Coronavírus blues: depois de ficar duas vezes sem teto, cantora faz shows para idosos, na porta de asilos
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Coronavírus blues: depois de ficar duas vezes sem teto, cantora faz shows para idosos, na porta de asilos

Pat "Mother Blues" Cohen é uma sobrevivente. E é das dificuldades que já enfrentou que tira forças para levar alegria e alento a quem mais sofre com a pandemia de coronavírus: os idosos. A cantora de 63 anos perdeu sua casa em 2005, durante a passagem do furacão Katrina em New Orleans, em onde era conhecida como a "rainha da Bourbon Street”. Mas, depois de mudar para East Spencer, na Carolina do Norte, tem feito shows em casas de repouso, onde se apresenta do lado de for,a enquanto o público ouve das janelas.

A adaptação à nova cidade, no condado de Rowan, foi difícil; Pat Cohen não conhecia ninguém. Então, há quatro anos, sua nova casa pegou fogo. "Chorei quase todos os dias durante um ano. O que aprendi é que chorar não ajuda em nada. Não há problema em sofrer, mas não por muito tempo. Então, minha casa foi incendiada e perdi tudo de novo. Fiquei num hotel, sofri e uma semana depois saí e comecei a recompor minha vida", conta a cantora à "Rolling Stone".

Pat Cohen perdeu a casa duas vezes e aprendeu que sofrer não vale a pena. Foto: Reprodução Instagram
Pat Cohen perdeu a casa duas vezes e aprendeu que sofrer não vale a pena. Foto: Reprodução Instagram

Se em New Orleans o nome de Pat estava consolidado no circuito de casas de shows, na Carolina do Norte ela não tinha público. "Costumávamos nos apresentar em clubes, e as pessoas adoravam; ainda adoram, porque há os fãs obstinados por blues. Mas o lamentável é que tudo está acabando, isso estava acontecendo antes mesmo de toda essa coisa do coronavírus", avalia. Foi quando ela encontrou um nicho que uniu sobrevivência à solidariedade: show em casas de repouso. "Antes, eu cantava em casas de repouso porque não havia muitos locais disponíveis, a menos que você seja convidado para festivais e tenha um empresário. Se não, precisa ser criativo. O meu lema é 'Faça algo de bom para alguém com o que você tem'", ensina Pat.

Ela se orgulha ao dizer que fazia shows cinco estrelas para os idosos, inicialmente em instituições da própria cidade, depois em outras mais afastadas. "As pessoas nessas casas ficam muito gratas, porque não ouvem música muito boa", observa ela, que era remunerada por seus shows, mas também fazia eventos beneficentes.

Com a pandemia, Pat sofreu mais um golpe. Suas performances em lares de idosos, pagas ou não, foram interrompidas, porque os espaços são ambientes suscetíveis à contaminação pelo vírus. Mas ela percebeu que ela não precisava parar de cantar. "Continuo aprendendo essa lição: não fique sentado de luto. Assim, você não consegue nada", repete, descrevendo sua máxima de superação.

Pat "Mother Blues" Cohen segue fazendo a diferença em casas de repouso, só que agora obedecendo as regras de distanciamento social: ela toca do lado de fora e seu público a ouve através das janelas.

Na última semana, ela cantou cinco músicas para idosos em casas de repouso em Salisbury. No repertório, canções como “The Best Is Yet To Come”, “Black Coffee”, “Straighten Up and Fly Right”, “Knock on Wood”. "São R&Bs e blues clássicos, coisas que não se faz mais hoje em dia", observa ela, dizendo que gosta muito de cantar também “Wang Dang Doodle”, “What a Wonderful World” e “Georgia on My Mind”.

Pat revela que a ideia dos shows externos surgiu também por uma questão familiar: seu irmão George, que está paralisado por causa de um AVC, mora em uma delas, a The Citadel-Salisbury. O local registrou na última semana 102 casos da doença e é, ao lado da North Carolina State Veterans Home, um dos locais com maior número de casos.

Na segunda-feira (27/4) , Pat instalou seu sistema de som portátil e um laptop em um aparelho de ar condicionado fora da residência e começou a cantar, não antes de garantir que seu irmão estaria ouvindo. "Eu chamo isso de meu ministério. Faço para não ficar presa em casa e porque as pessoas gostam", diz. Pat lembra que essa é uma época em que todos precisam permanecer unidos. "Minha voz é minha moeda, dou o que tenho. Eu acho que todo mundo deveria fazer isso. Algumas pessoas pensam que não podem dar nada porque não têm dinheiro, mas você sempre tem algo que pode doar", fala em entrevista ao "Salisbury Post".

Quando faz shows fora das casas de repouso, Part geralmente não consegue ver os residentes. A maioria não pode abrir as janelas, mas eles conseguem ouvi-la pela janela. "Após o primeiro show em Salisbury, eu estava indo embora quando alguém me disse em voz alta: 'Muito obrigado. Eu e meu colega de quarto estávamos sentados aqui ouvindo você'", conta, feliz.

Pat, que recebe assistência da Music Maker Relief Foundation (instituição de preservação da música do Sul dos Estados Unidos que ajuda artistas tradicionais), diz que essas apresentações são um aprendizado — "Isso me ajuda a aprender músicas diferentes", conta. No mês passado, ela se apresentou num baile organizado pela Sweet Potato Queens, organização de caridade que reúne mulheres de todo o mundo.

Com o dinheiro angariado, Pat comprou novos equipamentos de som para as apresentações. Mas ela precisa de uma estrutura melhor e mais prática, já que se desloca e se apresenta sozinha. Na conta criada recentemente no Go Fund Me, ela diz: "Eu canto para idosos e me apresento sozinha. Preciso de um equipamento portátil que eu consiga montar e desmontar facilmente. Além disso, preciso de apoio para ir às casas de repouso, pois muitos desses shows não têm financiamento".

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