Doc celebra Rádio Fluminense, pioneira em locução 100% feminina e com papel histórico no rock brasileiro
Entretenimento

Doc celebra Rádio Fluminense, pioneira em locução 100% feminina e com papel histórico no rock brasileiro

A Fluminense FM, que marcou época ao revolucionar a linguagem radiofônica e foi responsável pelo lançamento de várias bandas de rock da década de 1980, é tema do documentário "A Maldita", que chega 25 anos após ela ter se calado no dial 94,9MHz. A diretora Tetê Mattos diz que a ideia de fazer o filme surgiu quando ela viu numa livraria "A Onda Maldita", livro de Luiz Antonio Mello, um dos criadores da rádio. "Entendi que era uma história muito potente de Niterói. O documentário não é baseado no livro, mas ele serviu como uma grande fonte de pesquisa", explica Tetê.

Luiz Antonio Mello, um dos fundadores da "Maldita". Divulgação
Luiz Antonio Mello, um dos fundadores da "Maldita". Divulgação

A Fluminense FM foi inaugurada em 1972, em Niterói. Na primeira década transmitiu corridas e, em meados de 1981, começou a ser reformulada, com uma equipe formada por Amaury Santos, Sérgio Vasconcellos e Luiz Antonio Mello. No dia 1º de março de 1982, a nova Fluminense FM entrou no ar, no dial 94.9 MHz, com locução 100 % feminina — a primeira voz no ar foi a de Selma Boiron. "A Fluminense foi pioneira em priorizar locutoras, claro que o filme não poderia deixar de falar disso. Como realizadora, me interessei muito por isso e fiz questão de dedicar um bloco para elas e colocar uma mulher como narradora. Entrevistamos quatro locutoras, que também aparecem ao longo do filme em áudios e depoimentos", ressalta Tetê.

A locutora Selma Boiron. Divulgação
A locutora Selma Boiron. Divulgação

Nascida em Niterói, a diretora tinha 16 anos quando a rádio entrou no ar. "Ela fazia parte do universo cultural dos jovens de classe média dos anos 80. Ela não tinha apenas o papel de transmissora de música, entrava em todo o universo cultural, era independente e ousada num momento de abertura política, em que os jovens queriam esse espaço participativo", analisa.

O longa é um desdobramento de um curta de mesmo nome lançado por Tetê em 2007, levou seis anos para ficar pronto. "Mas era um projeto que vinha namorando desde o início dos anos 2000... Quando se leva tanto tempo pra fazer um filme, as narrativas vão mudando. Uma das dificuldades é que, por vivermos num país sem políticas de preservação da memória, é sempre muito difícil conseguir material de arquivo, o que é fundamental para um documentário como esse", destaca a diretora.

Outra questão complexa foi a do licenciamento das imagens e músicas: "Não existem regras e os valores são muito altos, principalmente as músicas editoradas em majors. Mas quando fiz o projeto, já sabia disso e não fui surpreendida", afirma.

"A Maldita", uma parceria com o Canal Brasil que está na programação do Festival do Rio, tem entrevistas com Amaury Santos, Luiz Antonio Mello, Milena Ciribelli, Monika Venerabille, Selma Boiron, Sergio Vasconcellos entre outros. O filme mostra como a rádio trazia as novidades internacionais para os ouvintes — nos anos 1980 era muito difícil as bandas chegarem ao Brasil — e abria espaço para bandas brasileiras, não só de rock, mas também da vanguarda paulista e vários outros músicos independentes.

A imensa maioria das bandas do rock nacional daquela geração deve muito à Fluminense. Em março de 1982, um ouvinte chegou ao estúdio com uma fita cassete gravada no Circo Voador, ainda no Arpoador, de uma iniciante Blitz: "Você Não Soube Me Amar" entrou para a programação. O primeiro single do Biquíni Cavadão, “Tédio”, foi lançado na rádio em 1984. E Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude, Kid Abelha...todas certamente têm ótimas histórias com a rádio de Niterói.

O documentário não pretende contar a história da rádio de forma linear, cronológica. "Demos um outro olhar, sãoos ouvintes que conduzem a narrativa. Falamos, claro, das vinhetas criativas, da mudança da linguagem e da irreverência que quebra o formato padronizado da época. Mas nossa estratégia principal foi trabalhar com as cartas dos ouvintes, sem preocupação com o factual. Esperamos que o público rememore um pouco do que foi esse universo tão inovador para a época e tão marcante até hoje", diz Tetê.

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest