Diretor de clipes, Carlos Lopez Estrada estreia no cinema com filme embalado por rap
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Diretor de clipes, Carlos Lopez Estrada estreia no cinema com filme embalado por rap

O diretor Carlos Lopez Estrada conheceu Daveed Diggs há cerca de sete anos. Desde aquela época, o rapper do grupo norte-americano Clipping tinha a ideia de fazer um filme que misturasse suas experiências pessoais com a vida na cidade californiana de Oakland. “Acho que originalmente eles só queriam escrever algo que tivesse linguagem da rua, spoken word, e deixaram a cidade, e as coisas que estavam acontecendo por lá, influenciar a história deles”, diz o cineasta, falando também sobre Rafael Casal, amigo de longa data de Diggs que, assim como ele, é roteirista e protagonista do longa “Ponto Cego”, o resultado da colaboração entre os três.

A produção, que teve uma pré-estreia no Music Video Festival (evento para o qual Estada veio ao Brasil), realizado no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, chega aos cinemas no próximo dia 4. Não se trata de um filme sobre rappers, nem sobre músicos ou a indústria da música em si. “Ponto Cego” é a história de dois amigos de classe baixa enfrentando situações corriqueiras de injustiça envolvendo o racismo sistêmico da polícia e da sociedade norte-americana. A dinâmica e a linguagem do rap, contudo, permeia todo o trabalho, já que a principal arma dos dois personagens principais, Collin (Diggs) e Miles (Casal), acaba sendo a palavra — ou melhor, a rima.

“Ponto Cego” é a primeira grande produção audiovisual dos três, e já está sendo bem recebido tanto pela crítica quanto pelo público nos festivais. Mas a colaboração não é nova. Carlos Estrada é mexicano e desde que começou a se envolver com cinema, quando se mudou para os Estados Unidos, é responsável pelos clipes do Clipping, incluindo “Work Work”, o mais famoso deles, lançado em 2014. “Cresci assistindo a videoclipes quando criança, então acho que, de muitas maneiras, essa foi a primeira aproximação que eu tive com o ofício de fazer vídeos e o trabalho criativo”, conta o diretor, que cresceu na Cidade do México ouvindo rock, mas desenvolveu uma paixão pelo hip-hop quando conheceu Diggs e Casal. “Além disso, amo música e também o formato de vídeos mais curtos”.

Mesmo antes de “Ponto Cego”, o currículo do diretor já era bastante recheado. Ele foi responsável pelos personagens com cabeça de animais no clipe de “Kangaroo Court”, do Capital Cities, que já coleciona quase 60 milhões de visualizações no YouTube. Também trabalhou com outras bandas indie, como o Passion Pit (em “Carried Away”) e o cantor folk Father John Misty (no recente e também criativo “Mr. Tillman”). O trabalho preferido dele, contudo, é a briga de espadas bizarra do vídeo de “Them Changes”, de Thundercat, com participações do produtor Flying Lotus e do saxofonista Kamasi Washington. “O Thundercat é muito legal de trabalhar”, revela. “Ele tem muitas ideias. Não sei se é o meu melhor videoclipe, mas talvez seja. Gosto muito dele”.

Para “Ponto Cego”, Estrada conta que foi influenciado por “vídeos da Bay Area, clipes old school de hip-hop e alguns filmes, como ‘Faça a Coisa Certa’”, clássico de 1989 dirigido por Spike Lee. “Mas não foi uma coisa específica, tentamos deixar a cidade nos inspirar ao máximo”, diz. “Passamos muito tempo lá e escolhemos os melhores ângulos para mostrar cada cena, cada pessoa”.

O diretor também contou com o ponto de vista e as habilidades de escrita de Diggs que, além de rapper no Clipping, já apareceu em algumas séries de TV, incluindo “Black-ish”, e teve um papel no musical multi-premiado “Hamilton” (2015), que o colocou sob os holofotes. “Todo mundo no filme tem alguma experiência com música, e todas bem diferentes, mas movidos pela música. E queríamos contar a história de uma maneira muito específica”, explica o mexicano. “Acho que a experiência deles como poetas e a minha experiência com videoclipes e curtas acabou moldando o que é o filme”.

Estrada enxerga a dinâmica de trabalhar com outros artistas como encontrar um ponto em comum entre as ideias dele e as dos músicos: “É algo que realmente força uma colaboração criativa”. “Gosto de trabalhar com eles, a maioria do meu tempo eu passo com músicos. Para mim, é muito interessante me envolver com eles e conhecê-los, adaptar o que eu quero fazer ao que eles querem fazer, a um universo já existente, de outro artista”, diz. No caso de “Ponto Cego”, mais do que uma convergência de ideias, a realização do filme é incrementada pela experiência pessoal dos principais envolvidos, já que muito da história se baseia nas vivências de Diggs e Casal – muito mais fáceis de serem compreendidas pelo mexicano, com quem eles já têm uma relação de anos, “em momentos bons e ruins”. “Não queríamos dramatizar demais nem de menos”, conta. “A cena de tiroteio, gostaríamos que não fosse um tiroteio comum, mas sim a visão daquela pessoa, naquele lugar, naquela hora”.

A partir de “Ponto Cego”, o nome de Estrada deve ser ainda mais frequente no meio musical, seja com filmes, curtas e ainda mais no universo dos videoclipes. Perguntado com quais artistas ele mais sonha em trabalhar, incluindo situações hipotéticas, o diretor escolheu três nomes: o grupo de hip-hop Outkast, a banda conterrânea dele Café Tacvba e, curiosamente, o cantor brasileiro Roberto Carlos. “Não conheço muito de música brasileira, mas tomara que encontre novos artistas por aqui”, brinca. Quem sabe a passagem de Estrada pelo Brasil não renda algum clipe para um artista nacional.

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