Elza Soares, ícone de luta do feminismo negro
Especial

Elza Soares, ícone de luta do feminismo negro

Alguns discos parecem capazes de capturar o espírito da época em que foram feitos. É o famoso zeitgeist - e esse é sem dúvida o caso de “A Mulher do Fim do Mundo”, 32º álbum de Elza Soares. Lançado em outubro de 2015, em uma época em que o disco já não parecia capaz de provocar o inconsciente coletivo e incendiar os sentimentos e sentidos do ouvinte, “A Mulher do Fim do Mundo” significou mais do que uma retomada na carreira de uma das maiores cantoras do Brasil: era como se subitamente Elza Soares deixasse por instantes o olimpo das artistas consagradas para voltar a ser como uma nova cantora, lançando o mais excitante e interessante disco do país. Misturando samba, rock, rap e música eletrônica com sua força e originalidade inalcançável, Elza se afirmava ao mesmo tempo como uma rainha e uma jovem artista capaz de justamente significar seu tempo – com um detalhe determinante: Elza tinha 78 anos na época.

Para além da sonoridade, o que realmente fez de “A Mulher…” um símbolo dessa época atual foram os temas tratados nas canções. Isso combinado com a visceralidade que tanto caracteriza o canto de Elza, como se colocasse o corpo como arma para sua luta através do canto. O disco fala de machismo, violência doméstica, transexualidade, racismo e a vida nos centros urbanos com a franqueza não de quem analisa, mas sim de quem vive e, assim, se posiciona. Em 11 faixas, Elza oferece sua própria opinião em cada inflexão e modulação vocal, em cada verso ou detalhe de arranjo. Essa obra foi criada como, de certa forma, tudo foi na carreira e na vida (é possível separar uma coisa da outra nesse caso?) de Elza: como um grito de liberdade contra as injustiças.

Se Elza é a mulher do fim do mundo, ela é também a mulher do começo de um novo mundo

Se Elza é a mulher do fim do mundo, ela é também a mulher do começo de um novo mundo – de uma nova “normalidade”, radicalmente mais igualitária e menos machista ou sexista, que precisa ser instaurada com a urgência absoluta de um incêndio social na velocidade de uma canção. Além de perceber, traduzir e amplificar os tantos discursos feministas que tomam conta hoje dos debates e denúncias por todo o mundo, Elza é também ela própria, em sua vida, resistência e história, a própria encarnação do que se definiu como empoderamento feminino. Nascida na miséria, forçada a se casar aos 12 anos, tendo virado mãe aos 13, aos 21 anos Elza já era viúva e tinha enterrado dois filhos. Antes de se tornar, portanto, a “cantora do milênio”, como viria a ser reconhecida pela BBC, ela precisou sobreviver – e sua música, feliz ou triste, parece soar sempre como o canto de tal sobrevivência.

A história de superação de Elza começa desde sua primeira aparição pública, no já mitológico relato sobre como apareceu maltrapilha no programa de calouros do Ary Barroso. Ela subiu ao palco para cantar vestindo roupas de sua mãe, muito maiores do que seu número (numa triste e simbólica combinação entre não possuir vestimenta adequada e sua própria magreza famélica, pesando menos que 40 quilos), em 1953. Quando Ary a viu, perguntou a ela de que planeta vinha, a qual ela respondeu sem demora: “do planeta fome”. Em seguida, levou o lendário apresentador e compositor às lágrimas ao cantar o clássico “Lama, de Paulo Marques e Alice Chaves. Elza recebeu a nota máxima, e uma precisa e preciosa profecia de Ary, que ao fim da canção, arrematou o destino: “Senhoras e senhores, neste exato momento acaba de nascer uma estrela”, ele disse.

Pois de forma alguma a trajetória de Elza é somente pautada pela superação das adversidades que marcaram sua vida (como marcam até hoje a vida de tantas brasileiras, pobres e negras) ou pelo detalhe de ter sido casada com Mané Garrincha. Elza é, antes, durante e acima de tudo uma cantora imensa. Para além de digressões sobre técnica, afinação ou alcance vocal (que, em tudo, Elza é inalcançável) a verdade é que, como artista, ela é dona de um estilo ao mesmo tempo profundamente brasileiro e singularmente internacional, sendo talvez a mais nacional e mais jazzística de nossas cantoras. Uma cantora à altura de alguém como Ella Fitzgerald, mas sem jamais ter precisado emular estilo algum.

Elza é portanto artista em seu sentido mais profundo, capaz de denunciar a dureza da realidade e melhorá-la com sua denúncia. De fazer sorrir e chorar com um gesto revelador, inédito e profundamente reconhecível sobre o que de fato é a vida e, ao mesmo tempo, de como a vida pode e deve ser, sem jamais deixar de nos lembrar que é uma mulher, de origem pobre, e negra quem está cantando.

E se tal força, tal importância, tal aura e sentido, vindos de uma cantora popular parece algo impossível hoje, como parte de um passado áureo que não existe mais, o convite para uma audição de “A Mulher do Fim do Mundo” é urgente, mas não somente: aos 81 anos, Elza Soares acaba de lançar mais um grande disco. A começar pelo título, “Deus é Mulher, lançado em maio desse ano, não se intimida em confrontar de forma contundente temas urgentes e fundamentais hoje como religião, sexualidade, violência, política e, é claro, a afirmação e as dores do feminino. Provocadora, urgente, bela, feroz e, ainda assim, lírica e comovente, Elza Soares paira além do tempo, como a artista que soube como poucos lidar com a dor, o sofrimento, a morte e as curvas da vida de uma mulher negra para transformar tais sentimentos em arte em seu sentido mais forte e potente.

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