Carne Doce olha para além do indie em seu novo single e clipe 'Temporal'
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Carne Doce olha para além do indie em seu novo single e clipe 'Temporal'

Inicialmente um projeto do casal Salma Jô e Macloys Aquino, o grupo goiano Carne Doce foi ganhando músculos, com trocadilho, por favor, ano após ano, se transformando numa eficiente banda de palco, processo registrado nos três álbuns da banda. O último, “Tônus”, foi considerado o melhor de 2018 pela votação do Scream & Yell, ”Guia da Folha” e o terceiro melhor do ano pela “Rolling Stone”, até que chegou 2019, quando tocaram no Lollapalooza, na Virada Cultural, em um monte de Sescs, no Auditório Ibirapuera e no Centro Cultural, saíram em sua primeira turnê internacional e finalmente bateram a cabeça no baixo teto do circuito indie brasileiro.

O que quer dizer que 2020 começa com o dilema para o grupo, entre andar em círculos ou avançar. É assunto parecido com o que tratamos nesta coluna da semana passada, sobre como as rádios, que seriam o próximo passo para o Carne Doce, estão fechadas para tudo o que não seja “Californication” desde antes de banda surgir.

O som do Carne Doce é agradável mas incômodo; difícil rotular, mas fácil de adjetivar: elegante, sexy, angular. Na falta de definição melhor, a própria banda se define como “indie” que, como sabemos, deveria ser muito mais um contingente do que um tipo de música. De um jeito ou de outro, convém prestar muita atenção nos próximos passos dessa gente.

O primeiro fruto do próximo álbum está sendo lançado hoje, 17 de janeiro. É o single “Temporal”, uma espécie de guitarrada com trip-hop de baixa rotação, densa e, naturalmente, elegante, sexy, angular. A música antecipa o que Salma define como o passo mais pop do grupo, o que nos deixa a todos de antenas ligadas. O que o Carne Doce entende como “pop”, e como eles trabalham sobre esse entendimento, são as cenas do próximo capítulo.

Salma Jô, do Carne Doce/ Filipa Aurélio (Divulgação)
Salma Jô, do Carne Doce/ Filipa Aurélio (Divulgação)

O clipe, também lançado em 17 de janeiro, você vê abaixo. Ele reorganiza imagens do documentário “Paulistas” (de 2018, de Daniel Nolasco) para contar a história de uma festa goiana interrompida por uma queda de energia elétrica. Letra e clipe tratam da má relação humana como o meio ambiente e do colapso ambiental. Mas há muito mais por trás, como você confere mais abaixo nessa entrevista com a vocalista do Carne Doce, Salma Jô:

O clipe de “Temporal” vai revelando seu sentido aos poucos. Até 2/3 dele, ele soa como uma sobreposição (ou contraposição) entre a música climática e mais cerebral e sofisticada do Carne Doce e o ambiente mais popular e instintivo de um forró em Catalão. Queria que você falasse um pouco sobre essa impressão inicial. Ela ocorreu à banda?

Nós não pensamos nessa contraposição. O que primeiro nos atraiu no filme de onde tomamos emprestadas essas imagens foi mesmo o tema socioambiental, porque ele fala da extinção de uma comunidade (Paulistas, vizinha a Catalão, em Goiás) por causa do êxodo rural. No filme, o diretor Daniel Nolasco faz o retrato de uma família em particular, cujos filhos se mudaram para cidades maiores, mas nas também havia a questão da exploração da natureza até seu esgotamento, do urbano versus rural versus a natureza selvagem. A gente já havia abordado essas questões em “Sertão Urbano”, do nosso primeiro disco. Além disso, aquele é um ambiente mais que familiar para nós. As pessoas, as roupas, a comida, a cultura toda ali é a nossa cultura, é a nossa identidade. Ainda que a gente more na capital (Goiânia) e faça indie, e que também tenhamos ao longo da vida nos afastado e perdido o vínculo com o interior, com a roça e com a natureza, a nossa cultura rural/sertaneja é muito forte, sentimos um carinho e uma simpatia especial pelo retrato dessa festa e dessas pessoas.

Você acha que vocês são bem resolvidos quanto a ainda não terem “furado” as barreiras mais populares do Brasil ou esse ambiente retratado no clipe é um referencial para vocês?

Acho que somos bem resolvidos no sentido de que gostaríamos, sim, de furar essa barreira do underground, e até do midstream. Gostaríamos de fazer uma música mais popular, de atingir um público maior, emocionar mais pessoas. Mas não sabemos exatamente como fazer isso, ou como fazer isso de maneira autêntica. Definitivamente não queremos ser a referência de “banda que não fura barreiras”, hehe. Acredito até que, mesmo que não muito numeroso, conseguimos atingir um público bem diverso, que escapa dessas barreiras, e nos orgulhamos especialmente disso.

Um aspecto interessante da edição do clipe é que em nenhum momento vocês tentam o recurso óbvio, que seria sincronizar o áudio com as imagens, de modo que soasse como se aquelas pessoas estivessem dançando ao som de “Temporal”. Entretanto, aos 4’30, começa uma espécie de “coda” em que tudo parece se encaixar. Como foi o processo de colocar essas imagens para “dançar” ao som da sua música?

A gente realmente não percebeu essa sincronia. Para mim, há alguns momentos bem específicos em que a música casa perfeitamente com as imagens, no restante eu tenho certeza de que está rolando música sertaneja. O mérito dessa edição é todo do Ricardo Alvez.

Depois dessa sincronia, chegamos ao ponto em que a mensagem da música e do clipe se esclarecem: colapso ambiental. Atualmente, chegamos a um ponto das discussões em que a preocupação ambiental virou coisa de “esquerda”. Por outro lado, vamos admitir, hoje há uma enorme geração de novas bandas com muito engajamento discursivo e pouca música. Como você enxerga o Carne Doce nesse tabuleiro?

A gente se identifica com pautas progressistas, mas não somos engajados. Não tenho problemas com música engajada, mas quando faço letras com temas políticos, estes são mais pano de fundo a serviço das emoções, e isso é do meu estilo, a serviço das emoções egoístas, apaixonadas. É nisso que minhas letras são bem-sucedidas, e não na mensagem política. “Temporal” tem esse tema do colapso climático ou ambiental, mas o sentimento que para mim se destaca é o de arrogância e superioridade, de que no fundo, no fundo mesmo, o homem não acredita no apocalipse, na própria extinção; ele acredita em milagres, na sua salvação, que vai conseguir subir um morro, escalar uma árvore, mudar de cidade, fazer a hashtag ideal, entrar na última arca antes do dilúvio.

O que você pode adiantar sobre o próximo disco da banda? Vocês acham que ainda há espaço para crescer no circuito indie nacional ou há planos para olhar para outros horizontes?

Acho que apesar dessa primeira impressão sofisticada de “Temporal”, o próximo disco terá umas músicas bem simples e talvez as mais pops que fizemos até agora. E esperamos que ele nos ajude a ampliar e diversificar ainda mais nosso público, para além do indie, é claro.

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