Chico Science: o poeta, pensador, performer e agitador da música brasileira
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Chico Science: o poeta, pensador, performer e agitador da música brasileira

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Na linhagem de grandes discos brasileiros, as décadas de 1950, 1960 e 1970 predominam como um período áureo insuperável, quando a música nacional alcançou um patamar sem igual no mundo. Tornou-se comum, portanto, uma nostálgica impressão de que, passada a incrível geração 80, a música brasileira teria entrado em um declínio da qual não mais saiu. Trata-se, é claro, de um conservador engano: basta notarmos apenas o ano de 1994 para sabermos que os anos 1990 também foram uma década florida na nossa música, com discos como “Calango”, do Skank, “Samba Esquema Noise”, do Mundo Livre S/A, o primeiro e homônimo disco dos Raimundos e “Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão”, de Marisa Monte, entre outros. 

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Há um disco em especial lançado nesse já longínquo ano, no entanto, que não só redefiniu todos os parâmetros estéticos da música brasileira como pode ser hoje colocado próximo ao topo da lista dos melhores de todos os tempos: “Da Lama ao Caos”, a estreia de Chico Science e Nação Zumbi, trouxe à luz nosso último movimento musical importante, o Mangue Beat, e um puro gênio como os heróis de antigamente. Deslocando o centro da mais moderna e excitante música feita no país do eixo Rio-São Paulo-Belo Horizonte para o Recife, Chico Science desenterrou a ancestral cultura popular do nordeste, e a transformou no que poderia existir de mais moderno.  

 Enfiando uma antena parabólica na lama do mangue, o movimento liderado por Francisco de Assis França colocou não só as tradições do Recife alinhadas ao mundo, mas principalmente colocou o mundo no centro de Pernambuco 

Enfiando uma antena parabólica na lama do mangue, o movimento liderado por Francisco de Assis França colocou não só as tradições do Recife alinhadas ao mundo, mas principalmente colocou o mundo no centro de Pernambuco – como um tropicalismo pós-utópico, o Mangue Beat não deve nada ao que se fazia nos grandes centros urbanos do planeta nos anos 1990.  O maracatu, a ciranda e o coco misturaram-se com o hardcore, o metal, o rap e o rock em clássicos como “Banditismo por uma Questão de Classe”, “A Cidade”, “A Praieira”, “Rios, Pontes & Overdrives”, “Computadores Fazem Arte” e a música que batiza o disco. 

Para celebrar artistas do povo como Mestre Salustiano e Jackson do Pandeiro em colisão com o rock, o hip hop e a música negra, CSNZ mergulharam na realidade imediata a sua volta e assim tornaram-se universais. De nenhum outro lugar do planeta poderia sair a música que Chico e seus companheiros da Nação passaram a fazer – e nenhuma outra música jamais soou como soava a Nação Zumbi com Chico Science a sua frente, envenenando a cultura regional para mostrar sua força essencial. O maracatu voltava à cena, com a força de algo novo e provocador. 

Como um quebra-cabeças invisível, inesperado e perfeito, a Nação Zumbi encontrou um sentido extremo ao misturar Jimi Hendrix com Jorge Ben, tambor com distorção, Gilberto Gil com hardcore, Gonzagão com o metal – em um discurso faca-afiada que transformava a “Geografia da Fome” do grande geógrafo recifense Josué de Castro em um poema em embolada, um rap em tiroteio, uma crônica cantada, um cordel gritado. Movendo-se como caranguejos, os mangueboys e manguegirls do Recife queriam o mundo, sem esconder a pobreza e a violência, sem se envergonhar, mas celebrando a força que movia e ainda move Recife e o Nordeste a transformarem as mazelas na melhor arte do mundo. 

Dois anos depois de sua estreia, Chico Science e Nação Zumbi iriam além com a antena enfiada no mangue, e a conectariam à internet. “Afrociberdelia”, o segundo disco da banda e último com Chico, se tornaria não só uma sequência à altura de um “Da Lama ao Caos”, como foi um dos primeiros trabalhos a entender a incipiente internet de 1996 como um campo estético e ético radicalmente pleno em possibilidades. 

A morte precoce de Chico em um acidente de carro em 1997 encerrou objetivamente a vida de um dos mais influentes e originais artistas brasileiros, mas não a força de sua música. O repertório de “Afrociberdelia” e “Da Lama ao Caos” é e deve ser celebrado à altura de discos como “Tropicalia” ou “Acabou Chorare”. Recife segue um ponto incontornável do mapa musical brasileiro, assim como a Nação Zumbi é uma das maiores e mais importantes bandas do país. Passados mais de 20 anos de sua morte, Chico permanece não só como a força maior por trás dessa revolução na geografia estética e na musicalidade nacional, como também como um dos mais talentosos e importantes poetas, pensadores, performers e agitadores da música brasileira. 

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