Samantha Machado faz pop eletrônico para quem ‘tem uma verdade diferente dos padrões’
Entrevista

Samantha Machado faz pop eletrônico para quem ‘tem uma verdade diferente dos padrões’

Questões existenciais sempre estiveram na cabeça de Samantha Machado. Aos 26 anos, a cantora e rapper paulistana que ascende na cena pop eletrônica (ela tem mais de um milhão de ouvintes mensais no Spotify) passou boa parte da vida buscando respostas sobre o motivo de estar no mundo como ela é: inconformada, sagitariana, amante da língua portuguesa, ávida leitora com interesse por misticismo. "Multifacetada Em Lapidação Constante" foi a definição que ela encontrou para ela mesma e para dar nome ao seu primeiro álbum, lançado em abril.

A frase surgiu na época do falecido Orkut, rede social popular no Brasil na primeira década dos anos 2000. “Tinha aquele campo de dizer ‘quem sou eu’ e quando eu me deparei com isso, uma sagitariana filósofa como eu, me vi na dificuldade de dizer quem eu era. Quando cheguei à conclusão dessa frase, passei a usar em todos os meus perfis”, explica. A grafia do disco foi alterada para “MVLTIFVCETVDV EM LVPIDVCVO CONSTVNTE” para trazer um ar "romano" ao conceito. Tudo que vem de outras eras, sejam elas do passado ou do futuro, brilha aos olhos de Samantha.

Samantha Machado na capa do álbum ‘MVLTIFVCETVDV EM LVPIDVCVO CONSTVNTE’ / Foto: Divulgação
Samantha Machado na capa do álbum ‘MVLTIFVCETVDV EM LVPIDVCVO CONSTVNTE’ / Foto: Divulgação

“Eu estou sempre buscando encontrar respostas no meu passado e na minha história, muitas respostas do futuro eu vou encontrar no passado”, diz.O álbum de estreia é um resumo da vivência de Samantha no último ano. Há nele momentos de romance, de luta e de autoconhecimento. Este último é o que mais se aproxima da realidade atual da artista. “Já passei pelo romance e pela luta, agora é hora de conhecer minhas potencialidades: até onde posso ir ou não ir e por que posso ou não posso.”

A “sereia espacial” — como ela é chamada pelos fãs — se vê constantemente quebrando estereótipos. “Se a gente quer conhecer quem a gente é, a gente tem que se desapegar de todos esses padrões e olhar pra dentro”, ela reflete. “É muito difícil eu arrumar namorado porque as minhas ideias são muitas. Nada é nosso, a gente não tem ninguém. As pessoas são livres e elas fazem o que elas querem.”

Antes de “Multifacetado”, ela estourou com “Nave Espacial”, sua música mais ouvida no Spotify até hoje. A letra fala sobre viajar para o espaço sideral para procurar uma nova experiência — algo que ela busca constantemente. "Numa nave espacial/ Certos de que além do acima há uma jornada/ Eu quero ir/ Pro espaço sideral/ Nessa vida passageira/ Eu vou contigo até o fim."

A maternidade foi uma redescoberta para Samantha. Caminhar por entre os desafios de ser mãe e estar em um relacionamento abusivo a fizeram passar pelo momento isolada. “Eu tive uma gravidez muito solitária, me senti muito só. Não foi algo positivo, mas me fortaleceu.”

A filha, Ísis, de três anos, também tem talento com a música, segundo Samantha. “Ela já está muito falante, vai falando as palavras uma atrás da outra. (A música) ‘Cigana’ surgiu de ouvi-lá viajando nas palavras, ela começou a falar ‘Cigana bonita…’ e acabou sendo uma música que fala do que eu penso da minha filha, os desafios que ela trouxe.”

Os temas dão ideia da amplitude do público de Samantha. “É fato que eu toco muito mais as ‘minas’ pela questão da representatividade, de ser mulher... Mas a minha música é para todo mundo mesmo: criança, adulto, idoso. Eu não canto para empoderar só as mulheres, mas para todo mundo que tem dentro de si uma verdade que é diferente do que as pessoas querem que você tenha, uma verdade diferente dos padrões.”

Samantha: ‘Eu canto para todo mundo que tem dentro de si uma verdade que é diferente do que as pessoas querem que você tenha.’ / Foto: Divulgação
Samantha: ‘Eu canto para todo mundo que tem dentro de si uma verdade que é diferente do que as pessoas querem que você tenha.’ / Foto: Divulgação

Samantha viaja no tempo através da leitura. Uma de suas obras favoritas é “O Livro Perdido de EnkiMemórias e Profecias de um Deus Extraterrestre”, de Zecharia Sitchin (1920-2010), que tem uma interpretação peculiar de textos criados pelos sumérios cerca de 3.000 anos antes de Cristo.

De leitura em leitura, passo a passo, ela percebeu que seu caminho estava na música, mas não de forma simples. Enxergar que tinha o “tino de artista”, como ela classifica, foi um processo duro. Ainda mais sem o apoio da família que cobravam que ela tivesse a vida de “uma pessoa normal”. “Meus pais viam que eu tinha algo de diferente, mas isso passou. Parte disso eu tenho culpa porque eu demorei a me perceber como uma pessoa séria. Eu não tinha responsabilidade nenhuma no meu início de carreira. Tocava no bar e bebia o cachê”, conta. “E músico só se fode, né? Ninguém quer desejar isso para os filhos. A caminhada é difícil, mas tem se ajeitado com o tempo.”

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