor homem do mundo”.

Ao mesmo tempo que os dias atuais me trouxeram muito medo, também me trouxeram muita força. Eu senti que agora é a hora de a gente se unir, de a gente mostrar nossa força, de a gente apoiar os nossos artistas

Urias transmite a consciência de que, apesar das adversidades, contou com o acesso a direitos muitas vezes negados a pessoas trans: uma família que a apoia, um teto (muitos transexuais acabam nas ruas por serem expulsos de casa) e a possibilidade de uma carreira profissional distante das ruas. É por isso que ela quer usar a música para inspirar seu público, especialmente o LGBTQIA+. A mixtape de estreia deve sair neste semestre, com um single previsto para os próximos meses. “Estou mandando uma mensagem que eu acho que é importante, sobre a minha vivência e a de pessoas que são como eu, que não leem e não ouvem as histórias delas nos lugares”. As letras estão sendo compostas em parceria com o compositor e guitarrista Hodari.

“O mundo da transexualidade não é apresentado. Na verdade, ele é negado”, ela continua, discorrendo sobre a importância de se ver representada nas artes, nos telejornais, nas mídias – na vida, enfim. “A transexualidade é apontada como errada. Você cresce com aquilo na cabeça: ‘Não posso ser isso, todo mundo fala que é ruim, que é mau’. Hoje, eu me imponho numa onda de muita segurança, porque se você se mostrar abalada, as pedradas te acertam. E a gente aprende a lidar com os olhares tortos por uma questão de sobrevivência”.

Urias se mudou para São Paulo há alguns meses e divide morada com a cantora Candy Mel, ex-vocalista da Banda Uó. Curiosamente, Mel era um dos ídolos de Urias na resistência trans (“Mas não conta pra ela, se não vai ficar aqui se achando dentro de casa”, brinca). Liniker e Linn da Quebrada são outros nomes da música e do meio LGBTQIA+ que ela admirava e com quem tem hoje a oportunidade de conviver.

Enquanto as canções autorais não saem, Urias pretende fazer shows de covers pelo Brasil. Conhecer ídolos, gravar as próprias músicas, sair em turnê: uma série de sonhos tem se desenrolado à frente da artista mineira. Sonhos que, não muito tempo atrás, eram impensáveis para uma mulher como ela. Por esse motivo, Urias reforça a mensagem de se manter de cabeça erguida em meio às ondas de preconceito. Faz isso por si, pelas pessoas que representa no palco e por toda a comunidade que a cerca. “Ao mesmo tempo que os dias atuais me trouxeram muito medo, também me trouxeram muita força. Eu senti que agora é a hora de a gente se unir, de a gente mostrar nossa força, de a gente apoiar os nossos artistas”, decreta. “E mostrar que a gente não só vende, a gente é gente. Temos que exalar esperança para dar força para nós mesmos”.

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