Djonga fala de Brasil, do que é ser ‘Ladrão’ e da pasteurização do rap
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Djonga fala de Brasil, do que é ser ‘Ladrão’ e da pasteurização do rap

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Março de 2019 e Djonga está de volta com um apetite por destruição. “Ladrão”, seu novo disco, abre com a faixa “Hat-trick”. O nome é adequado, referência a quando um jogador de futebol faz três gols numa partida só. E sim, esse é o terceiro gol de uma série iniciada em 2017 com “Heresia”, seguida ano passado por “O Menino que Queria Ser Deus”. Agora é a vez de o herege que queria ser Deus dar um novo significado à palavra “ladrão”. Num bate-papo classe A, o rapper mineiro mandou altas ideias sobre música, Brasil e a direção do rap nacional. 

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Antes de mais nada, peço para ele explicar um pouco sobre o título, de conotação forte para a comunidade negra: “‘Ladrão’ nasceu para entender um processo histórico. O meu povo nunca teve nada, mas várias pessoas, quando conseguem ter alguma coisa e chegam lá, se esquecem de onde vieram”, diz o MC, em entrevista ao Reverb. “Eu falei ‘não, eu tenho que fazer diferente’. Tenho que chegar lá e trazer as coisas de volta para a minha casa. Trazer de volta para os meus, para quem cresceu comigo, para quem me ensinou a fazer essa parada”, explica.

O disco é bastante contundente sobre agruras sociais e raciais — sem perder o humor ácido. E, quando se fala de História, o impacto da escravidão nos dias de hoje é incalculável na visão de Djonga. “Acho que tudo o que rola no Brasil no quesito político tem a ver com um processo histórico mais complicado. Começa na escravidão. Os efeitos dela nos trouxeram até aqui. Não tem como falar de nada do que rola no país no quesito social sem pensar no quanto a escravidão foi dolorosa. No final das contas, foi um período que prejudicou todo mundo, mas quem saiu mais fodido foram os negros que foram para as favelas e criaram comunidades para se defender, para se proteger, para viver, e que são os lugares mais pobres do nosso país”, explica. 

Para ele, é importante ser mais uma voz a levantar essas questões — e principalmente incentivar que outras pessoas façam o mesmo. “Estou mais preocupado em ser ouvido pelas pessoas e que meu trampo dê vontade a elas de falar. Acho que todo mundo está precisando falar bastante, pois estamos cheios de coisa no peito. Então, se meu trampo for ouvido e der vontade do cara falar, nem que seja para discordar de mim, já está bom. Porque quem não é ouvido, depois, infelizmente pega uma arma, entra numa escola e mata todo mundo. Pega uma arma, entra na boca e vai traficar. Sacou? As pessoas precisam ser ouvidas”.

Estou mais preocupado em ser ouvido pelas pessoas e que meu trampo dê vontade a elas de falar. Acho que todo mundo está precisando falar bastante, pois estamos cheios de coisa no peito. Porque quem não é ouvido, depois, infelizmente pega uma arma, entra numa escola e mata todo mundo. Pega uma arma, entra na boca e vai traficar. Sacou? As pessoas precisam ser ouvidas

Musicalmente falando, quem acompanha o trabalho de Djonga pode ouvir em “Ladrão” uma nova pegada nos microfones. Eu comento que o disco parece ter mais variações de flow e que ele abandonou um pouco o estilo gritado dos registros anteriores. Pergunto se isso foi de alguma forma uma resposta às críticas que recebeu.

“As variações de flow vieram um pouco das provocações que algumas pessoas fizeram no começo — porque, na real, acho que sempre variei bastante o flow, ligado? Mas como eu cantava gritando, falavam que eu usava sempre o mesmo. Eu decidi mudar duas coisas: fazer variação de voz e intensificar mais ainda as variações no flow, para a galera entender que eu sei fazer essa parada. Tipo aquele lance do Basquiat, que ele fala assim: ‘Acredite ou não, eu sei desenhar’. E os desenhos do Basquiat são aquela coisa, né?", justifica. "Acho que as críticas constroem nosso trabalho. Estou atento às positivas e às negativas também. Mas só quando acho que podem construir alguma coisa, e não são simplesmente coisa de nego invejoso…”.

Quando a gente entra no assunto da produção do disco e todo o processo criativo, uma das primeiras coisas que vale a pena destacar é como Djonga buscou uma sonoridade crua dentro do rap. Apesar de ter mudado sua forma de cantar e falar, ele resolveu não inventar muito na produção e nos arranjos. E ele vê uma motivação musical e política para isso:

“A gente passa por um momento cultural de apropriação, no sentido mais negativo da parada. Os hipsters, os hippies, os brancos de classe média e outras galeras… para curtir um rap, eles precisam que o rap tenha uma viola, saxofone, guitarra, sacou? Não pode sair do estilo deles”. Muito convicto, ele continua a elaborar como o rap pode se perder de si mesmo na intenção de atingir outros lugares e públicos. 

“Não critico os irmãos que fazem concessões. O que me incomoda é: por que não dá para curtir a nossa parada do jeito que ela é? Por que a gente, que sempre teve que mudar, tem que continuar mudando para agradar? Os boys têm que ouvir o rap pelo que o rap sempre foi. O tema do disco é esse: resgate. Roubar e trazer de volta”, explica, como um Robin Hood mineiro.

Assim, Djonga voltou ao básico. “Tentei trazer essa parada mais crua. Chamar no peito e falar ‘sou eu mesmo’. Essa é a intenção de os beats serem bem cruzão”, diz. Sobre o processo criativo, ele dá o caminho das pedras: “Sou bem objetivo. Gosto de pegar toda a carga emocional e jogar de uma vez. Um lance meio judô. Você está ali analisando o adversário e quando você pega, é para deitar logo. Eu fico o ano inteiro fazendo uns feats pontuais… Às vezes solto um single ou outro, mas essa nunca foi muito minha praia. Eu fico o ano inteiro pensando em qual vai ser o meu próximo passo. Então a gente faz tudo de uma vez. Vou ao estúdio todos os dias. Tem dia que é só pra fazer beat, tem dia que vou só para ouvir música, tem dia que vou no estúdio só para encher o saco do Tiago, nosso engenheiro de áudio. Mas o lance é estar lá sempre, participar da construção. Estar presente em tudo faz bater mais inspiração para continuar. É difícil desligar do trabalho porque talvez seja mais que um trabalho”, filosofa. 

A gente fica brincando que BH é foda, a capital do rap, mas não é só no rap, não. É na arte, na cultura de um modo geral. Acho que o Brasil deve muito culturalmente para Minas Gerais e não sei se as pessoas sabem disso

Essa é a mesma abordagem que Djonga usa em seus videoclipes. “Eu gosto de fazer o roteiro, fazer a direção, ajudar na produção, estar presente em todo o processo. Não é só ir lá na frente das câmeras, apesar de gostar muito de atuar. Então não é em qualquer ‘tempinho’ que dá para fazer um clipe legal. Tem que dar uma focada. E olha que eu sou um camarada que faz tudo na correria — ó as contradições da vida”. 

Pergunto um pouco sobre a concepção de “Leal”, uma love song que é um dos hits do disco.

“‘Leal’ é hit, né? Acho que escrevi pensando num refrão que ficasse na cabeça das pessoas mesmo. Eu gosto de hit. De todos os estilos. A capacidade de sintetizar uma ideia na cabeça das pessoas com poucas palavras ou uma melodia bacana… Isso é memorável”.

Hora de a gente bater um papo sobre os feats do disco. Foram poucos mas fundamentais: Doug Now, Chris MC, MC Kaio e Filipe Ret são algumas das participações. “Acho que um disco é uma oportunidade boa de mostrar o máximo de você. E eu dou muito esse máximo de mim em todos os trampos. Os feats surgiram do momento mesmo”. Um dos destaques é a banda mineira Rosa Neon, que colabora com ele ao longo do álbum: “Rosa Neon faz quase todas as vozes do disco comigo. É a banda que eu empresario, é uma galera que entende muito de música. Sou fã incondicional, inclusive acho que é uma das melhores coisas que tá acontecendo no momento”, elogia.

Não por coincidência, o único artista de fora de Minas Gerais é Filipe Ret: “Tem uma coisa em comum no Rosa Neon, no Kaio, no Chris e Doug Now: todo são de Belo Horizonte. Eu prezo muito por isso: mostrar o máximo de coisas que rolam aqui na cidade para o mundo. Sempre. A gente fica brincando que BH é foda, a capital do rap, mas não é só no rap, não. É na arte, na cultura de um modo geral. Acho que o Brasil deve muito culturalmente para Minas Gerais e não sei se as pessoas sabem disso. Então em todos os trampos eu prezo por ter sempre mais pessoas de BH do que de fora”, justifica.

Djonga é uma realidade que já está sentada entre os grandes arquitetos do rap. Isso mexe pouco com ele: “Tem que manter o pé no chão. Eu não vou me iludir e achar que o jogo já está ganho, porque não está. Tem que trabalhar demais ainda. Pelo menos é o que meu pai me fala”.

E depois de um hat-trick louvável, digno de Messi em dia de resolver jogo no Camp Nou, Djonga se pega surpreso quando perguntado sobre o que planeja para os próximos cinco anos:

“Eu quero estar com a minha casa própria paga. Quero ver o Jorge (seu filho) estudando num local bacana. Ele vai estar com 7 anos, então vai ter já uma ‘conscienciazinha’ das coisas, já vai dar para entender mais ou menos qual é o caráter do mano. Espero que ele tenha se formado um moleque da hora. Quero estar com a pessoa que amo. Enfim, quero ajudar, deixar minha família bem, pagar umas dívidas que minha tia tem, que meu pai tem, sabe? E no quesito arte, não sei. Mesmo”.

Seja lá que truque ele tirar da cartola, os amantes do real hip-hop vão estar lá para ver.

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