De Paraisópolis para o Rock in Rio: Silvanny Sivuca lidera 'a banda que mais toca' no festival
Rock in Rio 2019

De Paraisópolis para o Rock in Rio: Silvanny Sivuca lidera 'a banda que mais toca' no festival

Uma família de 47 pessoas compõe a banda que mais toca no Rock in Rio 2019. Não, eles não são irmãos de sangue nem parentes próximos. Também não são nenhuma atração no Palco Mundo ou do Sunset. Liderados pela baterista e empresária Silvanny Sivuca, formam um grupo diverso escolhido a dedo pela percussionista e que tem levantado o público que passa perto da Arena do banco Itaú, na Cidade do Rock.

"Eu procuro usar a música como ferramenta de educação. A maioria desses 47 músicos vem de algo ligado ao social. Quando eu recebi esse convite, para liderar a banda, eu pedi que pudesse escolher pessoas que vêm desse lado B e não uma galera que já toca com artistas reconhecidos", diz Silvanny. A “big band” da Arena nunca havia tocado junto antes do festival. Há três meses, o grupo se reuniu pela primeira vez para ensaiar. Ao todo, foram mais de 30 encontros de até oito horas por dia para deixar as 24 músicas do repertório alinhadas entre banda, orquestra de metais, dançarinos, cantores e performáticos. E eles tocam de tudo: de Beyoncé a Rage Against The Machine.

Parte da banda liderada pela baterista Silvanny Rodriguez, a Sivuca / Foto: Rarine Maira / Reverb
Parte da banda liderada pela baterista Silvanny Rodriguez, a Sivuca / Foto: Rarine Maira / Reverb

"Como eu estou regendo a galera do meio do público, a gente tinha que ensaiar muito para que não acontecesse nenhum errinho, nem uma vírgula a mais ou a menos e graças a Deus está acontecendo isso", explicou a regente. Durante as apresentações, ela orienta os músicos com duas baquetas nas mãos. Isso porque ela também toca com a banda.

“Tem dois aparelhos eletrônicos que ficam ali comigo e eu toco. A gente foi para o estúdio para gravar os sons que eu queria que fossem executados ali. Então eu tenho umas ferramentas eletrônicas ali que eu faço umas intervenções no meio. Por isso a baqueta está sempre na minha mão, aí eu paro, faço uma virada e volto”, ri.

Mais conhecida como Sivuca, a baterista começou a se interessar pela música ainda criança. Moradora da favela de Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, ela não teve o apoio do pai no começo. "Até os meus 14 anos, eu morei em uma das maiores periferias de São Paulo, com índice de criminalidade e de tráfico de drogas muito altos. Quando eu tinha 12 anos, eu queria estudar música e meu pai não deixou. Disse que não era coisa para menina, que eu deveria estudar e aí eu fui chorar para a minha mãe, que me colocou numa escola de bateria”, conta.

No começo, Sivuca não teve o apoio do pai, mas continuou mesmo assim / Foto: Rarine Maira / Reverb
No começo, Sivuca não teve o apoio do pai, mas continuou mesmo assim / Foto: Rarine Maira / Reverb

A escola de bateria a apresentou para seu mestre na profissão e que mostrou para Sivuca que a música, poderia sim, abrir portas na vida dela. Por intermédio do professor, ela se mudou para a Manchester, na Inglaterra, onde começou a dar workshops não só naquele país, mas em outros vizinhos. Quando retornou ao Brasil, Sivuca conseguiu convencer o pai de que há futuro, sim, na música.

“Meu pai só veio entender que a música tinha esse propósito e esse poder de mudança quando eu voltei e comprei meu apartamento. E é isso que eu tento passar para todos os meninos que eu dou aula ou que convivem comigo nessa mudança. Se eu consegui vencer, se hoje eu tenho uma carreira sólida, toco com um artista grande, eles também podem chegar lá”, diz ela, que é baterista do rapper Emicida. A função foi até motivo de uma “dupla jornada” no Rock in Rio.

Sivuca no Palco Sunset com Emicida: dupla jornada no Rock in Rio / Foto: Wesley Allen / I Hate Flash
Sivuca no Palco Sunset com Emicida: dupla jornada no Rock in Rio / Foto: Wesley Allen / I Hate Flash

Na quinta-feira (3), quando o rapper paulistano se apresentou no Palco Sunset, a regente da banda teve que sair correndo da Arena patrocinada pelo banco para chegar a tempo para o show. “A gente tocou aqui (na Arena) e eu saí correndo para ir para o Sunset. Depois eu voltei para cá e ele (Emicida) veio também para assistir. Ele pirou, curtiu muito. São sensações diferentes ao fazer as duas coisas. Eu sinto que sou uma ferramenta para transformar. assim como fizeram comigo lá atrás quando eu era criança. Eu tenho mais do que uma obrigação de fazer isso. É uma realidade que a maioria dos músicos passa dentro de casa. Ainda mais sendo mulher, principalmente. Sendo negra, mais ainda”, reflete.

“Eu tento fazer com que todos eles entendam que eles podem fazer o que eles quiserem, só que eles têm que ter força de vontade, disciplina e atenção porque, se não tiverem, não dá. Foi isso que fez com que eu hoje pudesse ser uma empresária, posso dizer assim, de sucesso, e ser uma musicista que toca com uma galera bacana e que está à frente de um projeto bacana”, conclui.

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