Conheça o João Gilberto 'gaúcho', gênio antes da criação genial: 7 meses de boemia e rehab, ternuras e solidão
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Conheça o João Gilberto 'gaúcho', gênio antes da criação genial: 7 meses de boemia e rehab, ternuras e solidão

Por Márcio Pinheiro

Em 1955, durante cerca de sete meses — o período não é exato mas calcula-se que tenha sido entre janeiro e agosto — João Gilberto morou em Porto Alegre. Ele veio para a capital gaúcha trazido por Luís Telles, seu amigo porto-alegrense (1915-1984) e integrante do grupo Quitandinha Serenaders. A intenção era afastar o cantor, então com apenas 23 anos, de um processo de depressão e de uma fase "braba".

João Gilberto estava sem dinheiro, sem emprego e — na avaliação de Luís Telles — sofria de algo muito pior: estava fazendo uso exagerado de cigarros de maconha. Assim, a temporada em Porto Alegre deveria servir como um período de recomeço e de desintoxicação. Acabou sendo fundamental para ajudar João Gilberto a ampliar seus conhecimentos musicais e, principalmente, recuperar a autoestima. A seguir, sete curiosidades sobre o período que João Gilberto viveu na capital do Rio Grande do Sul.

Quitandinha Serenaders, grupo de Luís Telles, amigo gaúcho de João Gilberto/ Reprodução
Quitandinha Serenaders, grupo de Luís Telles, amigo gaúcho de João Gilberto/ Reprodução

1. No endereço de Mário Quintana

João Gilberto foi hospedado por Luís Telles no Hotel Majestic, um dos mais luxuosos de Porto Alegre. Localizado na rua da Praia, a principal da cidade, o hotel, com 180 quartos, foi projetado pelo arquiteto Theo Wiederspahn e foi o primeiro edifício do Rio Grande do Sul a usar concreto armado em sua construção.

Outro morador famoso do lugar foi o poeta Mario Quintana (1906-1994), que ali morou por cerca de 12 anos, a partir de 1968. Quintana só saiu dali em 1980 quando o local foi fechado, dando origem, dez anos depois, à Casa de Cultura Mario Quintana. Não há registros de que o poeta e o cantor tenham alguma vez se encontrado.

Hotel Majestic, onde João morou em Porto Alegre/ Pedro Só
Hotel Majestic, onde João morou em Porto Alegre/ Pedro Só

2. Um 'vagabundo' na alta roda

Há registros — não gravados, obviamente — de que João Gilberto cantou em pelo menos dois restaurantes, Treviso e Farolito, e que também se apresentou em dois importantes clubes sociais da alta burguesia gaúcha: a Associação Leopoldina Juvenil e o Clube do Comércio. Este último rendeu a única nota jornalística sobre a passagem de João Gilberto em Porto Alegre, publicada por um jornal em 17 de abril.

O elegante clube Leopoldina Juvenil, um dos lugares onde João se apresentou em Porto Alegre/ Cartão postal (reprodução)
O elegante clube Leopoldina Juvenil, um dos lugares onde João se apresentou em Porto Alegre/ Cartão postal (reprodução)

3. Habitué da boemia

O local onde João Gilberto tornou-se habitué e onde mais tocava foi no Clube da Chave, boate que reunia artistas e boêmios e que era comandada por Ovídio Chaves (1910-1978), poeta, letrista e compositor, autor de "Fiz A Cama Na Varanda". Um local legendário dos anos dourados da boemia porto-alegrense, onde Joãozinho começou impressionando ao acompanhar uma bela cantora e atriz argentina chamada Noélia Noel, no bolero "Jugete".

Noélia Noel cantou com João no Clube da Chave/ Reprodução
Noélia Noel cantou com João no Clube da Chave/ Reprodução

4. Joãozinho, para os íntimos — e quase todos

Sim, em Porto Alegre (então uma cidade de 400 mil habitantes), João Gilberto era chamado por quase todos pelo diminutivo: Joãozinho. O mesmo apelido que tinha na sua terra natal, Juazeiro. Uma das pessoas de quem João Gilberto mais se aproximou durante este período, com carinho de figura materna, foi Maria Adelaide Regina Fernandes (1908-1994), conhecida como Boneca Regina. Ela, que eventualmente atuava como colunista na imprensa, abriu sua casa ao cantor. Foi lá que em 10 de junho de 1955, João Gilberto comemorou seus 24 anos ganhando uma festa de aniversário surpresa.

5. Um violão que mudou tudo

Segundo conta Ruy Castro em "Chega de Saudade", nas apresentações que fazia no Clube da Chave, Joãozinho não estava tocando as músicas até o fim (a exceção era "Solidão", de Tom Jobim e Alcides Fernandes). O motivo: desgosto com o instrumento, que tinha cordas de aço. Luís Telles e outros amigos do Clube da Chave, por sugestão de João Gilberto, organizaram uma vaquinha e deram de presente ao músico um violão novo. O primeiro que João Gilberto teve com cordas de náilon. Daí pra frente, não quis saber de outra coisa.

O violão com cordas de náilon viria a ser indissociável da batida de João Gilberto/ Getty/ Tom Copi
O violão com cordas de náilon viria a ser indissociável da batida de João Gilberto/ Getty/ Tom Copi

6. Troca de figurinhas

Boneca Regina era prima de Dalva, casada com Armando Albuquerque (1901-1986), compositor erudito, amigo de Radamés Gnattali e professor do Instituto de Artes. Apresentado a João Gilberto, os dois se aproximariam e passariam a tocar juntos e estudar quase sempre à tarde na casa de Armando, na Cidade Baixa. Trocavam figurinhas sobre Dorival Caymmi e Debussy, música popular e clássica.

7. Jogado às formigas

Uma das lendas mais curiosas sobre a estadia de João Gilberto em Porto Alegre é que ele deixava acumular de propósito cascas de tangerina (no Rio Grande do Sul, bergamota) para que as formigas se sentissem atraídas e assim ele tivesse alguma companhia à noite.

Elijah O'Donnell/ Unsplash
Elijah O'Donnell/ Unsplash

De Porto Alegre, João Gilberto não voltou para o Rio de Janeiro. Foi passar uma temporada em Diamantina, no interior de Minas Gerais, morando com a irmã, Dadainha.

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