De Bee Gees a Justin Timberlake: estudo investiga a obsessão pelo falsete na música pop
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De Bee Gees a Justin Timberlake: estudo investiga a obsessão pelo falsete na música pop

Muito antes de MC Melody fazer sucesso na internet, os falsetes já eram populares na música. Raízes culturais e religiosas na América do Norte, na África do Sul, no Paquistão, na Europa (o famoso "tiroleite" do yodel suíço) e nos quatro cantos do planeta o levaram a pipocar no country de Jimmy Rodgers (1897-1933) e no pop de grupos vocais como The Mills Brothers, The Ink Spots e The Soul Stirrers. A partir também da contribuição do uso no gospel, o falsete virou tradição entre artistas masculinos, abraçada por gigantes como Curtis Mayfield (1942-1999), Frankie Valli e Michael Jackson (1958-2009), sem falar em Brian Wilson (Beach Boys), Philip Bailey (Earth, Wind & Fire), Freddie Mercury (1946-1991), Morten Harket (A-ha) Thom Yorke (Radiohead) e Chris Martin (Coldplay).

De Bruno Mars a Ed Sheeran, passando por Khalid, Justin Bieber, Sam Smith, Jonas Brothers, Adam Levine, Frank Ocean… E isso só falando da última década. A moda pegou de tal forma que levou os jornalistas Estelle Caswell (“Vox”) e Matt Daniels (“The Pudding”) a se perguntarem: “O quanto o falsete é popular?”. A exaustiva pesquisa, apresentada em vídeo pelo canal da “Vox” no YouTube, mostrou que, se uma música apresenta alguma parte com falsete, ela tem mais chances de ser mais bem recebida pelo público.

O resultado foi fruto de um extenso trabalho de levantamento de dados que durou um ano. Primeiro, os jornalistas pediram informações aos serviços de streaming. Queriam saber se, de alguma forma, eles catalogavam esse tipo de informação em seus bancos de dados. Com um acervo bem menor do que o de alguns de seus concorrentes, o Pandora, serviço ainda não disponível no Brasil, apresentou os melhores registros para elaborar os gráficos.

The Weeknd, Justin Timberlake, Bruno Mars e Adam Levine, do Maroon 5, estão entre os artistas que fazem uso frequente do falsete / Foto: Getty Images
The Weeknd, Justin Timberlake, Bruno Mars e Adam Levine, do Maroon 5, estão entre os artistas que fazem uso frequente do falsete / Foto: Getty Images

A empresa não usa somente algoritmos para catalogar suas músicas. Cerca de 450 funcionários são pagos para identificar características específicas de cada música. Nesse sentido, eles tinham um banco de dados bastante relevante no que se refere aos dados vocais das mais de duas milhões de músicas disponíveis no serviço.

O resultado diante do recorte rendeu 43 mil faixas a ser observadas. A partir daí, os pesquisadores decidiram buscar somente aquelas que entraram no histórico do “Hot 100” da revista “Billboard”, a lista mais importante da indústria em termos de performance. O número caiu para 28 mil faixas, as mais populares nos EUA desde 1958. Com a ajuda de um programa de computador refinado, eles conseguiram encontrar cerca de 20 mil músicas a serem objetos de estudo.

Bee Gees: músicas do trio de irmãos marcaram época no uso de falsetes / Foto: Getty Images
Bee Gees: músicas do trio de irmãos marcaram época no uso de falsetes / Foto: Getty Images

Na análise, que observou apenas as músicas avaliadas pelo Pandora com nota maior ou igual a 5 no quesito “falsete”, o ano de 1975 ficou com o primeiro lugar com o maior índice do uso do recurso. A era da disco music, com hits como “Stayin’ Alive” e “You Should Be Dancing” dos Bee Gees, ajudou a alavancar cantores acostumados a cantar em registros altos (em oitavas mais agudas) e com habilidade para os falsetes, como Earth, Wind & Fire, Ohio Players, Eddie Kendricks, todos tinham, todos cantavam em registros altos.

A chegada dos anos 1980, no entanto, mostrou o declínio da utilização da técnica. Um dos grandes responsáveis por isso, talvez o maior, foi o advento do hip-hop. O gênero musical criado nos EUA trouxe para a cultura popular faixas sem muito espaço para a aplicação de um falsete. "Há menos momentos em que de fato se canta", explica Matt.

D’Angelo estourou nos anos 1990 com o advento do neo-soul; na foto, o cantor se apresenta na Holanda, em 2000 / Foto: Getty Images
D’Angelo estourou nos anos 1990 com o advento do neo-soul; na foto, o cantor se apresenta na Holanda, em 2000 / Foto: Getty Images

Por conta disso, os pesquisadores fizeram um novo recorte e cruzaram os dados de músicas de fato cantadas com falsete entre as "Top 10" da lista da "Billboard". Os anos de 1996 e 2015 se destacam no quesito. O primeiro foi o ano em que o "neo-soul" explodiu. Artistas como D'Angelo e Maxwell trouxeram um novo viés para o hip-hop, o R&B e o soul, com músicas como "Me And Those Dreamin' Eyes Of Mine".

De acordo com Matt, em relação aos outros anos, 2015 foi o ano das vozes agudas. Naquele ano, músicas como "The Hills" e "Can't Feel My Face", de The Weeknd, e "See You Again", de Wiz Khalifa com Charlie Puth, foram apenas alguns exemplos da união entre registros vocais altos e falsetes.

O estudo de Estelle e Matt concluiu que, se a música tem um falsete, não importa se com índice de 1 ou 10 segundo a escala do Pandora, ela vai se sair comercialmente melhor e permanecer em listas de mais ouvidas por mais tempo. Uma prova? Em 2015, 66% das músicas que chegaram ao primeiro lugar do "Top 10" tinham falsetes.

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