Como a música ajudou Nick Cave a superar a morte do filho
Inspiração

Como a música ajudou Nick Cave a superar a morte do filho

Dor enche o quarto de meu filho ausente,

deita em sua cama, anda a meu lado,

sua graça assume, sua fala repete,

me faz lembrar todos os seus encantos,

preenche as roupas ocas com sua forma

William Shakespeare (em tradução de José Rubens Siqueira)

Um golpe brutal, uma fenda aguda, a inversão repentina e apavorante do curso da vida. Que palavras dão conta de ter de sepultar o próprio filho? Que gesto abarca tal dor? É à tessitura explícita e crua desse luto que Nick Cave tem se dedicado desde 2016, quando seu filho Arthur, de 15 anos, foi encontrado morto depois de cair de um penhasco, no interior da Inglaterra, onde vive a família.

Junto a sua banda mais longeva, The Bad Seeds, o cantor, músico, produtor e escritor australiano volta ao Brasil (onde morou no início dos anos 1990) nesta semana para apresentar “Skeleton Tree”, conjunto de canções gravado no decurso da tragédia, amparadas numa performance onde o sombrio e o sublime se entrelaçam para dar vida a uma obra lírica e poderosa. O show em questão será no domingo, dia 14 de outubro, no Espaço das Américas, às 20h em São Paulo.

Antes da tragédia, Cave já era no palco a expressão de comprometimento e rigor, uma força da natureza com sua voz e gestos graves. A ele se juntam Warren Ellis, seu parceiro há mais de 30 anos em projetos como Bad Seeds e Grinderman, além de Else Torpe. A união de fato e alma por objetivos comuns entre os três se revela em uma coreografia fluida. Em “Skeleton Tree”, isso está posto à milésima potência, num show arrebatador.

Registrado no documentário “One More Time With Feeling”, lançado no Festival de Cinema de Veneza no ano seguinte à morte de Arthur Cave, o processo de gravação mostra uma banda inteiriça no propósito de expressar a dor do seu líder como se fora de todos eles em igual medida.

Som e imagem servem, assim, como prólogo dos concertos, onde um homem elegantemente taciturno surge para a plateia cantando “with my voice I am calling you” (“com minha voz, eu estou te chamando”), de “Jesus Alone”, uma parábola sobre solidão e solidariedade. E segue remoendo a dor ora com solenidade como em “Girl in Amber” (“alguns se vão e outros ficam para trás”), ora com timbres vivos em canções mais alegóricas, como em “Rings of Saturn” (“estou calado demais para beber e engolir a dor”).

Os crescentes são deixados ao largo nas canções, como uma marcha vagarosa mas nunca hesitante, pontuadas por Nick Cave ao piano, adornada pelo violino até então dado a explosões nas mãos de Warren Ellis, que agora se recolhe um pouco mais.

A fluidez, a comunicação dos dois no palco é algo a ser apreciado. As interações de Cave com a plateia são mínimas, mais bem demonstradas pela solicitude aos gestos das muitas mãos que o alcançam enquanto se move vagaroso à beira do palco, numa comunhão.

A economia dos arranjos fortalece a palavra, paixão de Cave, letrista de quilate literário, como em “I Need You”, em que o homem conhecido pela zelosa discrição sobre sua vida privada, arrasta o público num cortejo de tom quase religioso, sustentado num coro gospel, para contar que “nada mais importa / quando aquele que você ama se foi / eu preciso de você… você está vagando pela casa / em suas roupas / o cabelo caído / vou sentir falta quando você se for / Vou sentir sua falta quando você se for para sempre / apenas respire, apenas respire / Eu preciso de você”. É de chorar.

Passo a passo, vai se descortinando a dor do reencontro para sempre adiado em versos doces e cheios de tristeza, mas também esperança e vida, como os de “Distant Sky”, em que as vozes de Torpe e Cave se unem num coro pouco uniforme cantando “Nos deixe ir agora, meu único companheiro / que partiu para céus distantes / logo as crianças estarão subindo, estarão subindo / isso não é para os nossos olhos”.

É justamente em “Skeleton Tree”, música que nomeia o disco, que se vislumbra mais claramente o fio de esperança a que Nick Cave parece ter se agarrado para não sucumbir à cratera da perda, quando se aproxima do fim cantando “e está tudo bem agora”.

Não é, penso, um show para se disputar listas, um concerto pop, explosivo ou um evento qualquer onde a socialização pode dar seu tom sem prejuízo da música apresentada. O que Nick Cave e The Bad Seeds traduzem em “Skeleton Tree” é força do embate constante a que estamos sujeitos entre vida e morte em forma de música.

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