Chrissie Hynde, de férias dos Pretenders, abraça o jazz, põe dub em Beach Boys e se arrisca até na bossa nova
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Chrissie Hynde, de férias dos Pretenders, abraça o jazz, põe dub em Beach Boys e se arrisca até na bossa nova

Heroína do power pop, “bad girl” ianque perdida na cena punk londrina, figura feminina referência na new wave: como roqueira, Chrissie Hynde é isso e muito mais. Hoje, a eterna vocalista dos Pretenders continua a desafiar expectativas. No recém-lançado “Valve Bone Woe”, seu segundo álbum solo, a cantora se afasta do pop rock tradicional, se aventura por estilos inesperados para os fãs antigos e abraça a maturidade – mas sem acomodação. É um disco de jazz — ou quase isso.

O novo LP de Chrissie, no qual é acompanhada pelo grupo Valve Bone Woe Ensemble, chega três anos depois de “Alone”, último trabalho com os Pretenders, que foi bem elogiado. O novo album tem 14 faixas e está disponível em CD, vinil duplo e ainda em um box com sete compactos. Chrissie diz que cresceu ouvindo jazz, por causa do irmão mais velho, e que sempre teve uma quedinha pelo gênero.

Chrissie Hynde gravou versões jazzísticas em novo disco. Getty Images
Chrissie Hynde gravou versões jazzísticas em novo disco. Getty Images

Em uma entrevista recente ao jornal inglês The Guardian, ela ponderou sobre a passagem do tempo e a sensação de independência que a acompanha. “Acho realmente interessante envelhecer, porque a vida começa a fazer sentido. E hoje eu vivo sozinha. A pessoa tem que se conhecer muito bem, para poder viver só”, ensina.

Esse autoconhecimento deve ter influído no mergulho musical do disco novo, no qual Chrissie vasculha um repertório de pop clássico, jazz e standards, tratado de forma reverente mas particular. “Valve Bone Woe” tem desde o hit romântico francês “Que Reste-T-il De Nos Amours?” (que ela já havia regravado na versão em inglês, "I Wish You Love") a uma balada melodramática de Dimitri Tiomkin (“Wild Is The Wind”, também gravada por David Bowie). A cantora ainda resgata canções de Nick Drake, Ray Davies (líder dos Kinks e pai de sua filha, Natalie, 36 anos) e Beach Boys ("Caroline, No", com inusitados ecos de dub na bateria e nos sopros) além de uma rara composição que tem Frank Sinatra entre seus autores, “I’m a Fool to Want You” (o cantor fez parte da letra, junto com Jack Wolf e Joe Herron). No blues "How Glad I Am", ela está em casa e brilha com sua leve rouquidão felina honrando a gravação original de Nancy Wilson (1937-2018).

Aos 68 anos, a frontwoman dos Pretenders deixou para trás há tempos as drogas, o álcool e até os cigarros. “A maioria das pessoas que chegam a viver tanto quanto eu já vivi também tomaram a mesma decisão”, diz Chrissie. Ela agora divide seu tempo entre a música e a pintura: “Adding the Blue”, livro lançado no fim de 2018, traz 200 reproduções de seus quadros, entre retratos, naturezas mortas e abstrações. Um de seus óleos sobre tela, inclusive, estampa a capa de “Valve Bone Woe”.

A imagem remete a discos de jazz de outras eras, com a referência certeira da pintura de Neil Fujita usada em "Time Out", de Dave Brubeck (1920-2012). E o conteúdo não se furta a arriscadas incursões pelo jazz mais "deep", com releituras de "Naima", de John Coltrane (1926-1967 e "Meditation On A Pair Of Wire Cutters", de Charles Mingus (1922-1979), versão que condensa os 23 minutos da gravação original em três minutos e vinte segundos.

A surpresa para os fãs brasileiros é a versão de "Once I Loved", versão do clássico "Amor Em Paz", de Tom Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980), que foi lançada por João Gilberto (1931-2019). A coincidência é que no dia da morte de João, 6 de julho, Chrissie se apresentou no mítico Hollywood Bowl, em Los Angeles, Califórnia (EUA), acompanhada por orquestra. E brilhou cantando essa canção.

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