Como seria o mundo se os Beatles não tivessem existido? Especialistas em pop analisam a proposta do filme 'Yesterday'
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Como seria o mundo se os Beatles não tivessem existido? Especialistas em pop analisam a proposta do filme 'Yesterday'

Em uma entrevista incluída no livro "1966: The Year the Decade Exploded", do jornalista inglês Jon Savage, Pete Townshend resume o sentimento coletivo de muitos fãs de música pop diante das incontáveis revoluções surgidas naquele ano. "Naquele momento, precisávamos dos Beatles", disse o guitarrista do The Who, "para organizar as coisas para nós".

Imaginar o rock (e a cultura jovem em geral) sem a existência dos Beatles é um exercício e tanto. E também a premissa do mais recente filme do diretor Danny Boyle: em "Yesterday" (com estreia no Brasil prevista para 28 de junho) o diretor de "Trainspotting" mostra, de forma bem-humorada, o que aconteceria se, de repente, todos se esquecessem que os Beatles existiram. Os anos 60 — e todos os anos seguintes — seriam bem diferentes.

Daynne Boyle e Himesh Patel em sessão do filme 'Yesterday' durante Montclair Film Festival. Crédito: Getty Images
Daynne Boyle e Himesh Patel em sessão do filme 'Yesterday' durante Montclair Film Festival. Crédito: Getty Images

"A música pop não teria tido todo o impacto cultural que teve, se não fosse pelos Beatles", argumenta Alexis Petridis, o principal crítico musical do jornal inglês "The Guardian". De acordo com o jornalista, os álbuns do quarteto serviram como um elo que uniu diferentes correntes da música pop da década de 1960, de forma coerente e progressiva. "Talvez o pop ainda conseguisse sacudir as coisas. Em 1962, já havia bandas como os Beach Boys e as Marvelettes, que mostraram como a música pop havia conseguido vencer o período vazio que se seguiu após o fim da geração original do rock'n'roll. Mas sem os Beatles, tudo permaneceria como uma série de avanços isolados que nunca convergiriam em uma força capaz de mudar o mundo. Como disse Pete Townshend, os Beatles eram necessários naquele momento".

A música dos Beatles era necessária nos anos 1960
A música dos Beatles era necessária nos anos 1960

No filme "Yesterday", lançado na Inglaterra em maio deste ano, um bizarro fenômeno cósmico "apaga" os Beatles da memória de toda a humanidade contemporânea. Apenas uma pessoa se lembra que a banda existiu: Jack (Himesh Patel), um compositor fracassado. Ninguém mais se recorda de clássicos como "Eleanor Rigby" ou "Hey Jude". Jack não demora a perceber as possibilidades: se ele é o único a se lembrar das canções dos Beatles, pode oferecê-las ao mundo como se fossem dele... Além das idas e vindas cômicas, o filme se esforça para criar uma realidade paralela na qual John, Paul, George e Ringo não influenciaram a música, o movimento hippie, a política e a cultura em geral.

Peter Doggett, autor do livro "You Never Give Me Your Money: The Battle for the Soul of the Beatles", tenta imaginar a evolução do pop sem os Beatles: "Os roqueiros seriam enterrados pelos conservadores. O pop retornaria a seu lugar natural: o domínio dos sonhos adolescentes, alimentado por uma sucessão de crooners românticos. Superastros que pudessem combinar uma imagem sem controvérsias e um som agradável, baseado em uma versão aguada da música negra americana". Para o escritor, o potencial revolucionário e contracultural despertado pelo grupo de Liverpool seria deslocado para a música folk, para o blues e para o soul. "Os conflitos entre as gerações seriam traduzidos mais nas letras do que na música, enquanto o pop ficaria de fora. A verdadeira rebelião aconteceria nas artes plásticas, na poesia e na moda."

De acordo com a crítica de música do jornal britânico "The Observer", Kitty Empire, a juventude dos anos 60 encontraria outras formas de expressão — não musicais — sem a influência da beatlemania. "Esportes como o surfe e o skate poderiam ocupar o lugar dos Beatles. São atividades rebeldes, individualistas e que não requerem grande investimento: um skate custa menos que uma guitarra. Teríamos Hard Surf Cafés pelo mundo, em vez de Hard Rock Cafés!", imagina a jornalista. Em sua análise, a ascensão do quarteto elevou o status da música pop como um todo. "Sem a hegemonia global dos Beatles, o pop permaneceria como um mero pano de fundo, simples canções limitadas feitas apenas para dançar."

Himesh Patel em cena de 'Yesterday'
Himesh Patel em cena de 'Yesterday'

"Um mundo sem os Beatles seria o equivalente a um mundo sem Leonardo da Vinci, ou sem Shakespeare", compara Ken McNabb, autor de "And in the End: The Last Days of the Beatles". "São artistas que realmente habitam um lugar reservado aos maiores tesouros culturais da história. Alguém teria de inventá-los, se eles não tivessem existido." McNabb conjectura, com humor, sobre os rumos individuais que os protagonistas daquela era poderiam ter tomado. "Paul McCartney teria se tornado um professor de inglês e compositor nas horas vagas, especializado em músicas sobre animais: melros ("Blackbird"), castores ("Rocky Raccoon"), cães pastores ("Martha My Dear"). Lennon cantaria pelas ruas de Liverpool em troca de trocados, até finalmente emplacar um jingle de sucesso para um fabricante de ervilhas em lata ("Give Peace a Chance" viraria "Give Peas a Chance"). Mick Jagger provavelmente iria se dar bem no mercado financeiro, com possíveis incursões pela política; Keith Richards talvez se tornasse um terapeuta especializado em dependentes químicos", ironiza o autor.

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