Depois de 40 anos reclusa, Betty Davis, 'rainha do funk' original e 'Madonna antes de Madonna', volta a produzir uma canção
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Depois de 40 anos reclusa, Betty Davis, 'rainha do funk' original e 'Madonna antes de Madonna', volta a produzir uma canção

Você pode até não conhecê-la. Mas deveria, afinal, ela já foi considerada a rainha do funk americano.

Betty Davis, cantora americana de 74 anos, era "o Prince, só que mulher", como descreveu seu ex-marido, o jazzista Miles Davis (1926-1991), em sua autobiografia lançada em 1989. Na verdade, afirmar o contrário seria mais justo, uma vez que ela surgiu antes do intérprete de "Purple Rain" — e, sem dúvidas, serviu de inspiração para a carreira do cantor (morto abril de 2016), bem como a de Madonna e, consequentemente, de parte das divas pop da atualidade.O legendário guitarrista Carlos Santana, aliás, escreveu no encarte de um de seus discos: "Ela foi a primeira Madonna, mas a Madonna é como Marie Osmond (cantora de pop caretinha, integrante do grupo familiar The Osmonds, famoso nos anos 1970) comparada à Betty Davis".

Apesar da qualidade e do caráter inovador do que fez — olha, nem chegamos a falar sobre sua influência no trabalho do ex-marido! —, Betty não tem a devida notoriedade nos dias de hoje. Sua reclusão contribuiu — e ainda contribui — muito para isso. Nos anos 1980, a cantora decidiu viver uma vida tranquila na pacata cidade de Homestead, na Flórida. Só agora, 40 anos depois do lançamento de seu último trabalho, em 1979, ela decidiu quebrar o silêncio. O fez ao lançar a faixa "A Little Bit Hot Tonight", composta e produzida por ela, mas interpretada pela pesquisadora Etnomusicologia Danielle Maggio, da universidade de Pittsburgh.

Betty Davis, a rainha do funk americano/Getty Images
Betty Davis, a rainha do funk americano/Getty Images

Entenda a história de 'A Little Bit Hot Tonight'

Em 2007, o selo de Seattle Light in the Attic começou a "reviver" as músicas de Betty Davis. Dez anos depois, o cineasta londrino Philip Cox lançou um documentário baseado na vida da artista. "Betty — They Say I’m Different" foi exibido em Nova York, onde ela nasceu, e introduzido por ninguém menos do que Erykah Badu. No Brasil, passou no festival Mimo, em 2018. Philip conta que, entre o primeiro contato telefônico com Betty até o primeiro encontro, em Pisttsburgh, passaram-se dois anos. E na primeira vez que foi ao apartamento dela, Betty não o deixou entrar. Para o filme, deixou-se filmar por apenas 20 minutos. “Ela não queria mostrar o rosto no filme, porque estava mais velha e achava que as pessoas são obcecadas por idade”, disse o cineasta, em entrevista ao jornal "O Globo".

Através de Philip, Betty conheceu Danielle Maggio, uma estudante prestes a ingressar no doutorado de Etnomusicologia na universidade de Pittsburgh. A jovem ficou sabendo da existência de Betty em 2007, mesmo ano em que a gravadora Light in the Attic se interessou em relançar seus antigos trabalhos.

No dia em que se conheceram, Danielle e Betty se tornaram amigas graças ao gosto musical muito parecido. O encontro rendeu muitos outros nas semanas seguinte. "Certa vez, Betty me ouviu cantando e disse ter gostado", revelou Danielle em entrevista ao "Post Gazette". "Depois, ela me disse que estava trabalhando em uma música para mim e mal pude acreditar. Não achei que estava acontecendo até que ela colocou duas páginas de letras escritas à mão na minha frente há alguns meses atrás."

A música era "A Little Bit Hot Tonight", que Betty começou a escrever no fim dos anos 1970 quando ainda vivia no Japão. "Essa canção é muito jazz", avaliou Betty. "Foi inspirada no músico japonês Itsuro Shimoda. Minha ideia foi misturar o Oriente com o Ocidente e assim ela nasceu."

Além de "A Little Bit Hot Tonight", a cantora de 74 anos pretende lançar novos trabalhos no futuro. Danielle tem esperança que essas canções inéditas caiam nas mãos do Black Women Rock, um coletivo musical criado por Jessica Care Moore para homenagear o legado de Betty e outras mulheres negras.

O legado de Betty Davis

O disco de estreia de Betty, autointitulado, saiu em 1973. Por conta desse e de seus dois trabalhos posteriores — "They Say I'm Different" (1974) e "Nasty Gal" (1975) —, ela foi chamada de "uma mulher à frente de seu tempo", apesar de não dar muita bola para isso. "Eu era muito influenciada pelo blues", explicou a cantora. "Naquela época, era uma das poucas que gravavam blues. O funk entrou em cena durante esse período, então eu basicamente juntei os dois e criei uma coisa nova."

Nascida em Durham, cidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, em 1945, Betty carregava o sobrenome Mabry antes de adotar o Davis, de seu marido trompetista. Cresceu imersa no blues de Big Mama Thornton, John Lee Hooker, Jimmy Reed e B.B. King por influência da avó e da mãe. "Ela tinha uma coleção de blues muito boa. Nós costumávamos nos sentar e conversar bastante. Ela me contava sobre suas experiências musicais", disse Betty. "Ao crescer, minha mãe também tocava muita música boa em nossa casa."

Aos 12 anos, a família mudou-se para Homestead, na Flórida, onde seu pai conseguiu um emprego como operário em uma companhia de aço. Naquela época, ela escreveu sua primeira música, "I'm Going To Bake That Cake Of Love". Depois de terminar o ensino médio, a cantora rumou para Nova York com sua tia. Lá, ela se matriculou no Fashion Institute of Technology e se formou em design de moda.

Não demorou muito para que Betty se tornasse modelo, posando para revistas como "Elle" e "Glamour". Como jovem em Nova York, ela frequentava as boates do bairro de Greenwich Village, onde cruzou com Jimi Hendrix, Sly Stone e outros músicos da cena local. Em 1964, teve seu primeiro single gravado, "The Cellar", graças a ajuda do cantor de soul Lou Courtney. Três anos depois, os Chamber Brothers gravaram sua música “Uptown (para Harlem)” para o seu álbum de estréia.

Naquele mesmo ano, Betty conheceu seu marido, Miles Davis, estrela do jazz 20 anos mais velha do que ela. "Fui ouvi-lo tocar em um clube de Nova York chamado Village Gate”, lembrou-se. "Depois disso, ele me ligou. Me convidou para bebermos um drink. E foi assim que nos conhecemos, tomando uma no bar. Na hora, eu quase pedi refrigerante."

Eles se casaram em setembro de 1968 e, durante seu breve relacionamento, ampliaram os horizontes musicais um do outro. Betty relatou que Miles influenciou seu gosto musical pelos clássicos, como Rachmaninoff e Stravinsky. Ela, por sua vez, apresentou ao marido artistas contemporâneos como Jimi Hendrix. A partir daí, Miles entrou numa nova fase, na qual lançou "Filles de Kilimanjaro", de 1969 — Betty está estampada na capa do LP —, e "Bitches Brew", de 1970.

Em 1969, Miles pediu o divórcio para Betty, temendo que ela estivesse tendo um caso com Jimi Hendrix (1942-1970). "Muitas pessoas acreditavam que nós estivéssemos saindo. Mas não. Na verdade, ele estava saindo com uma amiga minha na época", admitiu ela. "Ela se chamava Devin. Depois ele começou a sair com outra amiga, a Collete. E assim nos conhecemos. Ele queria muito fazer música comigo ou com Miles, mas não deu, pois ele faleceu."

Para Betty, o que acabou com o casamento dos dois foi o temperamento de Miles Davis. Em sua autobiografia, por exemplo, o músico escreveu que enxergava a ex-mulher como "uma groupie de alta classe, muito talentosa, mas que não acreditava em si mesmo".

"Aretha Franklin e Chaka Khan eram as verdadeiras cantoras", desabafou Betty. "Eu era apenas uma projeção. Sei como fazer uma música funcionar, mas não me considero uma boa cantora."

Após a separação de Miles, ela foi viver em Londres, onde continuou sua carreira de modelo. Lá, ela também escreveu músicas, que chamaram a atenção dos Commodores e da gravadora Motown. Betty, no entanto, não quis assinar com o selo. Apenas voltou para os EUA em 1972, quando mudou-se para São Francisco. Lá, uma de suas demos chegou às mãos do promotor do festival Woodstock, Michael Lang. Vendo seu potencial, ele a contratou pelo selo Just Sunshine.

"Michael ouviu minha música e compartilhou com Bob Krasnow, que era um grande empresário na época. Ele disse que eu soava como Dr. John se ele fosse mulher", relembrou Betty. Depois disso, em 1973, gravou seu primeiro álbum que teve Merl Saunders e as Pointer Sisters como backing vocals. Na reedição do disco em 2007, o guitarrista Carlos Santana declarou: "Ela foi a primeira Madonna, mas Madonna é mais como Marie Osmond em comparação com Betty Davis". Apesar de tantos elogios, o disco de estreia não decolou.

"Eu era uma experiência muito nova para todos", falou Betty. "Michael realmente não sabia como me empacotar, mas eu devo muito a ele porque ele se arriscou e assinou comigo."

O segundo disco, "They Say I’m Different", de 1974, foi ainda menos comentado, muito por conta de um boicote das rádios que não queriam tocar suas músicas "sensualizadas demais" para uma mulher da época. Mesmo aborrecida, ela não abaixou o tom feminista no sucessor, "Nasty Gal", de 1975. Isso se custou sua carreira, mas, indiscutivelmente, abriu portas para muitas mulheres no futuro.

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