Conheça a curiosa história do 'beatle acidental' Peter Asher, inspiração também para o personagem Austin Powers
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Conheça a curiosa história do 'beatle acidental' Peter Asher, inspiração também para o personagem Austin Powers

No novo filme de Danny Boyle, “Yesterday”, Jack Malik, um fracassado indie rocker interpretado pelo ator Himesh Patel, é atropelado por um ônibus e acorda em uma realidade alternativa onde ninguém além dele se lembra dos Beatles.Quando percebe o que aconteceu, Jack acaba por plagiar “She Loves You”, “Hey Jude” e outros sucessos da dupla Lennon-McCartney, tornando-se a maior estrela pop do mundo. O filme, cuja história foi escrita por Richard Curtis, é obviamente fictício, mas, 55 anos atrás, algo semelhante realmente aconteceu a Peter Asher.

Em 28 de fevereiro de 1964, o duo pop britânico Peter and Gordon lançou seu primeiro single, “A World Without Love”. Não importava que a balada fosse extremamente melodramático sobre um romance adolescente fracassado (“aqui dentro, onde eu me escondo com a minha solidão.”) Não importava que nem Asher nem seu parceiro, Gordon Waller, de 20 e 19 anos, na época, tivessem aparências nerd — os óculos, o corte de cabelo e os dentes de Asher, dariam a Mike Myers a inspiração visual para Austin Powers.

A dupla Peter and Gordon  Jeremy Fletcher/Redfern
A dupla Peter and Gordon Jeremy Fletcher/Redfern

Tudo o que importava naquele momento da história era que “A World Without Love” fora escrito para Peter e Gordon por Paul McCartney (creditada a Lennon/McCartney, conforme o acordo deles). A assinatura dos Beatles eram os ovos de ouro de que a dupla precisava para estourar.

“É interessante que [o filme] ‘Yesterday’ nos lembrou de nós. Eu não tinha feito essa conexão, mas ainda não vi o filme”, diz Asher, hoje com 75 anos, de sua casa em Los Angeles à Slate. “Acho que fomos substitutos dos Beatles para algumas pessoas, que pensavam ‘eu não tenho mais como ir a um show dos Beatles, mas posso ir ver Peter e Gordon, e isso terá que ser feito por agora’”.

Hoje, isso parece pouco, mas, em 1964, a demanda por substitutos dos Beatles era enorme. Os próprios Beatles estavam em Nova York, onde se apresentaram no Ed Sullivan Show por três domingos consecutivos em fevereiro.

Depois, passaram a maior parte de março e abril filmando “A Hard Day's Night” (“Os Reis do Iê-Iê-Iê”). Durante a segunda semana de abril, os Beatles ocuparam os cinco primeiros postos da parada da Billboard, um feito que nenhum artista conseguira desde então. Naquele momento febril, uma nova música de Paul McCartney caiu como uma luva.

"'A World Without Love' chegou ao nº1 na parada britânica Reino Unido, depois na Europa e depois nos EUA", lembra Asher. Na Inglaterra Grã-Bretanha, bateu a canção “Can't Buy Me Love” com os próprios Beatles. “Quer dizer”, diz Asher, “'Can't Buy Me Love' ficou em primeiro lugar por um zilhão de semanas e finalmente caiu e nos deixou chegar ao topo”.

Como dois caras muito normais acabaram indo com uma original de Paul McCartney ao primeiro lugar? Um fato que contribuiu para isso foi Paul ter começado a namorar a irmã mais nova de Asher, Jane. E, especialmente que, em dezembro de 1963, o beatle saísse do apartamento que dividia com John, George e Ringo e fosse para a casa da família Asher, ficando no quarto de hóspedes, no último andar, de frente para o quarto de Peter.

Paul, então com 21 anos, já era uma estrela, mas os Asher não eram meros desconhecidos. Peter, Jane e sua irmã mais nova, Claire, foram atores mirins e estrelaram filmes e programas de TV. O pai de Peter, Richard, era um proeminente psiquiatra que descobriu a síndrome de Munchausen. A mãe dele, Margaret, era professora de música e por coincidência deu aulas de oboé a George Martin, que viria a ser o produtor dos Beatles.

Paul viveu com os Asher livre de pagar aluguel, mas provavelmente aumentou o valor da casa deles - hoje, um spa em Liverpool, onde escreveu “And I Love Her”, “Every Little Thing”, “Eleanor Rigby”, “I’ve Just Seen a Face”, “You Won’t See Me” e “I’m Looking Through You” no piano do porão de Margaret.

Um dia, Lennon apareceu para compor. "Eu me lembro de Paul chamando as escadas, e então eu indo para a sala de música", diz Peter. “Ele e John tinham acabado de escrever 'I Want To Hold Your Hand', lado a lado no banco do piano, sem guitarras. Eu sentei no sofá e eles tocaram para mim. Eu fui a primeira pessoa a ouvi-la”, comemora.

Infelizmente, Peter estava em turnê com Gordon na manhã em que Paul acordou tendo pensado em “Yesterday” enquanto dormia. "Minha mãe foi a primeira a ouvir essa música", lembra Peter. "Ele estava tocando para as pessoas e perguntando o que era, sem perceber que ele havia escrito”, ressalta.

Os então cunhados Paul McCartney e Peter Asher na Associação de Imprensa de Londres  PA Images via Getty Images
Os então cunhados Paul McCartney e Peter Asher na Associação de Imprensa de Londres PA Images via Getty Images

O quanto a convivência com um dos maiores compositores pesou no ego de Peter? Não muito, ele afirma. “Era evidente que Paul tocava e compunha muito melhor do que eu. Mas ele fazia isso melhor do que qualquer um. Então, não me sentia diminuído ou com inveja. Apenas lembro de sentir um certo espanto”, lembra.

Peter and Gordon acabavam de sair de cafés onde tocavam no estilo Everly Brothers de canções tradicionais como “500 Miles”. “Quando (o gerente da EMI) Norman Newell assinou conosco, ele gostou do arranjo vocal e achou que seríamos a resposta inglesa ao folk boom”, lembra Peter. “Talvez fôssemos Peter e Paul sem Mary.”

Newell reservou para eles uma sessão de gravação para 21 de janeiro de 1964, e perguntou se eles tinham outras músicas além daquelas em sua demo que eles quisessem testar. “Eu ouvi Paul tocar 'A World Without Love' em casa e gostei. Quando tivemos o contrato com a gravadora, eu a propus”.

Paul escreveu "A World Without Love", ou pelo menos a maior parte dele, quando tinha 16 anos. Para os padrões de qualquer outra pessoa, seria considerado uma música pop perfeita, mas na escala de seu próprio trabalho era somente OK, não mais do que isso. John Lennon a vetou para os Beatles. “Então Paul nem tinha terminado os dois versos”, lembra Peter. “Eu me lembro de ter que pedir a ele algumas vezes para terminar. Ele levou seu violão para o quarto por uns sete ou oito minutos e fez a ponte, que ficou perfeita”.

Quando Peter e Gordon chegaram ao estúdio, não houve grande impressão. “Não me lembro de ninguém dizendo 'Oh meu Deus, isso é uma obra-prima'”, diz Peter. “Era mais como 'vamos descobrir os acordes e terminar logo'”. Então, eles cantaram e Peter ajudou com o arranjo, mas a faixa instrumental foi deixada para músicos de sessão, incluindo o guitarrista Vic Flick. Peter lembra de que, nas performances de TV, a dupla ficava sem jeito durante 20 segundos instrumentais de “World Without Love”, pois nenhum deles tocavam bem o suficiente sequer para fazer mímica da parte tocada por Vic.

Peter and Gordon se apresentam na TV   David Redfern/Redferns
Peter and Gordon se apresentam na TV David Redfern/Redferns

O sucesso da música “imediatamente transformou minha vida de cabeça para baixo”, diz Peter, que estudava filosofia no King's College. "Eu tive que ir ver o meu tutor e lhe explicar que essa coisa estranha havia acontecido: ‘nós subimos ao nº1 da parada e queriam que fôssemos tocar nos EUA".

Peter e Gordon tornaram-se apenas uma Série B da Invasão Britânica, depois de os Beatles chegarem ao topo da Billboard. “A coisa mais estranha que aconteceu foi em um show ao ar livre, onde o palco estava em um caminhão (como em um trio elétrico). A multidão passou pela segurança e estava correndo em nossa direção. (A polícia) nos fez correr até a saída, e quando eu pulei do palco, meus óculos caíram no gramado, então eu os peguei e continuei. Mas quando olhei para trás, uma menina havia se ajoelhado onde meus óculos haviam caído e ela estava puxando a grama e comendo-a. Eu pensei, bem, isso é estranho”, lembra.

Quando Peter e Gordon voltaram para Londres, Paul já tinha um novo single composto para eles."Paul escreveu 'Nobody I Know' para nós — com tudo pronto para a gente chegar a gravar. As pessoas sempre nos perguntam como conseguimos tantas músicas de Paul McCartney, mas ele estava apenas seguindo as regras de composição. Se você escreve um grande hit para um grupo, você quer fazer sua sequência. Você não quer que alguém mais venda discos do que com as suas músicas”, afirma Peter Asher.

Posteriormente, Peter and Gordon tiveram outros sucessos, escritos por Paul McCartney ("Woman" e "I Don't Want To See You Again") ou tirados do repertório de outros artistas, como Del Shannon (“I Go To Pieces”) e Buddy Holly (“True Love Ways”).

“Sempre conseguimos encontrar outra boa música no momento certo”, afirma Peter. “Eu acho que foi assim que acabamos com sete ou oito sucessos seguidos.”

Peter e Gordon também escreveram muitas canções, incluindo os lados B da maioria de seus singles. “Queríamos colocar nossas músicas em nossos singles por uma questão de orgulho, além do dinheiro extra teórico. Que acabou sendo muito teórico, como a maior parte do dinheiro naquela época”, ressalta o beatle acidental.

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