Dia Mundial do Rock: há 34 anos, a origem, em um caótico e inesquecível Live Aid
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Dia Mundial do Rock: há 34 anos, a origem, em um caótico e inesquecível Live Aid

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 O Dia Mundial do Rock é algo que, assim como a tomada de três pinos, a cópia xerox autenticada e a jabuticaba, só existe no Brasil. Foi inventado espertamente por rádios rock de São Paulo nos anos 1990, para incrementar o calendário promocional de eventos. Uma espécie de "rock'n'roll swindle" ("trambique roquenrol") esperto, como aquele que deu nome a um documentário sobre os Sex Pistols.

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Autêntica, historicamente justificada ou não, fato é que a comemoração colou. Até hoje. E o Reverb, claro, não está aqui para empatar a festa de ninguém. Este texto vai às origens do que está sendo celebrado a cada 13 de julho: o Live Aid, original, evento beneficente realizado em 13 de julho de 1985, nos estádios de Wembley, em Londres, e JFK, na Filadélfia, acompanhado ao vivo por pouco menos de 2 bilhões de pessoas em todo o planeta.

Freddie Mercury e David Bowie no dia em que sacudiram o mundo /Getty/ Phil Dent
Freddie Mercury e David Bowie no dia em que sacudiram o mundo /Getty/ Phil Dent

No Brasil, passou em videotape, na TV Globo, com direito a gafes e um show de erros nos créditos da músicas. Foi um festival de “Sundey, Bloody Sundey”, “Every Bref You Take”, “Stairway To Haven”, “Into The Grove” e uma tal “More Than Love” (na verdade “Modern Love”, a canção de David Bowie).

Para se ter uma ideia do sucesso do evento: Michael Jackson, Bruce Springsteen e Prince, os três maiores astros do pop/rock da época, não se apresentaram no Live Aid (Prince apareceu em mensagem gravada). E... ninguém se importou. Porque os shows simultâneos na Inglaterra e nos Estados Unidos reuniram gigantes como Queen (na performance histórica reconstituída no filme 'Bohemian Rhapsody'), U2, Madonna, Led Zeppelin, The Who, Rolling Stones, Paul McCartney, Elton John, David Bowie, Bob Dylan, Eric Clapton, Crosby, Stills, Nash & YoungTina Turner, Elvis Costello, Bryan Ferry, Judas Priest, Black Sabbath e Santana. 

Além deles, o elenco incluía nomes no auge da popularidade, como Lionel Richie, Sting, Phil Collins, Dire Straits, Daryl Hall & John Oates, Pretenders e Simple Minds, e alguns artistas negros legendários hoje pouco lembrados pela presença no Live Aid, como The Four Tops, lendas da soul music, B. B. King e Run DMC.

Four Tops brilharam na Filadélfia/Getty/Ebets Roberts
Four Tops brilharam na Filadélfia/Getty/Ebets Roberts

Coube à nigeriana Sade o papel de estrela solitária da África no elenco multiestelar dos dois estádios. Uma ironia e tanto. Afinal, o evento havia sido motivado por uma tragédia infelizmente nada incomum no continente. Na época, Burkina Faso e as lusófonas Angola e Moçambique viviam momentos dramáticos semelhantes.

Mas a pauta africana mais destacada no noticiário internacional anglófono de então era outra. Em julho de 1984, foi veiculado um alerta: 7 milhões de etíopes estavam ameaçados pela fome. Nas províncias de Wolo e Tigre, morriam 250 pessoas por dia. Ali e na Eritreia, havia forças separatistas. Estados Unidos e Inglaterra tinham interesse em desestabilizar o regime do ditador comunista coronel Mengistu Hailê Mariam, que ocultou a gravidade da situação para não atrapalhar as festas dos 10 anos da revolução, em novembro de 1984.

Sade, estrela solitária africana em Londres/ Getty
Sade, estrela solitária africana em Londres/ Getty

 Em agosto de 1985, um irlandês cabeludo e desbocado de 33 anos de idade foi parar na capa das mais importantes revistas americanas e europeias. Numa delas, ganhou o apelido São Bob. Bob Geldof falava sobre assuntos sérios como fome no mundo e nova consciência da juventude, sempre pontuando com interjeições de cais do porto. Estava cotado para o Prêmio Nobel da Paz. Pouco mais de duas semanas antes, tinha organizado um evento que marcaria para sempre sua geração e que, muita gente apostava, iria começar a mudar o mundo.

Hoje o sujeito está imortalizado no honorável Dicionário Oxford de Citações como autor da frase: “Give us your fookin’ money”. Ela foi dita atrás do palco do Live Aid, num estádio londrino que não existe mais (assim como o Maracanã, foi abduzido por arenificações escusas), Wembley, em 13 de julho de 1985. Naquele dia, o cantor, líder de um grupo chamado Boomtown Rats, estava tentando “melhorar a vida na África” e “fazer a pobreza virar história” (no sentido de passado).

Um ano antes, Bob Geldof estava em franco declínio profissional. Até que, em outubro de 1984, viu uma reportagem na BBC. O jornalista e documentarista Michael Buerk expunha para os ingleses o genocídio que estava acontecendo na Etiópia. Não era só uma seca, uma catástrofe natural, tratava-se de tragédia humana, no mau sentido.

Comovido, Bob teve a idéia: reunir um time de astros da música pop inglesa para gravar um compacto com espírito natalino. O tema, ele mesmo comporia: “Do They Know It’s Christmas? Para ajudá-lo na tarefa, contava com Midge Ure, cantor e produtor que, assim como Geldof, também já tinha comido perus mais gordos nos Natais como líder do grupo Ultravox

 São Bob esperava abiscoitar 100 mil dólares e logo se viu contabilizando dois milhõezinhos. Resolveu pensar maior e, quando o mundo viu, lá estava ele, com palcos montados em Wembley e no estádio JFK, na Filadélfia (com eventos menores rolando também em Sydney, na Austrália, e em Tóquio, no Japão). Tinha reunido um timaço inacreditável de pop stars. Led Zepellin e The Who voltaram do nada só pra tocar naquela joça! “Pu** que o pariu, eu sou f**a!”, deve ter pensado o santo.

Em agosto de 1984, teria que enfrentar picuinhas com o presidente da fundação USA For Africa, Ken Kragen, que aproveitara a onda de mídia em torno do Live Aid para anunciar que iria fazer “algo maior’. Em 1985, já em janeiro, um gravação reuniria 45 artistas americanos para gravar um single composto por Michael Jackson e Lionel Richie: "We Are The World", que alcançou o primeiro lugar em centenas de países e ajudou a fundação a arrecadar cerca de 100 milhões de dólares. Não poderia ter sido outra a canção a encerrar o concerto do Live Aid nos EUA.

 “A vida americana evolui em ciclos. Que o Live Aid possa mais tarde ser visto como um momento de virada, o fim de um ciclo de passividade, egoísmo e decadência moral, e o começo de um outro ciclo em que as grandes tradições americanas de tolerância, compaixão e espírito comunitário sejam propelidas pelos motores da juventude.” Assim terminava um artigo publicado na revista "Rolling Stone", em 29 de agosto. Os tolos já tinham ouvido o despertador berrando, mas ainda não haviam acordado para o fato de que aquela era apenas a “manhã na América”.

A expressão que batizou os tempos do segundo mandato de Reagan tinha a ver com prosperidade. Estava sobrando dinheiro. Tanto que o Live Aid superou as melhores expectativas. Os organizadores esperavam levantar 10 milhões de dólares; arrecadaram quinze vezes isso. Em agosto, ainda estavam começando a contar o dinheiro. A primeira parcial só saiu no fim de outubro. Tinham gasto apenas 4,1 milhões para montar o circo todo. A turma da empresa que produziu o evento, Worldwide Sports and Entertainment, achava que 1 bilhão de pessoas assistiriam aos shows pela TV; o número de telespectadores foi quase o dobro.

Tida e havida como grande dançarina, Tina Turner deu um pisão severo em Mick Jagger durante 'Dancing In The Street'/Getty
Tida e havida como grande dançarina, Tina Turner deu um pisão severo em Mick Jagger durante 'Dancing In The Street'/Getty

 Vinte e dois países mostraram ao vivo, 128 pagaram para receber uma versão compacta. O governo da União Soviética comprou o show ao vivo, mas não exibiu. Gravou tudo, chamou 800 notáveis pra ver (tinha uma banda russa na parada, Autograph) e resolveu editar pra passar depois. De qualquer forma, entrou no bolo. Nove meses antes dos alarmes de Chernobyl, o despertador de Gorbachev estava tocando. 

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