De volta ao Brasil, Nick Cave fala sobre o período em que viveu em São Paulo
Entretenimento

De volta ao Brasil, Nick Cave fala sobre o período em que viveu em São Paulo

Um dos maiores destaques durante os principais festivais internacionais de música de 2018, Nick Cave aproveitou a turnê do dolorido álbum “Skeleton Tree” para acertar algumas contas. Primeiro, consigo mesmo (e com Deus, tão presente em sua obra): seguindo o disco composto como uma forma de velar seu luto, a série de shows serviu como expurgo para a trágica morte de um de seus quatro filhos, Arthur, que tinha 15 anos em 2015, quando caiu de um penhasco na Inglaterra. Outro acerto de contas foi com o público brasileiro, com quem ele não se relacionava diretamente havia 25 anos. Mais precisamente desde que encerrou uma estadia de três anos, entre 1990 e 1993, época em que morou no bairro da Vila Madalena, em São Paulo.

De volta à cidade que o acolheu — e deu a ele outro de seus filhos, Luke, com a jornalista brasileira Viviane Carneiro — um dos maiores nomes do rock mundial fez, durante duas horas e meia, um show catártico, encerrando assim a turnê de “Skeleton Tree”. Acompanhado de seus Bad Seeds de estimação, encabeçados pelo inseparável Warren Ellis, ora na guitarra, ora num violino brutal, Cave se esforçou para compensar o quarto de século em que ficou longe daqui. Mas não foi por mal, ele garante. Durante entrevista coletiva concedida dias antes, ele lembrou com nostalgia e bom humor dos tempos em que viveu na capital paulista.

Não teve exatamente um impacto no que eu fazia musicalmente, acho a música brasileira muito difícil e inteligente para mim, os ritmos vão além

“Eu me sinto ligado a esse lugar, mas faz 25 anos que não piso aqui”, contou o músico australiano de 61 anos, que fez três shows no Brasil em 1989, e só voltou agora. “É uma carga grande de emoções. Algumas das noites mais prazerosas da minha vida passei aqui. É muito empolgante para mim estar de volta. Faz muito, muito tempo. Eu tive uma vida em São Paulo. Tenho um filho brasileiro, que agora tem 27 anos, e é um menino lindo”, disse. “Foi estranho andar de carro por São Paulo, parece que a cidade está mais limpa. Há 25 anos, isso aqui não era um lugar que entraria num guia turístico”, brincou.

Embora não tenha absorvido muito da musicalidade brasileira — seu som é muito mais sombrio, soturno e sisudo que os ritmos daqui —, Cave admite que, sim, o período por aqui o influenciou. De um jeito ou de outro. “Não teve exatamente um impacto no que eu fazia musicalmente, acho a música brasileira muito difícil e inteligente para mim, os ritmos vão além”, justificou. “Com certeza o Brasil teve um grande impacto em tudo que fiz ao longo daqueles três anos. Não foi intencional, não vim para cá para ver a cultura e ter ideias. Eu vim porque estava apaixonado por uma garota e acabei ficando. Sou uma pessoa criativa e meio que absorvo o que acontece à minha volta. E é difícil estar aqui sem que isso tenha um impacto profundo sobre você. O que eu estou tentando dizer é que de fato morei aqui. Não vim simplesmente para a Bahia, usei umas percussões e fui embora. Essa nunca foi minha intenção", contou.

Para ele, tão importante quanto os ritmos, foi a vida pacata que pode levar numa época em que sua carreira não estava lá em seu auge, e ele não precisava se preocupar com selfies, tweets e stories dos fãs. "O Pedro's Bar (na verdade, a Mercearia São Pedro) ainda existe? Passei alguns dos dias mais emocionantes e divertidos da minha vida naquele lugar”, pergunta ele, sobre o tradicional bar na Vila Madalena que, sim, ainda existe e é reduto de músicos, escritores e atores — como ele próprio, autor de elogiados livros como "A Morte de Bunny Munro". “Era uma época diferente, eu podia simplesmente me sentar num bar, beber e ficar quieto, lendo um livro", disse ele, prometendo voltar para ver o Pedro, o dono, coisa que ele cumpriu — mesmo sabendo que seria tietado pelos fãs, e foi.

Perguntado sobre manifestações políticas como a de Roger Waters — com quem teve uma desavença por tocar em Israel, país que o ex-Pink Floyd publicamente boicota — Cave disse que não pretende mudar o mundo com sua música. “Minhas músicas não desafiam a sociedade, mas sim as pessoas que a escutam. Quero fornecer uma experiência transformadora, esperando que as pessoas saiam do show com suas almas restauradas de alguma forma”.

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest