David Lynch: sonhos, delírios e sons em simbiose com Angelo Badalamenti
Na Trilha do LEÃO

David Lynch: sonhos, delírios e sons em simbiose com Angelo Badalamenti

Ao longo da história do cinema, os cinéfilos mais aplicados — ou amantes de trilhas sonoras —, perceberam a ligação de certos diretores com determinados maestros/compositores. Alguns são para toda a vida. Outros marcaram época. O que seria de Hitchcock, por exemplo, sem o Bernard Herrmann? Dois dos mais marcantes filmes do mestre do suspense, “Um Corpo que Cai” (“Vertigo”, 1958) e “Psicose” (“Psycho”, 1960), dependem muito dos climas criados por Herrmann para estes. A cena do chuveiro de “Psicose”, por exemplo, deve MUITO à trilha.

Assim, com o tempo, passamos a associar determinados diretores a seus “trilheiros”. Como Fellini e Nino Rota, por exemplo. Il maestro criava as trilhas perfeitas para ilustrar os delírios fellinianos (o que acabou virando até sinônimo para sonhos/delírios). O mesmo podemos dizer da associação perfeita de David Lynch com outro ítalo, o maestro Angelo Badalamenti. A partir do momento em que, um conheceu o outro (para a trilha do filme “Veludo Azul”, 1986), deu liga total. E, dali por diante, trabalharam juntos em vários projetos.

O maestro de David Lynch, Angelo Badalamenti/ Kevin Winter (Getty)
O maestro de David Lynch, Angelo Badalamenti/ Kevin Winter (Getty)

O grande momento da parceria veio quando Badalamenti compôs a trilha para a série de TV “Twin Peaks” (1990). Por conta do tema deste, Angelo ganhou um Grammy, em 1990. Indicação ao Oscar, nunca rolou, apesar de ter composto muito para cinema, com ou sem Lynch. Mas, ele ganhou o Lifetime Achievement Award, do World Soundtrack Awards (2008); e o Henry Mancini Award, da American Society of Composers, Authors and Publishers (2011). Tudo graças ao tema de “Twin Peaks”

O mesmo “Twin Peaks Theme” rendeu frutos e fez decolar a carreira do então desconhecido DJ americano de techno/ambient, Richard Melville Hall, mais conhecido como Moby. Ao usar um sample do tema em sua track “Go” (1991), Moby não apenas apareceu para o mundo (e entrou nas paradas de sucesso), como, até hoje, é associado a esta música. Apesar de, depois disso, ter feito estrondoso sucesso mundial com o álbum “Play” (99). Moby, por tabela, passou a ser muito requisitado para trilhas de filmes diversos, e teve músicas suas usadas na série de Jason Bourne. Em todos os filmes, a música de encerramento é “Strange Ways”, do pouca-telha novaiorquino, que volta em diferentes versões. Acabou tendo músicas suas usadas em mais de 30 filmes!

E, voltando ao Badalamenti (que nasceu no Brooklyn/NY, de uma família de imigrantes italianos, vindos da Sicília), a conexão dele com David Lynch rendeu trilhas notáveis, para filmes como “Veludo Azul” (“Blue Velvet”, 1986), “Coração Selvagem” (“Wild at Heart”, 1990), “Estrada Perdida” (“Lost Highway”, 1997), “Cidade dos Sonhos” (“Mulholland Drive”, 2001) etc. Sendo que, por estas duas últimas, o maestro concorreu ao Globo de Ouro.

Mas uma das mais bacanas parcerias de Badalamenti com Lynch se deu quando ambos se juntaram à cantora Julee Cruise (que canta as canções da trilha de “Twin Peaks”, como a etérea “Into the Night”, por exemplo) para criar o espetáculo “Industrial Symphony no.1: the Dream of the Brokenhearted” (1990), que mistura músicas de um álbum solo de Cruise (“Floating Into the Night”, 1989) com as canções de “Twin Peaks” e outras trilhas Lynch/Badalamenti. Resultou num magnífico show filmado, para cinemas e vídeo.

Assim, Badalamenti virou o Herrmann, o Rota de Lynch, conseguindo retratar, em música, os sonhos e pesadelos do delirante diretor.

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