Conheça Randy Tuten, o artista gráfico que colocou um abacate na história do Led Zeppelin — e criou outros pôsteres clássicos de shows
Inspiração

Conheça Randy Tuten, o artista gráfico que colocou um abacate na história do Led Zeppelin — e criou outros pôsteres clássicos de shows

Randy Tuten é um dos grandes nomes da arte gráfica americana. Criador de pôsteres clássicos de shows de bandas como Led Zeppelin, The Doors, Grateful Dead, Pink Floyd, The Band e outros grandes nomes que passaram por São Francisco, EUA, ele continua em atividade. "De alguma forma, estou fazendo algumas pessoas felizes", diz Randy Tuten, ao explicar porque continua a trabalhar aos 74 anos. Se hoje ele faz seus cartazes com ajuda da tecnologia, no começo de carreira nos anos 1960, tinha apenas a mão livre e a inspiração, que muitas vezes vinha de rótulos de cerveja.

Nos anos 1960, São Francisco foi centro efervescente nos anos 1960 dentro das artes gráficas. Foi lá que surgiu o chamado "Big Five", reunindo Wes Wilson, Stanley Mouse, Alton Kelley, Rick Griffin e Victor Moscoso. Mas o setor tinha espaço para mais mentes criativas e logo outros artistas se agruparam e ficaram conhecidos como os "Other Five": Bonnie MacLean, Robert Fried, Lee Conklin, David Singer e Randy Tuten.

Um raro pôster horizontal criado em 1969 por Randy para Crosby, Stills, Nash e Young, com uma fileira de fotos de cada membro da banda, como se seus rostos estivessem espalhados por um outdoor
Um raro pôster horizontal criado em 1969 por Randy para Crosby, Stills, Nash e Young, com uma fileira de fotos de cada membro da banda, como se seus rostos estivessem espalhados por um outdoor

Randy, que desenhava desde pequeno, passou a infância e adolescência em Los Angeles. Suas habilidades autodidatas foram ampliadas quando ele foi trabalhar na Challenge Publications, fazendo layouts de revistas. Uma de suas grandes inspirações eram os rótulos de cerveja, que traziam letras complexas, bordas decorativas e imagens arrojadas. Rótulos de caixas de frutas da primeira metade do século XX, pôsteres de filmes de monstros da década de 1950 e pôsteres de viagens da mesma época também atraíam sua atenção. "Tudo que parecia bom me influenciou", resume ele, em entrevista à "Collectors Weekly", contando que absorveu essas estéticas diversas em seu trabalho, principalmente nos posteres de rock que viria a produzir em larga escala.

Numa colaboração com dois de seus ídolos de pôsteres de rock, Alton Kelley e Stanley Mouse, Randy criou em 1975 o cartaz para um par de shows dos Rolling Stones no Cow Palace, uma arena ao sul de São Francisco
Numa colaboração com dois de seus ídolos de pôsteres de rock, Alton Kelley e Stanley Mouse, Randy criou em 1975 o cartaz para um par de shows dos Rolling Stones no Cow Palace, uma arena ao sul de São Francisco

Randy costumava fazer viagens frequentes a São Francisco no final dos anos 1960 e um dia decidiu instalar-se definitivamente. A mudança acabou definindo sua carreira, pois foi na cidade que ele conheceu os pôsteres de shows do Fillmore West, do empresário e promotor de shows Bill Graham, e os do Avalon Ballroom, criados pela Family Dog, formada pelos artistas Chet Helms, Luria Castell, Ellen Harmon, Alton Kelley e Jack Towle.

"Mouse, Kelley e Griffin me influenciaram muito. Eu não pensava em fazer pôsteres de rock até ver o trabalho deles", diz Tuten, referindo-se aos artistas do "Big Five". Ele tentou seguir os passos dos ídolos, mostrando seus trabalhos na casa de shows Avalon, mas depois de quase um ano de tentativas, desistiu. “Fiquei tão chateado com o fato de eles terem me dispensado, que fui ver Bill Graham. Fui ao Fillmore West e, um ou dois dias depois, ele me contratou para fazer quatro pôsteres", conta, lembrando os primeiros trabalhos para o empresário, no final de 1968.

Em parceria com Daddy Bread, Randy criou o poster para os shows de maio de 1970 do Pink Floyd no Oakland Coliseum. Inspirado na capa do álbum "Animals",  imaginou um porco inflável gigante flutuando sobre as nuvens, acima da ponte Golden Gate, numa espécie de homenagem aos pôsteres de viagens do pós-guerra que ele tanto amava
Em parceria com Daddy Bread, Randy criou o poster para os shows de maio de 1970 do Pink Floyd no Oakland Coliseum. Inspirado na capa do álbum "Animals", imaginou um porco inflável gigante flutuando sobre as nuvens, acima da ponte Golden Gate, numa espécie de homenagem aos pôsteres de viagens do pós-guerra que ele tanto amava

O primeiro pôster de Randy para uma atração no Fillmore West foi para os shows de janeiro de 1969: Grateful Dead, Blood Sweat & Tears e Spirit. O pôster combinava desenho, colagem e o estilo de letras de Rick Griffin. "Eu sempre tive interesse em navios e trens, ônibus e carros, praticamente qualquer coisa mecânica. Vi beleza nessas coisas, mesmo que elas não tenham sido projetadas necessariamente para ser bonitas", comenta, citando os elementos que são frequentes em suas ilustrações.

O primeiro poster de Randy
O primeiro poster de Randy

O trabalho de Randy é frequentemente relacionado aos cartazes que fez para o Led Zeppelin. O primeiro foi em 1969, quando a banda fez seu primeiro show em São Francisco. A arte foi criada em parceria com seu amigo Bill Bostedt, também conhecido como Daddy Bread, e apresentava uma fotografia da grade cromada de um Lincoln 1946, tirada por Peter Pynchon. Ele acabou criando muitos pôsteres do Zeppelin que se tornaram colecionáveis. "Rick fez a maioria dos pôsteres de Jimi Hendrix para Bill, eu acabei fazendo todos os do Zeppelin. Não foi planejado dessa maneira, foi apenas por um acaso", afirma.

Cartaz de shows de 1969, o primeiro criado por Randy para o Led Zeppelin
Cartaz de shows de 1969, o primeiro criado por Randy para o Led Zeppelin

Um desses trabalhos ganhou mais atenção por sua "ousadia". Para a série de shows que a banda fez em abril de 1969 em Winterland, Randy adaptou um pôster que ele havia feito na faculdade, um menu fictício para um restaurante. Daí surgiu o famoso poster do abacate com olhos esbugalhados. Dizem que, anos depois, Robert Plant teria visitado a Fillmore Auditorium original, onde nunca tocaram e, na sala de posteres, exclamou: "Por que todas as outras bandas que tocaram no Fillmore ganharam incríveis pôsteres psicodélicos e a gente só arrumou esse aí com um maldito abacate?".

O controverso cartaz do abacate
O controverso cartaz do abacate

Bom, na época a banda não reclamou, tanto que Randy continuou na produção, fazendo um dos mais disputados da coleção, que anunciava os shows de novembro de 1969. Com uma foto preto e branca de um dirigível em um hangar de aeronaves vermelho-sangue, o cartaz anunciava mais três shows em Winterland. As bandas de abertura seriam a Bonzo Dog Band e Roland Kirk, mas após a impressão do pôster, a Bonzo cancelou, sendo substituída por Isaac Hayes, enquanto Roland tocou apenas uma noite.

Cartaz virou item colecionável
Cartaz virou item colecionável

Outro famoso cartaz para o Zeppelin, esse de 1977, foi criado e pintado com Daddy, mostrando um enorme dirigível retrofuturista com um planeta vermelho ao fundo cheio de estrelas brilhantes. Os shows dessa turnê foram um tanto quanto bad vibe, marcados por agressões e pela morte repentina do filho de 5 anos Robert Plant.

O cartaz dos sows que tiveram várias confusões envolvendo integrantes do Led Zeppelin
O cartaz dos sows que tiveram várias confusões envolvendo integrantes do Led Zeppelin

Em 1970, Randy começou a trabalhar com o Family Dog e para casas de sows de outras cidades. Após o fechamento do Fillmore West em 1971, o artista continuou a produzir fichas de informação em vários tamanhos para Bill. Foi uma época em que ele consumia muita cocaína, vício que deve ter colaborado para seu derrame anos depois. "Quando tive o derrame em 1984, eu estava meio que saindo da cocaína, mas estava usando outras drogas e bebendo muito", lembra ele. Rick foi um dos que mais o apoiou durante a fase de recuperação, sugerindo que trabalhassem juntos quando ele ficasse bom, o que aconteceu dois anos depois. “A primeira coisa que fizemos juntos foi um pôster e um folheto para uma banda de surf music. Depois, a capa do álbum '2400 Fulton Street' do Jefferson Airplane, que era muito colorida, e um cartaz para um sow do R.E.M. em Memphis”, enumera.

Sobre o poster de um sow de Pete Townshend: "Eu reformulei um pôster que tinha feito para Barbra Streisand no final dos anos 1970. Whit Clinton fez um desenho muito bonito de Townshend em um terno preto, mas o pessoal da Bill Graham Presents sugeriu um terno dourado. Ele não é Elvis, é mais como o Bob Dylan. Então, eu mantive conservador"
Sobre o poster de um sow de Pete Townshend: "Eu reformulei um pôster que tinha feito para Barbra Streisand no final dos anos 1970. Whit Clinton fez um desenho muito bonito de Townshend em um terno preto, mas o pessoal da Bill Graham Presents sugeriu um terno dourado. Ele não é Elvis, é mais como o Bob Dylan. Então, eu mantive conservador"

Em mais de 50 anos de carreira, Randy conta que nunca teve problemas discutindo design com clientes ou empregadores. “Se era uma boa ideia, eu fui a favor. Mas se tornasse a peça estúpida, eu diria. Muitas vezes, os clientes me diziam exatamente o que queriam. Eu ia para casa e tentava fazer, mas via que era uma má ideia. Então, na maioria das vezes, eu apenas fazia algo que achava bom e, quando eu entregava o trabalho, costumavam dizer: 'Uau, era exatamente o que tínhamos em mente, obrigado!' Na maioria das vezes, não era nem perto do que eles tinham pensado, mas ficou bom, então gostaram”, conta, orgulhoso.

Sobre o cartaz para um show com Mike Bloomfield e Friends, The Byrds e Pacific Gas & Electric. “Esse horrível pôster rosa surgiu quando eu disse à ráfica que queria que fosse vermelho que é feito de magenta, uma certa quantidade de amarelo e um pouco de preto. Bem, quando eu disse 'vermelho' por algum motivo, entenderam 'magenta' que, lamento dizer, é apenas rosa"
Sobre o cartaz para um show com Mike Bloomfield e Friends, The Byrds e Pacific Gas & Electric. “Esse horrível pôster rosa surgiu quando eu disse à ráfica que queria que fosse vermelho que é feito de magenta, uma certa quantidade de amarelo e um pouco de preto. Bem, quando eu disse 'vermelho' por algum motivo, entenderam 'magenta' que, lamento dizer, é apenas rosa"

Em 2000, Randy começou, meio atrasado, a adotar a tecnologia digital e a criar suas peças no computador. “Aqui está a questão de fazer trabalhos em um computador: eles devem ser projetados fora dele, com as mãos, em uma prancheta usando papel e lápis. Só aí é que você pode finalizá-lo lá. Hoje em dia você pode mudar tudo com tanta facilidade, é ridículo", comenta. "Toda semana recebo e-mails de pessoas me agradecendo e dizendo que admiram meu trabalho. Às vezes, quando estou trabalhando às 3 ou 4 da manhã, me pergunto que diabos estou fazendo, aí me lembro que, pelo menos, de alguma forma estou fazendo algumas pessoas felizes", diz.

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