Depois de 11 anos de singles, Frejat volta ao álbum para 'mostrar onde está' — e são vários seus 'lugares' musicais
Entretenimento

Depois de 11 anos de singles, Frejat volta ao álbum para 'mostrar onde está' — e são vários seus 'lugares' musicais

As cobranças por um disco novo vinham de todo lado: amigos, fãs e, no fundo, dele mesmo. Frejat então decidiu que era hora de dar um tempo com os singles para reunir as canções que estavam pedindo para sair do papel em um álbum. "Ao Redor Do Princípio" chega nesta quinta-feira (4/6) nas plataformas digitais com 13 faixas depois de 11 anos de seu trabalho anterior "Intimidade Entre Estranhos".

Frejat passou 11 anos lançando singles, pois diz que achava que não valia a pena parar para se dedicar a um álbum diante das mudanças de consumo de música. "Chegavam pra mim perguntando 'e aí, quando você vai lançar um disco?' e eu perguntava 'Onde você vai comprar ele? Não tem mais loja de disco nessa porra!'. Ou então dizia: 'Ah é, vou ficar dois meses enviado num estúdio para você ouvir duas músicas e jogar o CD no armário", brinca em entrevista coletiva por videoconferência.

Frejat lança novo álbum 11 anos depois de divulgar apenas singles. Foto: Leo Aversa
Frejat lança novo álbum 11 anos depois de divulgar apenas singles. Foto: Leo Aversa

O cantor e guitarrista conta que começou a se sentir frustrado porque, à medida em que os singles davam a possibilidade de turnês com diferentes repertórios, ele começou a ter a impressão que a interpretação que estava dando para esses lançamentos avulsos era menor do que para um álbum. "Não tem jeito, um álbum é algo muito mais consistente. As pessoas vão ouvir o disco e vão saber que a cabeça do Frejat em 2019 era essa. O álbum tem a função de mostrar onde você está. E no meu caso, que sou um compositor, é um conjunto de canções que faz com que minha obra seja consistente. São elas que me dão reconhecimento, principalmente pela integridade, certa harmonia e coerência", analisa.

O novo álbum, que foi gravado ano passado, dá mesmo a impressão de que Frejat andava com saudades de fazer um trabalho completo. Tem convidados, reencontros, novos nomes, um time numeroso que esteve a seu lado na composição e na produção.

O tecladista e colaborador há décadas Humberto Barros foi o primeiro "convocado" para a produção, seguido de Kassin e Maurício Negão. Os parceiros comparecem em 10 das 13 faixas, incluindo Leoni, em quatro, George Israel, Mauro Santa Cecília, Antonio Cícero, Dulce Quental e Zeca Baleiro. Uma especial é "E Você Diz", feita com Jards Macalé e Luiz Melodia (1951-2017) em 2015.

Frejat conta que a ideia do álbum começou a amadurecer com "Planetas Distantes", parceria sua com Dulce com pegada bem rock clássico. "Falei com o Humberto, que queria algo mais eletrônico, contemporâneo. Afinal, eu sou o próprio rock'n'roll, e um rock retrô ficaria ridículo, completamente patético! Ele adora Depeche Mode e gostei muito dos sintetizadores que ele usou. A música evoluiu tão bem que, por conta dela, fiquei com vontade de fazer um disco", conta.

A lista de músicos inclui, entre outros, Arthur Verocai, Pupilo, Carlos Malta, Serginho Trombone e Leonardo Reis. "Esse é o primeiro disco que faço depois da morte do Peninha (o percussionista morreu em 2016, aos 66 anos), nossa sintonia era absoluta. Então eu queria um nome diferente, e aí chegou o Leonardo. Foi impressionante, tinha momentos em que ele tocava e eu nem percebia que havia uma percussão ali, de tão encaixada que estava na música. Poucas vezes vi isso acontecer", elogia. Num outros extremo, está o veterano Arthur Verocai, que fez os arranjos de cordas de "Por Mais Que Eu Saiba" e "Sua Dor É Minha". "Meu grande sonho era ter o Lincoln Olivetti (1954-2015), que fazia arranjos de um jeito muito rock, mas infelizmente não deu tempo. Aí o Kassin sugeriu o Verocai. Eu tinha acabado de produzir o disco do Serginho Trombone, que é muito amigo dele então nos demos super bem. Seus arranjos foram fenomenais", conta Frejat.

Entre os cantores convidados, Alice Caymmi canta no blues "Sua Dor É Minha" e Ritchie faz backings em "Pergunta Urgente"(destaque do repertório, a mais classic rock balada do álbum) e "Por Mais Que Eu Saiba". "É um grande lapso de nós dois nunca termos feito nada juntos. Lembro de estar no estúdio ensaiando e encontrar o Ritchie gravando seu primeiro disco. Mas eu o via como aquele cara do Vímana que eu via moleque, com 17, 18 anos. Como ele seguiu um caminho mais pop e nós, rock, não nos cruzamos muito, a não ser em programas de TV. Dos anos 90 para cá passamos a morar perto e nos víamos mais. Quando pintou a ideia de chamar alguém para fazer os backings, alguém sugeriu ele. Liguei no dia do aniversário da mulher dele, combinamos um encontro e foi maravilhoso. Ele fez dois vocais diferentes, um mais tradicional na 'Pergunta...' e outro numa linha mais Beatles, em que faz contraponto e interage com a voz principal", explica ele.

Frejat, que estreou em disco em 1982 com o Barão Vermelho e lançou o primeiro solo em 2001 ("Amor Pra Recomeçar"), participou de todas as mudanças do mercado fonográfico. "Passei pela troca do vinil e cassete pelo CD, pela pirataria, pelo aparecimento das plataformas digitais...Hoje a mais acessada é o Youtube, mas já vemos uma migração maior para o Deezer, Spotify e outras do tipo. O mais curioso é que a relação das pessoas com a música mudou muito. Não quero dizer pior ou melhor, mas sim diferente. E é algo indecifrável, daqui a alguns anos pode surgir uma nova plataforma tecnológica que vai jogar o Youtube no lixo. Quem sabe um chip na cabeça, mas aí vão poder localizar a gente também...", brinca.

O lançamento do álbum em formato vinil parece ser uma ideia que não passa na cabeça de Frejat. "O mercado de vinil é uma mistura de saudosismo com hype. Eu, particularmente, só tenho saudade da capa. Pelo aspecto gráfico é maravilhoso, mais ainda por não precisar pegar uma lupa pra ler ficha técnica. Da fita cassete, não tenho saudade nenhuma, pode esquecer!", diz.

Agora, Frejat vivencia mais uma mudança profunda na indústria da música, que é a do surgimento das lives, uma consequência da pandemia do coronavírus e seu distanciamento social. "Nesse momento é a única opção, já que espetáculos ao vivo só voltam à normalidade com a vacina. Ou pelo menos um coquetel nos moldes que tem para a Aids. Não tendo o paliativo, só com a vacina porque não é viável, no Brasil, fazer um show numa casa de espetáculos com uma ocupação de 25%. Uma plateia reduzida assim não paga os custos", observa, acreditando que as lives poderão ser um fator de equilíbrio no mercado. "O artista vai poder fazer uma live para um público especifico, com controle de acesso. Shows temáticos, que seriam complicados de se transportar de um lugar para o outro podem se tornar viáveis. Eu acho que, se hoje todos dependem de lives patrocinadas, daqui a pouco o domínio volta para os artistas e produtores", diz ele.

Tudo muito bom, mas... "O público quer quer ver o cara cantando, quer xingar, agarrar, o que for! Tem toda essa troca de energia que, diante da tela do computador, mesmo que sejam milhares assistindo, não tem. A plateia é o que te alimenta, dali vem aquela porrada que o artista tem que saber como segurar. Quem não sabe, perde a linha, faz merda no palco", ensina ele. Do alto de seus quase 40 anos de estrada, Frejat sabe quenada substitui um show ao vivo.

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest