Como Joe Strummer se reinventou como trilheiro depois de marcar a história do rock no Clash
Na Trilha do LEÃO

Como Joe Strummer se reinventou como trilheiro depois de marcar a história do rock no Clash

Quando The Clash acabou de vez (após aquele esquecível canto de cisne, o álbum, “Cut The Crap”, 1985), os fãs de Joe Strummer (1952-2002) e cia. subitamente ficaram órfãos de uma das maiores bandas de rock (punk ou não) que já habitaram este planeta. O guitarrista Mick Jones (que não participou de “Cut The Crap”, sorte dele), logo se agregou com uma galera bacana e criou o B.A.D. (Big Audio Dynamite), que tinha em suas hostes o lendário Don Letts, camarada que, praticamente (como diria o finado Zé do Caixão) documentou toda a cena punk inglesa através de vídeos. Topper Headon, o baterista, foi se tratar de seu vício em drogas. E o baixista Paul Simonon, após longo hiato, reapareceu como convidado especial da banda Gorillaz (a convite de Damon Albarn, no álbum “Plastic Beach”, 2010) e no supergrupo The Bad, The Good & The Queen, também formado pelo inquieto Albarn, vocalista do Blur.

Topper Headon, o baterista, foi se tratar de seu vício em drogas. E o baixista Paul Simonon, após longo hiato, reapareceu como convidado especial da banda Gorillaz (a convite de Damon Albarn, no álbum “Plastic Beach”, 2010) e no supergrupo The Bad, The Good & The Queen, também formado pelo inquieto Albarn, vocalista do Blur. E Strummer foi fazer o quê? Se reinventou através de trilhas para filmes.

Joe Strummer em 2002, à frente dos Mescaleros/ (Brian Rasic/Getty)
Joe Strummer em 2002, à frente dos Mescaleros/ (Brian Rasic/Getty)

Tão logo ficou solo, colaborou com algumas faixas para “Sid & Nancy — O Amor Mata” (“Love Kills”, 1986), aquela cinebio irregular do defunto Sid Vicious (o baixista junkie dos Sex Pistols, interpretado por um ainda desconhecido Gary Oldman), dirigida por Alex Cox (do maravilhoso “Repo Man”, 1984). Desse filme, uma música se destacou, a faixa-título “Love Kills”, que tocava durante os letreiros de encerramento. A parceria com Cox levaria Strummer a não apenas tocar, como compor a trilha sonora inteira (todo o score), do próximo projeto de Cox, o biográfico “Walker” (1987). O filme era inspirado na vida do americano William Walker (feito por Ed Harris), camarada que, em priscas eras (anos 1800), se autointitulou presidente da Nicarágua (!), na marra. De quebra, Strummer ainda teve um pequeno papel no filme, como Faucett.

Não seria sua última colaboração com Cox, nem sua última aparição como ator. No mesmo ano, a dupla trabalhou junto em “A Caminho do Inferno” (“Straight to Hell”), um western-paródia, no qual, além de emprestar o nome de uma das músicas mais bacanas do Clash para o título original do filme (vinda do disco “Combat Rock”, 1982; este, sim, o último disco do Clash), ele novamente atuou. Agora, num papel maior. E contracenando com a galera do Pogues (que faziam bandidos, claro) e com a futura senhora Kurt Cobain — e líder da banda Hole —, Courtney Love (que já havia feito uma ponta em “Sid & Nancy”). No embalo, Strummer acabou fazendo uma turnê em conjunto com os Pogues, entre 1987/88.

Numa folga, Joe participou como ator em “Trem Mistério” (1989), do Jim Jarmusch (que já foi tema desta coluna). E, fez mais algumas pontas, aqui e ali, em filmes independentes. Mas foi em 1988, que ele realizou a que eu considero a sua melhor contribuição numa trilha sonora para cinema: a bordo de banda batizada Joe Strummer & The Latino Rockabilly War (com a qual gravou um único álbum, “Earthquake Weather”), ele compôs algumas faixas magníficas para “Permanent Record” (“Para Sempre na Memória”), sensível filme que tratava sobre o suicídio de um jovem, e como este ato refletiu em sua turma (com um ainda desconhecido Keanu Reeves no elenco — assista a um trecho dublado aqui). Além da faixa-título instrumental (apenas como Joe Strummer), ele contribuiu com outras cinco, com a banda. Foi a coisa mais distante e diferente do Clash que ele fez, sem deixar de ser Clash, na essência. É muito boa.

Esse foi o auge da carreira de Strummer como “trilheiro”, já que, ao longo dos anos 90, dedicou-se integralmente à sua nova banda, Joe Strummer & The Mescaleros (com a qual gravou vários discos). Neste período, fez apenas a trilha para um obscuro curta (“Question d'Honneur”, 1997) e uma colaboração, não-creditada, para “Matador em Conflito” (“Grosse Point Blank”, 1997). Encerrou os trabalhos nessa senda de cinema com o romance “Gipsy Woman” (2001). Poderia ter ido mais longe. Contudo, faleceu precocemente de ataque cardíaco em 2002, com apenas 50 anos. Foi uma trágica perda de um enorme talento.

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