Como um médico de 63 anos virou uma lenda do rap após um derrame
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Como um médico de 63 anos virou uma lenda do rap após um derrame

Sherman Hershfield se surpreendeu ao abrir os olhos um dia e perceber que estava atrás do pneu de seu carro. Em algum lugar entre o apartamento em que morava, em Beverly Hills, e seu consultório, o médico apagou. De alguma forma, ele não se envolveu em um acidente, mas aquela não foi a primeira vez que isso acontecia. "Eu não entendia o que estava acontecendo comigo", contou, certa vez, em entrevista. O que isso tem a ver com música? Calma.

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Ao 50 e poucos anos, Sherman não tinha problemas de saúde além dos cada vez mais frequentes apagões. Vegetariano e em dia com os exercícios físicos, não havia preocupações graves. Pouco tempo depois dos blackouts, o médico teve um ataque epilético. No hospital para onde foi levado, fez uma ressonância magnética e foi diagnosticado com síndrome antifosfolípide. O organismo dele estava erradamente criando anticorpos que aumentaram o nível de coagulação do sangue. Os coágulos, se entrassem em sua corrente sanguínea ou no cérebro, poderiam matá-lo a qualquer momento.

Por conta de uma espécie de derrame, a fala de Sherman ficou alterada e, às vezes, ele gaguejava. Outra mudança percebida foi em sua personalidade. De uma hora para outra, o médico que mal tinha contato com literatura ou poesia ficou aficionado pelas duas coisas. Seus amigos perceberam outro efeito colateral: Sherman não conseguia evitar de falar em rima. Quase todas as frases que ele pronunciava rimavam umas com as outras. E, por mais incrível que pareça, sempre que ele rimava, os empecilhos da fala pareciam desaparecer.

Sherman, o Dr. Rapp, com seus trajes de hip-hop, cercado de jovens nas ruas de Los Angeles / Getty Images
Sherman, o Dr. Rapp, com seus trajes de hip-hop, cercado de jovens nas ruas de Los Angeles / Getty Images

Derrames ou AVCs podem causar sérios danos cerebrais que podem levar a reações curiosas para os pacientes. A de Sherman foi uma delas: os médicos chamam isso de “musicofilia repentina”. Uma erupção repentina de criatividade após um dano cerebral. Nascido em Winnipeg, no Canadá, em 1936, ele era filho de mãe pianista e pai médico. Formado em 1960, se tornou residente na Universidade de Minnesota, antes de entrar para o corpo médico do exército americano. Em 1973, fixou-se na Califórnia, onde tinha pouco tempo para ler qualquer coisa que não fosse relacionada à sua profissão. Em 1970, abandonou o ofício por um período por conta de um crise envolvendo médicos nos EUA. Aceitou um trabalho em um restaurante para ganhar US$ 2 a hora. Jornais pelos EUA escreveram sobre o médico que agora fritava peixes usando jalecos.

Para ele, rimar nunca foi um sintoma. Foi a cura.

Nos dez anos que se seguiram ao seu derrame, Sherman dedicou-se ao budismo, onde conheceu sua segunda mulher, Michiko, japonesa, e se tornou estudioso de literatura e poesia. Com isso, ele fez do limão limonada e passou a recitar seus versos em pontos de ônibus e no transporte público, onde muitas vezes era ignorado. Certa vez, foi notado por um vendedor ambulante. Partiu dele a sugestão de que Sherman levasse sua poesia até Leimert Park, área tradicional de manifestação de cultura negra de Los Angeles.

Era final dos anos 1990 quando Sherman desceu de um ônibus vestido como um médico que vivia em Beverly Hills para conhecer o lugar. Em uma das esquinas de uma área que respirava música, encontrou um grupo de adolescentes que organizava batalhas de rap. Na entrada, recebeu olhares desconfiados. "Você gostaria de ouvir algo?", perguntou Sherman. "Claro, qual é o seu nome?", respondeu um jovem. "Meu nome é Dr. Rapp". O lugar era underground e causava um pouco de desconfiança em quem não estivesse acostumado. Sherman, judeu, chegou dizendo que queria recitar versos sobre o Holocausto.

Lá, não tinha moleza: quem gaguejasse ou estivesse despreparado era logo vaiado e forçado a deixar o palco. Na sua vez, Sherman pediu o microfone. O DJ perguntou se ele havia levado uma música de fundo e Sherman o entregou uma fita cassete de Chopin. Quando o som do piano do maestro polonês ecoou, todos na plateia se entreolharam. Sozinho no palco, Sherman começou a recitar seus versos sobre o genocídio. A plateia ficou em silêncio. Não foi um sucesso, o médico-agora-rapper só não foi vaiado por respeito. Afinal, era um senhor grisalho, de 63 anos, falando poesia em meio a tantos jovens que queriam ouvir rap, um ritmo nascido nos guetos. "Eu achava que estava fazendo rap, mas não estava. Estava apenas lendo poesia, sem nenhuma batida. Quando você está fazendo rap na rua, você precisa de uma batida", relembrou.

Depois da experiência, Sherman passou a ouvir NWA e Run-DMC para estudar e voltava a Leimert Park toda semana. Às vezes, Sherman percorria o caminho de cerca de 10km a pé. À época, o enteado de Sherman, um DJ de hip-hop em boates badaladas de Los Angeles, se sentiu um pouco envergonhado ao ver o padrasto treinando raps em casa. Scott sugeriu que Sherman fizesse versos usando termos médicos.

Um dia, Sherman soube que KRS-One, rapper em ascensão, participaria de um evento aberto para perguntas e respostas. O médico não só foi, como fez um sobre sua trajetória. A plateia se comoveu e Sherman foi aplaudido de pé. KRS-One deu seu telefone a Sherman e sugeriu que eles se encontrassem. "Eu não sabia nada sobre ele, só que ele era uma espécie de Tupac", disse o médico. Daquele encontro, surgiu uma amizade entre os dois, que evoluiu para aulas de rap. "Ele tinha a cadência e o ritmo, mas precisava melhorar a respiração e a pronúncia", contou KRS em entrevista à revista “The Atlantic”. O rapper, também um admirador do budismo, se aproximou de Sherman como um tutor.

Sherman voltou a Leimert Park e jurou que ganharia a multidão, que passou a respeitá-lo e, por vezes, ficou eletrizada pelo rap do "Dr. Rapp". Sherman passou a usar camisetas personalizadas e aprendeu a fazer versos em freestyle, por vezes, em performances que duravam uma noite inteira. Apesar de preocupada, em casa, Michiko conhecia o coração generoso e inspirador do marido. "Eu comprava roupas italianas para ele e por vezes ele voltava com elas sujas ou havia dado o terno novo para alguma outra pessoa", lembra. Sherman insistia que era seguro. Aquelas pessoas eram suas amigas.

Com a fama, mesmo que local, Sherman teve que mudar de nome. Um outro artista já havia registrado a alcunha de "Dr. Rap". Para evitar problemas judiciais, Sherman passou a adotar a alcunha de Dr. Flow, mas já era tarde. Seu nome artístico já havia se espalhado o suficiente para transformá-lo no legítimo Dr. Rapp.

Os amigos de Sherman não aprovavam as performances. Nem ao menos um deles apareceu para assistir o médico em seu novo habitat. O fato de passar noites fazendo rap e sem pegar turnos à noite começou a pesar nas finanças da família. O médico, algumas vezes, pegou dinheiro emprestado para voltar para casa. Sua voz também apresentava sinais de rouquidão por conta dos esforços repetidos. Numa noite de muito calor, durante uma apresentação, Sherman apagou. Outros rappers tentaram socorrê-lo e, enquanto Sherman estava desmaiado no chão, a plateia gritava seu nome. Após se recuperar, Sherman usou o hip-hop para retomar a fala e poder subir ao palco novamente.

Dr. Rapp logo se tornou um fenômeno, aparecendo em jornais e revistas. Programas de TV de outros países iam até Leimert Park atrás de Sherman. Até mesmo do Japão. O médico-rapper só largou a carreira quando sua saúde piorou. Sherman morreu de câncer em março de 2013, aos 76 anos. Mas, para ele, rimar nunca foi um sintoma. Foi a cura.

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