Conexão China-Jamaica: conheça o império de reggae construído por uma família chinesa
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Conexão China-Jamaica: conheça o império de reggae construído por uma família chinesa

Há cinco anos, Patricia Chin foi convidada para introduzir o cantor de reggae Gyptian em um programa de TV local de Nova York, cidade onde vive. O apresentador da atração ficou surpreso, pois não esperava que uma mulher com traços asiáticos fosse falar sobre o gênero mais popular da Jamaica."Ele não estava esperando ver uma chinesa ali, discutindo sobre reggae", recordou-se a executiva da VP Records, hoje com 82 anos, em entrevista para o site "Ink Stone News".

Patricia nasceu no país de Bob Marley — onde, no século XIX, houve uma grande imigração da população chinesa para trabalhar nas lavouras e, mais tarde, no comércio, estabelecendo, a partir dos anos 1960, praticamente um monopólio em setores como lavanderias e casas de apostas.

A executiva ajudou a fundar no Queens, em meados dos anos 1970, junto do marido Vincent, o selo independente VP Records, reconhecido por lançar grandes artistas do reggae, dancehall e soca, gêneros tipicamente jamaicanos. Em 2019, a gravadora completa 40 anos e realizará um concerto gratuito no Central Park, em Nova York. O evento acontece em 10 de setembro e, além de boa música, também será uma oportunidade de garantir vinis de artistas lançados pela VP em formato especial.

Patricia Chin ao lado do cantor de reggar Tanto Metro, em abril de 2004/Getty Images
Patricia Chin ao lado do cantor de reggar Tanto Metro, em abril de 2004/Getty Images

Em 1958, Vincent Chin abriu uma loja em Kingston, Randy's Record Mart — o nome era homenagem ao radialista e produtor americano de Nashville Randy Wood (1917-2011). Patricia, enfermeira, começou a ajudar o marido no trabalho e acabou se tornando uma expert em música também. Já tinham expandido os negócios e abasteciam as jukeboxes de toda a Jamaica quando, em 1968, abriram o Studio 17 e apostaram na gravação de talentos locais. Foi assim que foram revelados grandes cantores da era do rocksteady, como John Holt e Alton Ellis. E Lord Creator.

Procurando por oportunidades de negócios, e fugindo da situação política na Jamaica, o casal imigrou para os EUA, onde deu continuidade ao empreendimento que tinha em Kingston. Patricia e Vincent fundaram a VP Records que, diferente do negócio anterior, não teve muitos lucros no início. O reggae não era tão popular em Nova York, onde se estabeleceram.

"Achávamos que Bob Marley era popular, então compramos discos de artistas de reggae raiz. Só que eles não vendiam", conta Patricia. Naquela época, eles não faturavam mais que US$ 270 por semana. Só cinco anos depois o negócio começou a bombar e se transformou no império que é hoje, responsável por divulgar os trabalhos de artistas como Spice, Bounty Killer, Sean Paul (que tem mãe anglo-chinesa), Shaggy, Yellowman e tantos outros.

Antes deles, porém, houveLesley Kong (1933-1971), o chinês jamaicano de maior importância no reggae. Lesley foi o primeiro produtor da ilha a obter sucesso internacional, emplacando hits menores na Inglaterra com Bob Marley and The Wailers, Jimmy Cliff, Toots and The Maytals (com "Do The Reggay", que ajudou a dar nome aquele ritmo que evoluiu a partir do ska) e Desmond Dekker. Sua família tinha um restaurante e uma sorveteria. Em 1961, ao ouvir Jimmy Cliff, adolescente, cantando uma espécie de jingle para o restaurante, ele se convenceu a criar uma gravadora, Beverley's. Seu faro o levou a "descobrir", no ano seguinte, um certo Bob Marley. Lesley morreu aos 38 anos, de ataque cardíaco, pouco antes de poder ver a trilha do filme "The Harder They Come" virar sucesso mundial. Jimmy Cliff, eternamente grato, o homenageou na canção "Lesley Kong".

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