Cara gente branca, vocês escutam mesmo as letras de seus rappers negros favoritos?
Inspiração

Cara gente branca, vocês escutam mesmo as letras de seus rappers negros favoritos?

Por Milena Coppi e Bárbara Martins

Por trás dos beats de hip-hop, de improvisos famosos e samples conceituados, há, certamente, uma mensagem nas faixas dos artistas negros mais famosos da atualidade. Djonga, Emicida, Drik Barbosa, Rico Dalasam, Karol Conka... Todos eles, em grande parte de suas músicas, aproveitam as letras para incluir nelas as experiências da negritude, seja de forma positiva, exaltando o poder e a beleza de sua história, ou negativa, colocando o dedo na ferida do preconceito de cor ainda enraizado entre a sociedade branca.

Prestar atenção nos raps e nos versos que eles trazem é fundamental para compreender privilégios e a dimensão da realidade de homens e mulheres negras atualmente. É exatamente por isso que todos precisam ouvir as canções de mente aberta e coração quente e entender que a música também é uma arma contra o racismo — seja ele explícito ou velado. Porque não basta lotar shows de rap. Você escuta mesmo o que seus rappers favoritos cantam?

Pensando nisso, destacamos trechos sobre a experiência negra nas letras de oito artistas brasileiros. Elas falam sobre violência policial contra populações negras e periféricas, distribuição de renda, beleza natural, meritocracia, igualdade racial, relações inter-raciais, ancestralidade africana, entre outros assuntos. Pare, ouça, leia e reflita.

‘Falcão’, de Djonga

"O que adianta eu preto rico aqui em Belo Horizonte
Se meus iguais não podem ter o mesmo acesso à fonte?
Eu já fui ponte, agora só querem passar por cima
Algo te explica por que quando eu canto esquenta o clima?
Olho corpos negros no chão, me sinto olhando o espelho
Corpos negros no trono, me sinto olhando o espelho
Olho corpos negros no chão, me sinto olhando o espelho
Que corpos negros nunca mais se manchem de vermelho"

‘Bate a Poeira’, de Karol Conká

"O preconceito velado
Tem o mesmo efeito, mesmo estrago
Raciocínio afetado
Falar uma coisa e ficar do outro lado
Se o tempo é rei vamos esperar a lei
Tudo que já passei nunca me intimidei
Já sofri, já ganhei, aprendi, ensinei
Tentaram me sufocar mas eu respirei
Há tanta gente infeliz
Com vergonha da beleza natural
É só mais um aprendiz
Que se esconde atrás de uma vida virtual
Gorda, preta, loira o que tiver que ser
Magra, santa, doida somos a força e o poder
Basta, chega, bora, levanta a cabeça e vê"

‘Principia’, de Emicida

"É mil volts a descarga de tanta luta
Adaga que rasga com força bruta
Deus, por que a vida é tão amarga
Na terra que é casa da cana de açúcar?
E essa sobrecarga frustra o gueto
Embarga e assusta ser suspeito
Recarga que pus, é que igual Jesus
No caminho da luz, todo mundo é preto"

‘Braille’, de Rico Dalasam

"Caro menino branco
Esse nosso encontro pede a lucidez
De saber o lugar que me encontro
E você, por sua vez
Se é pra andar ao meu lado, saiba que
Alguém foi senhor
Alguém foi escravo
E, entre nós, esse espaço
Pede alguns passos"

‘Melanina’, de Drik Barbosa (feat. Rincon Sapiência)

"Aprendi na marra
Coitado do que vive numa bolha
Sua opinião não me atrapalha
A milhão feito Amiri na Êta Porra!
Cada linha é orra, faz o Shrek urrar
Eles querem status, eu quero é voar
Eles quebram a cara e eu quebro padrões
Saiam do caminho que nós vai passar
Então tenta testar que eu vou atestar
Minhas rimas de peso vêm pra contestar
Nossa pele preta vem pra contrastar
Tô cheia de luz, me chame de luar"

‘Capim Guiné’, de BaianaSystem (feat. Titica e Margareth Menezes)

"Multiplicados somos mais fortes
Não precisamos depender da sorte
Mesmo sem saber o paradeiro da bússola
Nunca perdemos o Norte
Perdido por um, perdido por mil
É assim em Angola, é assim no Brasil
Podemos ser dois, o cobertor ser um
Se somos unidos, ninguém passa frio
Povo sem cultura é um povo vazio
A pior escravidão é a mental
Sozinho ninguém vai distante
Tropeça na vida e depois cai na real"

‘Boca de Lobo’, de Criolo

"Aonde a pele preta possa incomodar
Um litro de Pinho Sol pra um preto rodar
Pegar tuberculose na cadeia faz chorar
Aqui a lei dá exemplo mais um preto pra matar
Colei num mercadinho dum bairro que se diz 'pá'
Só foi meu pai encostar pros radin', tudin' inflamar
Meu coroa é folgado das barra do Ceará
Tem um lirismo bom lá, louco pra trabalhar"

‘Shonda’, de Tássia Reis (feat. Froid e Preta Ary)

"Bem que podia ser um filme
Do vilão e a guerreira firme
Sem ter que ser 3 vezes mais, e ainda estar atrás, não importa o que eu rime
Aceita me, aceita a Pre
Mas também se não quiser que foda-se
O medo de eu avançar assusta-te
O medo já não me pertence que seja você
A preta no topo é problema?
Respeita meus corre minha história na cena
Eu vim pra quebrar o esquema, toda trabalhada e vitória é meu tema"

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