Com visceralidade, Nina Simone deu sentido revolucionário e profundo à música popular
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Com visceralidade, Nina Simone deu sentido revolucionário e profundo à música popular

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Se a música popular pode ser uma forma de arte mais pueril e leve, despida à força do capital de seus potenciais mais profundos e verdadeiramente transformadores, esse definitivamente não foi o caso da cantora, compositora e pianista norte-americana Nina Simone. Com sua força expressiva e visceral, se tivesse somente interpretado canções, Nina Simone já faria parte do seleto grupo das maiores cantoras da música americana, em um panteão exclusivo, ao lado de nomes como Billie Holliday, Ella Fitzgerald, Aretha Franklin e Etta James – e se tivesse somente tocado piano a conta seria a mesma. Mas Nina fez muito mais do que cantar e tocar, e tornou-se uma dessas raras artistas que oferecem sentido efetivamente revolucionário e profundo a uma fonte de arte como a música popular. 

Na vida e na arte de Nina Simone tudo foi luta, da qual ela jamais se esquivou, e a qual transformou em força e tinta de sua estética, de seu discurso, de sua presença no mundo. Movendo-se do gospel para o jazz, do blues para o soul, do folk para o rock, do pop ao clássico e de volta ao jazz, Nina não ganhou a alcunha de “A Alta Sacerdotisa do Soul” por qualquer timidez ou recato. Todas as estruturas e símbolos que excluem e oprimem uma mulher, e especialmente uma mulher negra, foram enfrentadas frontal e corajosamente por Nina através de sua presença, de sua voz, mas principalmente de sua excelência musical.  

A luta contra a desigualdade, a violência, o machismo e principalmente pelos direitos civis negros nos EUA mudaram qualquer destino minimamente fugaz que pudesse aguardar Eunice Kathleen Waymon, nome de batismo da cantora. Quando escreveu a clássica “Mississippi Goddam”, em 1963, e escolheu incluir um palavrão na letra e no título de sua canção, Nina Simone também cravou com sua pena uma certeza que perpassaria feito faca toda sua vida: não há fugacidade possível para quem luta com o próprio corpo e a própria arte por direitos iguais. 

Não há fugacidade possível para quem luta com o próprio corpo e a própria arte por direitos iguais

A canção era uma resposta ao assassinato de Medgar Evers, no Mississippi, e ao atentado em uma igreja no Alabama que matou quatro crianças negras, e se tornaria seu primeiro hino pelos direitos civis – mas era, antes de tudo, um impressionante grito de coragem, cansaço e dor, emitido diante de plateias majoritariamente brancas. Seguindo a tradição coroada por Billie Holliday, sua referência maior, com a insuperável “Strange Fruit”, que Simone também viria a gravar e incluir em seu repertório, “Mississippi Goddam” formaria, junto de “Four Women” e “To Be Young, Gifted and Black” as canções de protesto mais memoráveis da lavra pessoal de Nina Simone. 

O monstro do racismo, no entanto, não caminha sozinho, e a luta de Nina cobrava caro de sua saúde, de sua integridade física e mental, de sua carreira. Seu comprometimento com os direitos civis se tornou também um processo de isolamento enquanto cantora, e o direito irrevogável que concedeu a si mesma de não abrir mão de seus ideais significou também o afastamento do público e o minguar de sua estabilidade mental: a indústria fonográfica lhe boicotou, viveu as drogas, a violência doméstica, foi morar na África, na Europa, e encontrou o fundo do poço para se tornar hoje uma das mais influentes artistas da música do século XX. 

Ouvir Simone interpretando com beleza, rigidez, tristeza na voz e uma sombria ironia a clássica “Feeling Good”, com suas imagens idílicas e esperançosas de pássaros voando, peixes nadando e rios correndo livres para que ela “se sinta bem”, é uma pontiaguda e dura metáfora de sua carreira e vida. 

Nina Simone jamais deixou de ser a “A Alta Sacerdotisa do Soul”, e mesmo nos momentos mais difíceis seguiu criando e cantando como ninguém. Ofereceu a própria vida e carreira em sacrifício para jamais deixar de afirmar que toda arte é política, e que o artista que se aliena também está se posicionando – para ela, criar e lutar eram, portanto, sinônimos. 

Morreu em 2003, aos 70 anos, na França, transformando-se em um símbolo da luta pelos direitos civis e pela igualdade, da afirmação feminina e homossexual, da importância do fim da opressão das minorias medida pela grandeza de sua própria arte. Nina Simone foi imensa em tudo – na beleza, na graça, na dor, na loucura, na força, no talento, na coragem, no piano, na voz – e é igualmente imenso seu legado, sua influência, a ressonância da cantora que determinou à força que seria de uma mulher negra a mais forte voz a gritar contra as injustiças, o racismo e a violência na música popular americana. 

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