Com mais de 100 músicos na família, Kimi Djabaté conta como é viver num vilarejo musical
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Com mais de 100 músicos na família, Kimi Djabaté conta como é viver num vilarejo musical

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Por Sany Dallarosa e Verônica Raner

Séculos atrás, um grupo itinerante de músicos do Mali deixou o país africano para seguir em direção ao território onde hoje fica a Guiné-Bissau, a oeste do continente. Ali, a trupe se apresentou para o rei, torcendo para agradá-lo para que pudessem receber algo em troca. Caso contrário, seguiriam viagem sem nem ao menos ter o que comer. A música soou bem aos ouvidos do monarca, que decidiu presenteá-los com a área em que se configurou o vilarejo de Tabato. Lá, formou-se uma comunidade composta por griots* e seus familiares. Foi ali, naquela aldeia de músicos, que cresceu Kimi Djabaté, músico guineense cuja vida é mergulhada em uma atmosfera de sons desde suas origens mais ancestrais

Griot (fala-se griô) é uma palavra que vem do francês. São pessoas que começaram a fazer música entre o século XII e XIII na África Ocidental e faziam seus próprios instrumentos. Sua música era a forma de contar histórias do passado”, explica Kimi, ele mesmo um griot. “Antigamente, não havia escolas na África, nada era escrito. Todas as histórias de nossos antepassados eram contadas no boca a boca. O que acontecia no passado era repassado para as pessoas pelos griots”, conta.

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Kimi nasceu em janeiro de 1975. Na aldeia - com todos os familiares músicos -, construía os próprios instrumentos, como o balafon (o xilofone africano), o corá (uma harpa-alaúde) e a timba (instrumento de percussão). Observando os mais velhos, aprendeu a tocá-los e, apesar dos esforços da mãe para que tivesse o corá como principal instrumento (ele chegou a viajar para Sonako, uma aldeia vizinha, para estudar), virou balafonista, como era desejo do pai. 

Também por influência dos pais, Kimi foi imerso na cultura musical dos mandinga, grupo étnico que integra. No entanto, ao longo da vida sofreu fortes influências do que era tocado nas rádios de outros países, principalmente Senegal e Mali. O sinal das emissoras guineenses não funcionava bem na região de Tabato, ao contrário daqueles das rádios estrangeiras. Isso o fez se aproximar de outros gêneros populares do continente, como o afrobeat nigeriano e a morna cabo-verdiana.

“Eu não tive brinquedos na minha infância, eu tive instrumentos musicais e mais nada. Desde pequeno, toco em casamentos, batizados, nas festas e sempre foi assim. Somos mais de cem músicos na família, então eu não tive muito um outro caminho (para seguir). Nós íamos de aldeia em aldeia procurando alguém importante que quisesse nos ouvir cantar. Se as pessoas gostavam, nos davam dinheiro. Se não gostavam, não davam. Nós vivíamos à base do 'amanhã é outro dia’”, relembra. 

Com três álbuns lançados - o último deles, “Kanamalu”, de 2016 -, Kimi mora em Portugal desde 1995, quando fez uma turnê pela Europa como integrante do conjunto nacional de música e dança da Guiné-Bissau e decidiu ficar. Há quase 23 anos no país, ele diz que fez a escolha certa em permanecer no continente europeu, embora volte ao menos duas vezes por ano para seu país de origem. Em junho, ele foi uma das atrações da Rock Street do Rock in Rio Lisboa. 

"Hoje eu consigo gravar discos e cantar o que eu sinto. Em Portugal posso cantar tudo o que acontece na Guiné-Bissau sabendo que ninguém vai tentar me assassinar ou me agredir. As pessoas têm muito medo de falar o que se passa por lá por conta disso. Eu não tenho. Mas volto para lá muitas vezes para não me tornar muito ocidental e não perder as minhas raízes. Preciso estar ligado às minhas tradições, como griot que sou”. 

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