Elza Soares: 'Porra! Sou personagem de mim mesma. Vou ser personagem de quem?!'
Rock in Rio 2019

Elza Soares: 'Porra! Sou personagem de mim mesma. Vou ser personagem de quem?!'

Por Bárbara Martins, Pedro Só e Verônica Raner

, coragem e valentia. Acho que foi o que Deus me deu”, direto ao ponto quando perguntada sobre o que a move em seu trabalho ainda hoje, aos 82 anos (embora Elza se defina como atemporal). Discussões sobre sua idade são desnecessárias. Ela é maior que o tempo. Após quase sete décadas de carreira, a cantora não se vê como nada além dela mesma. Melhor assim, sem autodefinições pomposas. A voz impressionantemente firme, tanto na emissão quanto no texto que escolhe para cantar, deixa claro porque a Mocidade Independente de Padre Miguel — bairro onde nasceu, na zona oeste do Rio de Janeiro — escolheu homenageá-la no carnaval de 2020 com um enredo batizado assim: Elza Deusa Soares.

"Acredito muito no que faço, tenho muita fé em mim. Eu vou encarnar eu mesma (no desfile). Não sei se eu posso encarnar outra pessoa em mim, mas o que eu sou é isso aí. Está encarnada a Elza”, elabora. Ao ser lembrada de críticas sobre os últimos trabalhos que a acusam de ter virado um personagem a serviço de vozes alheias, ela reage: “Desculpa falar um palavrão: porra, eu sou personagem de mim mesma, vou ser personagem de quem?”.

Elza Soares se apresenta no evento teste do Rock in Rio 2019 / Foto: Marcos Hermes / Reverb
Elza Soares se apresenta no evento teste do Rock in Rio 2019 / Foto: Marcos Hermes / Reverb

A assertividade é característica de quem batalhou muito ao longo da vida e não aceita que sua luta seja diminuída de qualquer forma. Cria do subúrbio carioca, Elza veio do “Planeta Fome”, como disse a Ary Barroso (1903-1964) quando ela fez sua primeira tentativa de cantar no rádio, no programa “Calouros em Desfile”, em 1953. O compositor e apresentador a ironizou por causa da magreza e do vestido cheio de alfinetes, usados para adaptar a peça que pertencia à mãe da cantora e pesava quase o dobro que Elza. Diante dos risos da plateia, Ary a provocou: “Me diz uma coisa: de que planeta você veio?”. Elza: “Do mesmo planeta seu, Seu Ary”. Ele perguntou: “E qual é o meu planeta?”. “Planeta Fome!”, respondeu, desconcertante.

Data do show no Rock in Rio coincide com um ano da morte de sua maior inspiração

Ainda adolescente, Elza soube se impor em tempos de sarrafo alto na música brasileira, buscando em artistas do rádio a inspiração para cantar. "Tive muita coragem de querer cantar que nem Ângela Maria (1929-2018), Dalva de Oliveira (1917-1972). Porque é uma pretensão muito grande cantar feito a Dalva, porque Dalva de Oliveira é a do vozeirão lindo e maravilhoso, mas eu vi a Ângela e falei: 'se ela pode, eu também posso'", lembra, recordando as duas grandes damas da canção. Por coincidência, a morte de Ângela completa um ano exatamente no dia em que Elza se apresenta no Palco Sunset.

Não precisa ser negra. Negras, brancas, amarelas… Eu me inspiro nas mulheres

Consciente da história de sua ancestralidade, Elza mudou, recentemente, a letra da música "A Carne", lançada em 2002. No verso "a carne mais barata do mercado é a carne negra", ela alterou a desinência verbal da frase.

"Foi a mais barata, hoje não é mais. 'A (carne) que não valia nada, hoje vale uma tonelada', né? Eu mudei no musical ("Elza — O Musical", com direção de Duda Maia). Chega de massacre contra a carne negra. Porque a carne negra é a maioria, tá bom?", se orgulha.

“Eu me inspiro em todas as mulheres, não precisa ser negra não. As negras porque a coisa é mais difícil, mas eu me inspiro nas mulheres: (sejam) negras, brancas, amarelas — azuis eu não sei se ainda tem —, mas eu me inspiro nas mulheres.”

Na prévia do show que vai apresentar no Rock in Rio 2019, ela cantou com Jéssica Ellen, atriz e cantora de 27 anos. No dia de fato, vai receber no palco ainda o grupo As Bahias e a Cozinha Mineira e a cantora Kell Smith. Elza promete mostrar a força e o suingue que marcam sua história, mesmo em meio a problemas de saúde.

“O suingue é meu mesmo, viu? Não copiei ninguém com meu suingue, não. A suingada é minha. Me aguardem, por favor, porque a força continua, a vontade continua ainda viva, muito viva em mim." E ela não pensa em parar. “Por quê? Você gostaria disso? Então pronto, nem eu.”

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