Como o violino ajudou uma jovem indiana a driblar o sistema de castas
Inspiração

Como o violino ajudou uma jovem indiana a driblar o sistema de castas

Kushmita Biswakarma tinha apenas cinco anos quando teve o primeiro contato com um violino. Era o primeiro dia de aula da primogênita de três filhas de uma família extremamente pobre que vivia nas proximidades do Himalaia. Agarrada aos braços da mãe, ela não tinha sequer uma pequena percepção do que fazer com o instrumento. Estava com medo do lugar para onde a haviam levado e daquele objeto com cordas que tentavam mostrar para ela. Mal sabia a indiana que aquele seria o dia que mudaria todo o seu destino.

O sobrenome “Biswakarma” a colocava como parte de uma das castas mais baixas da Índia, em que mulheres não poderiam ter acesso à educação e cujas vidas estariam fadadas à clausura das atividades domésticas. Mas foi também graças a ele que ela foi encontrada pelo padre Ed McGuire, jesuíta canadense cuja missão era encontrar meninas com aquele sobrenome para dar a elas uma vaga em sua escola com foco em música, que ficava a cinco minutos da casa da família Biswakarma.

“Entrei na escola aos cinco anos. O padre McGuire tinha vindo até o meu vilarejo procurando por crianças que fossem realmente pobres. Quando ele encontrou minha mãe, perguntou a ela se eu já estudava e ela respondeu ‘é claro que não’, porque meus pais não podiam pagar meus estudos”, conta Kushmita, em entrevista ao Reverb por telefone. Antes de ser selecionada pelo padre, ela passava os dias em casa com a avó enquanto os pais caminhavam por uma estrada perigosa até uma floresta em busca de lenha e de comida para o pequeno rebanho que mantinham.

'Vindo de onde eu vim, não era possível conseguir o que eu consegui', diz a violinista que hoje divide o conhecimento com jovens violinistas (Foto: Arquivo pessoal).
'Vindo de onde eu vim, não era possível conseguir o que eu consegui', diz a violinista que hoje divide o conhecimento com jovens violinistas (Foto: Arquivo pessoal).

A cultura de castas na Índia é muito forte. Na região onde Kushmita vivia - e onde sua família ainda mora - é ainda mais. O vilarejo fica em uma parte do país exatamente entre o Nepal, Tibete, Bangladesh e o Butão. “Nós somos quase que intocáveis. As mulheres não devem estudar, não podemos ir a lugar algum, apenas ficar em casa. E mesmo que você saia de casa, as pessoas não falam com você. Mas meus pais sempre me protegeram em relação a isso, eles nunca me deixaram sentir isso no dia a dia”, conta a jovem, que hoje tem 27 e vive em Mumbai com o marido. Ela se orgulha do que os pais fizeram por ela e suas irmãs. Como ela mesma diz, eles ignoraram todo o sistema imposto pela sociedade indiana para darem às filhas uma chance de prosperarem.

Música é minha vida. Faço questão de dizer que a música pode te dar mais do que você pode dar a ela. Ela te dá tudo o que você deseja.

“Eles disseram ‘nossas filhas precisam estudar’. Eles não nos deixavam fazer nada em casa porque o nosso único foco deveria ser o estudo”, reflete Kushmita, que ri ao lembrar da primeira vez que pegou um violino. “Eu não sabia o que fazer com aquilo. Uma professora começou a tocar para me distrair e minha mãe poder ir embora. A música me pegou ali mesmo. Eu esqueci completamente a minha mãe e quando percebi ela já tinha ido embora havia muito tempo”, relembra a jovem.

A escola tinha aulas de música obrigatórias todos os dias. Como se não bastasse o talento com o instrumento musical - ela era a melhor violinista do colégio - Kushy, como é chamada pelos amigos, também se destacava nas disciplinas do ciclo comum, como matemática e ciências.

A competência em sala de aula deu a ela a chance de prosseguir seus estudos. Como a escola do padre McGuire só dava aulas até a 5ª série, Kushmita foi realocada em um outro colégio particular de Kalimpong, cidade-referência na educação da região. Foi lá que conheceu duas voluntárias alemãs que, percebendo seu talento com o violino, conseguiram uma bolsa para que ela terminasse os estudos na Alemanha e lá mesmo fizesse faculdade. Kushmita se mudou para o vilarejo de Edling, a cerca de uma hora de Munique, e estudava na capital da Bavária. A violinista viveu por 12 anos no país europeu e foi além: concluiu até um mestrado em música na Universidade de Nuremberg.

A aproximação com a Alemanha foi tanta que Kushmita começou a perceber a necessidade de voltar para suas raízes. Depois de tanto tempo, ela mesma já não sabia reconhecer onde estava o seu lado indiano.

“Vindo de onde eu vim, não era possível conseguir o que eu consegui. Eu queria aproveitar tudo o que eu pudesse daquelas chances que me deram. Mas não foi fácil viver na Alemanha. Nesse tempo todo eu nunca consegui ficar com meus pais por um tempo maior do que três semanas. Eu não sentia mais como se estivéssemos conectados. Eu estava sempre em uma linha entre duas culturas, entre a Alemanha e a Índia, e, depois de um certo tempo, meu lado indiano começou a desaparecer. Em um determinado momento eu percebi que isso não estava mais me levando a lugar algum”, conta. Ela, então, decidiu retornar à Índia, onde morou por seis meses com os pais, até que resolveu ficar de vez no país. Atualmente, está há dois anos em Mumbai. O marido ela conheceu em um voo entre a Alemanha e a Índia.

No canal que criou no YouTube em 2015 e já conta com quase três mil seguidores, a instrumentista faz versões de músicas famosas de Bollywood, o cinema indiano. No futuro, ela pretende mostrar mais das próprias composições mas, agora, tenta resgatar suas raízes, sem abandonar a sua verdadeira paixão.

“A música sempre foi o que me salvou, meu tudo. Espero conseguir tocar minhas composições e participar de concertos com pessoas de diversas partes do mundo. Música é minha vida. Faço questão de dizer que a música pode te dar mais do que você pode dar a ela. Ela te dá tudo o que você deseja”.

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