Como os fones de ouvido estão mudando a forma de se fazer música?
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Como os fones de ouvido estão mudando a forma de se fazer música?

Ouvir música se torna, a cada dia, um ato solitário. Há muito tempo que o sonho de ter um aparelho de som com caixas potentes ficou arcaico. Isso porque cada vez mais as pessoas colocam pequenos alto-falantes diretamente nos ouvidos. Você sabe bem do que estamos falando. Se você estiver neste exato minuto em um espaço público, é difícil que alguém no seu campo de visão não esteja usando um fone de ouvido. Muito provavelmente, você vai conseguir identificar mais de uma pessoa portando um deles. Devido à acessibilidade de smartphones da tecnologia de streaming, telefones e computadores são agora os dois principais dispositivos usados para ouvir música, de acordo com a Nielsen, companhia especialiada em análise de consumo e audiência. Em consequência, os fones de ouvido são a melhor maneira de ouvir música do seu dispositivo favorito. Essa mudança gradativa de comportamento está afetando o som uma vez que isso também afeta a forma de se fazer música.

Em seu livro "How Music Works" (2012), David Byrne, ex-vocalista do Talking Heads, diz que que a composição e a produção musical dependem quase inteiramente do contexto tecnológico. Ele explica, por exemplo, que a música europeia medieval costumava ser harmonicamente simples porque tocar muitas notas ao mesmo tempo soava de forma terrível nas catedrais. Os trompetes eram comuns no início do jazz, porque a alta frequência do instrumento podia ser ouvida por uma plateia barulhenta. Hoje, os teclados tornaram-se o instrumento central na composição musical porque são o fundamento do MIDI, a interface para digitalizar músicas.

Os fones de ouvido são hoje o principal dispositivo para se ouvir música. Foto: Unsplash.
Os fones de ouvido são hoje o principal dispositivo para se ouvir música. Foto: Unsplash.

Dito isso e, onsiderando que os fones de ouvido agora são tão difundidos, que efeitos práticos eles têm no resultado final de uma música? Um impacto importante parece estar nos vocais. “Ouvir música em fones de ouvido é muito diferente dos alto-falantes, onde há uma diferença temporal e espacial entre você e a música”, diz Charlie Harding, um dos apresentadores do podcast "Switched On Pop". Ele credita parcialmente o sucesso dos podcasts aos fones de ouvido: ouvir dessa maneira criaria uma sensação de proximidade entre os apresentadores e ouvintes.

Da mesma forma, Harding percebe essa intimidade na voz de alguns artistas pop, particularmente Selena Gomez e Billie Eilish. "O estilo delas é quase o de um sussurro, como se estivessem na sua cabeça", diz ele. O recente single de Gomez, "Look At Her Now", é um exemplo perfeito, de acordo com Harding.

“Eu acho que as pessoas já estão pensando em como gravar seus vocais — o que pode ser intencional ou subconsciente — mas realmente algumas músicas parecem ter sido feitas para um ambiente íntimo em vez de um estádio”, diz Harding.Para explicar melhor, o apresentador citou como exemplo as fenomenais explosões vocais de Whitney Houston. Nos álbuns, as faixas de cantora já contavam com notas longas que mostravam todo o poder da voz dela. Isso era gravado de forma a fazer das performances ao vivo, momentos épicos e inesquecíveis. Outros exemplos recentes de vocais sussurrados incluem "Bad Guy", de Billie Eilish, e "The Greatest", de Lana Del Rey.

Outra maneira de os fones de ouvido influenciaram a música é na produção de músicas com muitos sons graves. Harding explica que em alto-falantes pequenos, como fones de ouvido ou laptops, as frequências graves são mais difíceis de ouvir do que quando saem de alto-falantes de casas de shows e boates, por exemplo. Se você já se perguntou por que o grave é tão potente quando você está dançando, é por isso. Para que os graves sejam ouvidos bem nos fones de ouvido, os produtores de música precisam aumentar as frequências dos graves na faixa mais alta, a parte do espectro sonoro que os pequenos falantes lidam bem.

Em "How Music Works", David Byrne observa também que ouvir em fones também pode levar as pessoas a escolher músicas mais pessoais. É difícil medir isso, mas músicas ligadas a artistas do rap, como Drake, Post Malone e o saudoso Juice WRLD, apresentam muitos diálogos confessionais. É claro que temas que tocam almas fazem parte da música através das gerações, mas quem sabe se o surgimento de fones de ouvido pode ter encorajado mais esse gênero?

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