Dez canções rebeldes que agitaram as ruas no Chile, em Hong Kong e em outros pontos do globo em 2019
Inspiração

Dez canções rebeldes que agitaram as ruas no Chile, em Hong Kong e em outros pontos do globo em 2019

Toda revolução tem sua música, e os protestos globais de 2019 não são exceção. Do Chile ao Líbano, na luta contra as mudanças climáticas e a violência contra as mulheres, certas músicas se tornaram parte da trilha sonora das reivindicações políticas, econômicas e sociais.

Na lista do site NPR, o critério não foi o de canções feitas por compositores que criam obras de protesto e sim em músicas que se tornaram gritos de guerra coletivos. Além das criadas com resposta ao clima atual, estão uma música de mais de 40 anos que renovou seu propósito e uma canção infantil que estranhamente ganhou um significado político.

Reivindicações ao redor do mundo ganham trilhas sonoras. Crédito: Getty Images
Reivindicações ao redor do mundo ganham trilhas sonoras. Crédito: Getty Images

CHILE - "El Derecho De Vivir En Paz" (Musicxs de Chile)

A música de Victor Jara, de 1971, tornou-se hino de resistência contra o regime de Pinochet, que prendeu e assassinou Jara. Este ano, centenas de milhares de chilenos inundaram as ruas de Santiago para protestar contra a estratificação econômica do presidente Sebastian Piñera. Vários músicos chilenos, incluindo Mon Laferte, Francisca Valenzuela, Gepe e Pedropiedra trouxeram o original de Jara para o presente, escrevendo em uma declaração: " Nós, como artistas, repudiamos as ações do governo em militarizar as ruas, assassinar e torturar nossa comunidade".

IRÃ - 'Pareh Sang' (Mehdi Yarrahi)

Músicos que querem trabalhar no Irã precisam ter muito cuidado ao lidar com o regime e burocratas que têm o poder de aprovar ou negar apresentações e gravações públicas. O cantor Mehdi Yarrahi - que recebeu um prêmio de melhor cantor pop do Ministério da Cultura e Orientação Islâmica do Irã no ano passado - conseguiu gravar a música anti-guerra na qual narra a devastação em sua casa. Antes de uma apresentação ao vivo em julho, os censores pediram a Yarrahi que mudasse a letra, mas ele recusou. Então, enquanto sua banda tocava a música numa versão instrumental, o cantor saiu do palco e seus fãs assumiram a responsabilidade, cantando a letra numa resposta à tentativa de censura.

LÍBANO - 'Baby Shark'

Sim, você leu certo: o refrãozinho sem fim "Doo doo doo doo doo" pulou do hit infantil viral para um hino de protesto nas ruas de Beirute, onde manifestantes exigindo melhores serviços básicos e combatendo a corrupção foram às ruas e conseguiram que o primeiro ministro entregasse o cargo. Numa noite de outubro, um grupo de manifestantes cantou "Baby Shark" para tentar entreter uma criança assustada no meio deles. Esses manifestantes podem até não ter sido bem-sucedidos em acalmar o bebê de um ano e meio mas, quase inevitavelmente, a situação virou um meme e acabou se tornando parte da trilha sonora dessa revolução.

AMÉRICA LATINA/EUA - 'The Dreamer' (Che Apalache)

Inspirado em Moisés Serrano, líder comunitário ligado à Deferred Action for Childhood Arrivals na Carolina do Norte, "The Dreamer" conta a história de uma criança chamada Moses que, como seu homônimo bíblico, sobrevive a uma perigosa jornada para um país que não o quer receber. A banda Che Apalache, de Buenos Aires, dá o tom às histórias dos ilegais da Carolina do Norte, tão americanas quanto as montanhas.

ZIMBÁBUE - 'Zvitori Nani' (Tocky Vibes)

No meio de outra crise econômica e política no Zimbábue, após a deposição e morte de Robert Mugabe e o desconforto com seu sucessor, Emmerson Mnangagwa, o profundo descontentamento no país foi inspiração para seus artistas pop, especialmente cantores de Zimdancehall como Winky D e Tocky Vibes. A canção deste último é um reggae que parece pacato, mas esconde a fúria em sua letra - que desafia os soldados de seu país a ficar do lado do povo. No vídeo, soldados pisam em um homem deitado em uma rua de Harare.

'The 1975' (The 1975)

Uma das vozes mais esclarecedoras de 2019 foi a da ativista sueca de 16 anos, Greta Thunberg. Em julho, a banda inglesa The 1975 forneceu às palavras de Thunberg uma trilha sonora de uma faixa também chamada de "The 1975". É claro que uma música como essa está destinada a ser mais um gesto do que um catalisador em si, mas foi tocada em comícios de mudanças climáticas internacionalmente. Como Thunberg afirma na faixa: "Precisamos de uma mudança de sistema em vez de mudança individual, mas você não pode ter um sem o outro".

PORTO RICO - 'Afilando Los Cuchillos' (Residente feat. iLe & Bad Bunny)

Quando mais de 800 páginas de conversas em grupo entre o governador Ricardo Roselló e sua equipe contendo vulgaridade, racismo, homofobia e referências a atividades corruptas vazaram, milhares de manifestantes em toda a ilha pediram sua renúncia, o que conseguiram em poucas semanas. Residente, Bad Bunny e iLe cancelaram suas férias para retornar à ilha durante as manifestações e lançaram "Afilando Los Cuchillos", movidos por um sentimento que compartilharam com o povo porto-riquenho: "Que se enteren to's los continente' / Que Ricardo Rosselló es un incompetente.".

HONG KONG - "Do You Hear The People Sing?" (Os Miseráveis)

Às vezes, representações ficcionais de revolução passam a habitar a vida real. É o caso do musical "Os Miseráveis", cuja música "Do You Hear the People Sing?" tornou-se um refrão popular nos protestos em Hong Kong em 2019 depois que alunos começaram a cantar no lugar do hino nacional chinês em uma assembléia escolar. Também foi um sucesso nas ruas de Kiev em 2014, durante a revolução da Ucrânia. Não chega a ser surpresa que os censores rapidamente tenham apagado a canção de muitos dos serviços de streaming da China.

ESTADOS UNIDOS - "Guns" (Quelle Chris)

O álbum de Quelle Chris fala sobre como os americanos pensam sobre proteção. "It's the Law" examina o armamento legal da supremacia branca; "Sunday Mass" narra recentes tiroteios em massa. Na faixa-título, Quelle habita a psicologia de quem já pensou que uma arma de fogo os eximiu da violência armada, e pergunta se a sobrevivência é considerada legal ou moralmente digna de defesa.

'Un Violador En Tu Camino' (LasTesis)

O coletivo feminista LasTesis, de Valparaíso, Chile, criou "Un violador en tu camino" como uma obra para protestar contra a violência sexual, o feminicídio e a cumplicidade de governos e sistemas que deixam esses índices crescerem de forma descontrolada. "O patriarcado é um juiz", elas cantam, "que nos julga por termos nascido, e nosso castigo é a violência que você não vê". Em novembro, a performance foi reproduzida em lugares como Paris, Cidade do México, Buenos Aires e Roma por mulheres que acreditam que a mensagem da LasTesis é fundamental e global.

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