Cazuza: Roberto Menescal, Rodrigo Santos e Leila Pinheiro enriquecem harmonias do 'exagerado' em clima de piano bar do Baixo Leblon
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Cazuza: Roberto Menescal, Rodrigo Santos e Leila Pinheiro enriquecem harmonias do 'exagerado' em clima de piano bar do Baixo Leblon

Se o envolvimento de Cazuza com a bossa nova foi breve, com "Faz Parte Do Meu Show" (parceria com Renato Ladeira) e "Doralinda" (com João Donato), um novo projeto o aproximou do gênero, comprovando mais uma vez o quanto suas canções são ricas e versáteis. Depois de alguns shows em 2017 e 2018, Roberto Menescal, Leila Pinheiro e Rodrigo Santos lançam “Faz Parte do Meu Show: Cazuza em Bossa”. Gravado no final do ano passado, o projeto apresenta oito músicas, com ideia de fazer mais lançamentos à frente, pois o trio tem um repertório pronto de 20 canções.

Com novos arranjos e melodias para obras do cantor e compositor carioca que morreu há três décadas, “Faz Parte do Meu Show: Cazuza em Bossa” foi gravado no estúdio da gravadora Som Livre. No repertório, além do clássico que dá nome ao projeto, estão “Preciso Dizer Que Te Amo”, “Codinome Beija-Flor”, “O Tempo Não Para”, “Por Que A Gente é Assim?”, “Exagerado”, “Ideologia” e “Pro Dia Nascer Feliz”.

"O Luis Paulo Assunção, meu amigo e produtor do Rodrigo, sugeriu que fizéssemos um show baseado em rock, mas puxando para a bossa nova. Então começamos a nos reunir num estúdio em Ipanema e o projeto foi nascendo aos poucos", conta Roberto Menescal, ao Reverb. Rodrigo dá mais detalhes desse início: "O Roberto iria participar de um show meu no Teatro Rival e perguntou o que nós poderíamos tocar. Sugeri 'Pro dia Nascer Feliz', que eu havia gravado no meu DVD de 2010, e 'Roxane'', que ele tinha feito com Andy Summers (no DVD "United Kingdom of Ipanema"). Passou um tempo e voltamos a nos encontrar, movidos pela ideia do Luis Paulo, e começamos a fazer algumas músicas, como 'Codinome Beija Flor' e 'Blues Da Piedade'".

Foi nessa época que o projeto ganhou mais um adepto. Leila Pinheiro assistiu a uma apresentação do Call The Police (grupo formado por Rodrigo, Andy e João Barone) e ligou para Roberto para dizer o quanto gostou da performance de Rodrigo no palco. Bastou o amigo comentar sobre o que os dois andavam ensaiando que ela logou se ofereceu: "Estou dentro!".

Rodrigo, Leila e Roberto: trio gravou oito canções de Cazuza em ritmo de bossa nova. Foto: Divulgação
Rodrigo, Leila e Roberto: trio gravou oito canções de Cazuza em ritmo de bossa nova. Foto: Divulgação

Os ensaios começaram em 2017 e eram invariavelmente na casa de Leila. "Foram uns quatro meses, passávamos tardes e tardes cantando, registrando os arranjos, com lanchinhos e tudo", brinca Rodrigo. Roberto diz que chegaram a revisitar entre 25 e 30 músicas para chegar às 20 do repertório do show. "Nós íamos vendo quais ficavam melhor nesse formato, que no palco fica algo íntimo, bacana", diz Roberto em relação ao trio onde ele toca guitarra, Leila, piano, e Rodrigo, baixo. Durante os encontros também foi escolhido quem cantaria o quê. "Os ensaios foram definindo naturalmente os duetos e solos. Fomos achando juntos o que era mais apropriado para o tom da Leila e para o meu, sempre de forma equilibrada", conta o baixista, que tocou no Barão Vermelho entre 1992 e 2017.

Um dos aspectos mais interessantes de “Faz Parte do Meu Show: Cazuza em Bossa” é que as músicas ganharam outra sonoridade, em função do cuidadoso trabalho de arranjos e do carinho com as melodias. "As harmonias mudaram muito a cara das músicas, valorizando a melodia de forma honesta, sem agredir a sonoridade original — essa é a tônica do projeto. Acho que todas ganharam um diferencial bom em relação às originais e creio que os parceiros do Cazuza estão gostando", analisa Roberto.

Segundo Rodrigo, o projeto, impulsionado pela "musicalidade absurda da Leila e do Roberto", acabou ficando bem mais plural. "Tem hora que é blues, tango-bossa ou um rock diferente. Essa foi a grande sacada do projeto, mergulhar e mudar tudo que pudesse, sem deformar. Buscamos a sofisticação dos arranjos e melodias, mas com a coisa de manter a ligação com a originalidade da obra do Cazuza", diz ele, exemplificando com "Exagerado", uma das que ficaram bem diferentes da gravação original. "Eu lembro que essa eu fiz em casa ouvindo James Taylor", conta.

Roberto, Leila e Rodrigo prepararam 20 músicas — "Bete Balanço", "Maior Abandonado", "Um Trem Para As estrelas", entre elas —, que formaram o repertório do show. Mas nesse primeiro lançamento, em CD e DVD, elas foram reduzidas a oito. "Chegamos a pensar em gravar nas apresentações que fizemos no Vivo Rio e em outros espaços, mas seria difícil, não conseguiria um resultado perfeito. Um dia fui à Som Livre para outra coisa e comentei sobre esse projeto, e nos convidaram para gravar lá. Tínhamos essas 20 canções já preparadas e gravamos oito porque a gravadora falou que iria lançar pelas plataformas digitais. Então, para um repertório maior, seria bom trocar de cenário e figurinos. A ideia é depois lançar as outras com essa mudança de visual", explica Roberto. "Ficou com um clima intimista, parecendo o piano bar do Real Astoria que Cazuza gostava de frequentar", descreve Rodrigo, lembrando o antigo reduto da boemia carioca no Baixo Leblon.

Como todos os outros artistas do planeta, eles estão em isolamento social e tiveram vários compromissos adiados ou cancelados. Rodrigo conta que estava num ritmo de 20 shows por mês e também compondo direto com o Guto Goffi — eles vão lançar disco com Os Britos (projeto em homenagem aos Beatles com os dois, George Israel e Nani Dias). "Estava finalizando ainda meu livro 'Diário de Bordo', onde conto histórias das turnês. Acabou que tudo vai ficar para o ano que vem mas confesso que eu estava cansado, precisando dar uma parada mesmo", diz Rodrigo, que vem fazendo lives não só de música mas sobre dependência química pelo seu instagram.

Roberto também estava envolvido em vários trabalhos que precisaram ser adiados, como a turnê do grupo Os Bossa Nova ao lado de Carlos Lyra, Marcos Valle e João Donato. "Eram perto de 20 datas, que passaram para setembro, e já queriam marcar algumas apresentações extras pois já estava tudo vendido", diz, satisfeito. Ele lembra que chegou a lançar o CD, mas não deu tempo de fazer shows com o Bossacucanova, e que foram canceladas algumas produções que faria e uma apresentação com Carlos Lyra e Wanda Sá. "Quando voltarmos, vai estar tudo melhor. Afinal, como canta Milton Nascimento, 'nada será como antes, amanhã'", diz, esperançoso, do alto de seus 82 anos de experiência.

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