Coronavírus: com funerais restritos, em Nova Orleans, músicos gravam vídeo em parque para mortos por Covid-19
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Coronavírus: com funerais restritos, em Nova Orleans, músicos gravam vídeo em parque para mortos por Covid-19

O coronavírus tornou famosas cenas de funerais vazios, algo que tem sido mais doloroso para Nova Orleans, nos Estados Unidos. Lá, funerais são acompanhados por música e eventualmente desfiles com cartazes e fantasias. Mas alguns músicos estão encontrando formas de homenagear os mortos e levar conforto aos familiares. Winston "Trombone" Turner, líder da banda Brass-a-Holics, chamou os colegas para gravar "I'll Fly Away" no City Park, uma das mais famosas áreas de lazer da cidade.

A música de Albert E. Brumley (1905-1977), compositor importante no gospel sulista, é uma tradição entre os funerais de Nova Orleans. Na ocasião, família e amigos fazem uma despedida final chamada "liberar o corpo". É quando bandas de metais fazem um cortejo acompanhado, dependendo da popularidade do morto, por pequenas multidões.

Banda, amigos, familiares e fãs de Renetta "Magnolia Shorty" Lowe, rapper morta em 2010, acompanham a "segunda linha" de seu funeral. Foto: Getty Images
Banda, amigos, familiares e fãs de Renetta "Magnolia Shorty" Lowe, rapper morta em 2010, acompanham a "segunda linha" de seu funeral. Foto: Getty Images

Essas "segundas linhas", como a comunidade chama os cortejos, ajudam a processar a morte de uma pessoa através da união e da alegria. Mas a pandemia de coronavírus suspendeu os funerais quando as comunidades parecem mais precisam deles. “Quando uma pessoa é enterrada, você tem a segunda linha. É a festa, o bom momento, a celebração da vida. É responsabilidade da comunidade comemorar a vida de alguém. Mesmo que eu não os conheça, saco do meu guarda-chuva, calço meus melhores sapatos de dança e me junto à diversão”, disse, ao "USA Today", Ellis Marsalis III, filho do pianista e professor de jazz Ellis Marsalis Jr., que morreu aos 85 anos de Covid-19.

O artista foi enterrado sem música e com a presença de poucos familiares que, usando máscaras, precisaram obedecer o distanciamento de 1,80 entre eles. "Isso seria enorme para a cidade, milhares de pessoas teriam participado de seu funeral", disse o trompetista, que já participou de muitas cerimônias. "Quando as pessoas se reúnem, o que alivia esse estresse e a ansiedade da perda, mais do que qualquer coisa no mundo, é a música. Nada mais. As circunstâncias ditaram o contrário, mas em algum momento no futuro daremos a ele uma despedida adequada", prometeu o filho Ellis III.

Winston, que já esteve no Brasil tocando com a Brass-a-Holics, no Bourbon Street Festival, em 2014, fez um vídeo lamentando as mortes de amigos à sua volta. "Espero um dia não acordar mais com essas notícias de manhã", conta, explicando a ideia. Ele se juntou aos colegas Emeka Dibia (vocais) e Tannon "Fish" Williams (trompete), vestidos com as roupas que usariam numa igreja, para tocar por esses amigos, parentes, colegas e conhecidos, com o respeito devido. "É uma canção celebratória, a pessoa está indo para a glória eterna. Então costuma ser o ponto alto das cerimônias", define Emeka.

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