Chorão: contradições e trajetória trágica marcam documentário que levou seis anos para ser finalizado
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Chorão: contradições e trajetória trágica marcam documentário que levou seis anos para ser finalizado

Entre os filmes que participam da Mostra Retratos Musicais do Festival do Rio, está "Chorão — Marginal Alado". O documentário sobre o cantor e compositor, líder da banda Charlie Brown Jr., é o primeiro longa do diretor Felipe Novaes, que levou seis anos para finalizá-lo. "Chorão tinha uma capacidade incrível de aglutinar pessoas diferentes, fosse patricinha, maconheiro ou rapper — todos gostavam dele. E acho que isso foi muito importante para que o projeto fosse adiante", afirma Felipe, lembrando que a pré-produção começou com um crowdfunding.

Muitas imagens de arquivo e depoimentos de amigos e músicos mostram a influência da música de Chorão em várias gerações. Divulgação
Muitas imagens de arquivo e depoimentos de amigos e músicos mostram a influência da música de Chorão em várias gerações. Divulgação

Alexandre Magno Abrão, o Chorão, morreu em março de 2013, aos 42 anos, por overdose de cocaína. Mas em pouco tempo de vida, construiu uma trajetória dentro do pop rock nacional que influenciou pelo menos duas gerações de músicos e que mantém, até hoje, o Charlie Brown Jr como uma das bandas mais escutadas no Spotify dentro do gênero. "Ao conversar com algumas pessoas percebi que a morte dele despertou discussões muito maniqueístas. E eu sabia que aquela situação era muito mais complexa. Eu achava que sua vida e sua carreira poderiam ser abordadas com maior profundidade", conta Felipe, que lembra que Chorão foi difamado no cenário musical. "Uma das coisas que o filme quer comprovar é que, pelo contrário, o músico tem o respeito dos profissionais da área", afirma.

"A ideia era mostrar a vida do Chorão no contexto da época. Então, aborda a cena marginalizada do skate dos anos 1980, a importância do rock, suas influências — 'Usuário', primeiro álbum do Planet Hemp, por exemplo, foi uma das principais", relata.

Felipe conta que reuniu 20 horas de entrevistas e que depois partiu para a pesquisa de mais de 2 mil horas de imagens, a maioria oriundas de emissoras de TV. "Um terceiro momento foi quando tínhamos quase o primeiro corte pronto e chegaram às nossas mãos os arquivos pessoais dele. Mergulhamos naquelas imagens! E isso com uma equipe de quatro pessoas, onde cada um assistia a cinco horas de material diariamente e depois fazíamos juntos uma triagem do que era relevante", explica.

O cantor e compositor Marcelo Nova é o primeiro entrevistado do documentário. O diretor explica a ordem "prioritária" que deu ao vocalista do Camisa de Vênus, que pertence a uma geração anterior à de Chorão. "O relato dele é importante porque mostra como os artistas têm um papel marcante para as novas gerações. Marcelo diz que Chorão foi o responsável por seu renascimento quando o convidou a gravar 'Hoje'. Ele disse que a garotada o parava para perguntar 'você não é o tiozinho do clipe do Charlie Brown?'", ri.

Entremeando as muitas imagens de shows, entrevistas, manobras de skate e viagens de turnês pela estrada, há depoimentos ainda de João Gordo, Serginho Groisman, Digão (Raimundos), Rick Bonadio, o irmão Ricardo e o filho Alexandre (que aparece também em uma imagem de arquivo, ainda criança, cantando com o pai em um show). "O Maurício Curi, amigo e advogado de Chorão, é como se fosse um fio condutor dos depoimentos, pois ele consegue dar um aspecto pessoal e também profissional em seu depoimento. Há algumas pessoas que eu queria incluir mas não foi possível por desencontros de agenda, como Marcelo D2 e Falcão", complementa o diretor.

Os integrantes originais do Charlie Brown Jr relutaram, a princípio, em participar do documentário. "Tinham se passado seis meses da morte do Chorão, e eles estavam recolhidos. Um dia liguei para a empresária mais uma vez e insisti que a participação deles era muito importante. Ela me pediu dois minutinhos e, quando voltou, perguntou: 'Você pode vir agora aqui?'. Claro que chamei correndo a equipe e fomos lá fazer os registros", conta Felipe. Sete dias depois, o baixista Champignon, aos 35 anos, se matou com um tiro na cabeça. "Foi um sentimento duplo, de felicidade pelo depoimento dele e de uma tristeza profunda por mortes tão precoces. Aqueles dois poderiam ainda estar entre nós", lamenta.

"Chorão — Marginal Alado", que ganhou o prêmio do júri popular na Mostra São Paulo deste ano, aborda a difícil personalidade de Chorão. Chamado de gângster às vezes por brincadeira, outras como xingamento, não era raro se envolver em brigas, como a que João Gordo diverte-se contando no filme, quando os dois discutiram numa premiação da MTV e voou sopa quente para todo lado — mais tarde a dupla fez as pazes. Ou ainda a sempre lembrada agressão a Marcelo Camelo, no aeroporto de Fortaleza, em 2004.

O filme ainda mostra a compulsão de Chorão por compor. "Uma vez pedi para ele fazer mais um refrão, e ele veio com oito!", conta o produtor Rick Bonadio. Outro aspecto destacado era o controle dos processos no trabalho. "Além de muito bom compositor, ele era um produtor talentoso, superesperto, pois tomava as rédeas de tudo. Ao mesmo tempo, muitos depoimentos destacam sua sensibilidade e preocupação com as pessoas", diz o diretor.

Um deses momentos ternos está no vídeo enviado por uma fã chamada Carol, que, emocionada, diz que o ama e que mesmo quando ela não tem dinheiro, dá um jeito de comprar os discos. E ele a "repreende": "Baixa essa porra! Não vai gastar dinheiro com isso". "Agora você vê como ele era verdadeiro. Um cara que vivia de venda de discos falar isso para a fã! Enfim, nunca tivemos a pretensão de contar sua vida toda em um filme, mas acho que dá para passar a ideia de que o Chorão não foge do que a gente é. A diferença é que um rock star tem sempre um termômetro mais quente", avalia Felipe.

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