Emicida abre espaço para muitas outras vozes em 'AmarElo': Fernanda Montenegro, Zeca Pagodinho, Wilson das Neves...
Inspiração

Emicida abre espaço para muitas outras vozes em 'AmarElo': Fernanda Montenegro, Zeca Pagodinho, Wilson das Neves...

Além do singelo recado literal da faixa introdutória "Silêncio", há detalhes sonoros de um capricho e cuidado singulares, característicos de Leandro Roque de Oliveira, em cada pedaço de "AmarElo". O novo álbum de Emicida, 34, é mais um passo do caminho que já vinha sendo traçado em "O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui" (2013) e "Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa..." (2015), onde o afeto e a doçura são grandes ferramentas para chamar o ouvinte à reflexão — ou simplesmente à tranquilidade. Em meio ao caos sociopolítico de 2019, o rapper nascido do freestyle e do amor pela literatura volta a representar ideais de ternura — também cultivados por nomes como Mano Brown, 49, e Criolo, 44 — junto a amigos de peso e fontes de admiração presentes nas letras e vocais do lançamento da última quarta-feira de outubro (30).

A atriz Fernanda Montenegro, 90, o pastor Henrique Vieira, 32, os mestres do samba Wilson das Neves (1936 - 2017) e Zeca Pagodinho, 60, e a "Diva do Carimbó Chamegado" Dona Onete, 80, são alguns dos convidados escolhidos por Emicida para entregar as mensagens de autoconsciência, amor próprio e fôlego-para-transformar-o-ruim-em-combustível de "AmarElo", terceiro álbum de estúdio do artista paulistano. O destaque e diferencial do trabalho do filho de Dona Jacira, contudo, fica em como essas intervenções sonoras se encaixam no conjunto da obra musical.

Emicida em apresentação do MTV Miaw 2019 / Foto: Getty Images
Emicida em apresentação do MTV Miaw 2019 / Foto: Getty Images

'PRINCIPIA' E O CANTO DE RESPEITO À FÉ

Com o "lá-ia, lá-ia, lá-ia" das Pastoras do Rosário — grupo de cantoras negras e sexagenárias dedicadas a exaltar as raízes africanas em suas canções —, a letra de "Principia" já abre o "AmarElo" com a gratidão à África lá da época de "Madagascar", música do álbum anterior. "Tudo, tudo, tudo que nós tem é nós" é seguido pelos versos de Fabiana Cozza, conhecida por cantar para homenagear a fé e a mitologia do continente mãe. Bem após o "tio, gente é pra ser gentil" (cantado por uma voz de criança aos dois minutos e quinze segundos), a composição termina com a fala afetuosa do pastor Henrique Vieira — cristão evangélico, quem recusa a intolerância religiosa e é favorável às demandas dos mais diversos setores minoritários.

MC THA EM 'A ORDEM NATURAL DAS COISAS' E DRIK BARBOSA EM '9NHA'

A voz doce da paulista Mc Tha — combinadora de funk e MPB — e as linhas potentes, melódicas e de duplo sentido de Drik Barbosa — amiga de longa data de Leandro e das batalhas de rima — parecem se encaixar bem ao desejo de Emicida de também trazer leveza ao rap nacional. Como ele mesmo diz (e disse, em entrevista à TV Cultura, em 2011, sobre a romântica "Ela Diz", de 2009), o desafio de unir suavidade às punchlines anda lado a lado à suas criações artísticas. Em "A Ordem Natural das Coisas" e "9nha", essa vontade se transformou mais uma vez em som.

Rapper se apresentou no Rock in Rio 2019 / Foto: Getty Images
Rapper se apresentou no Rock in Rio 2019 / Foto: Getty Images

ÁUDIO DE THIAGO VENTURA EM 'PEQUENAS ALEGRIAS DA VIDA ADULTA'

Todo mundo tem aquele amigo engraçado sempre pronto para melhorar o dia com alguma história hilária, certo? Pois é, o comediante paulista Thiago Ventura deve ser essa pessoa na vida de Emicida. Ele ganhou um trechinho especial no novo álbum do artista, logo ao fim de "Pequenas Alegrias da Vida Adulta". Quase um áudio enviado por WhatsApp, o causo rende boas risadas.

'QUEM TEM UM AMIGO (TEM TUDO)': SAMBA, ZECA, WILSON E... SKA JAPONÊS!

Não é novidade o carinho de Emicida pelo samba e pelos grandes mestres do gênero. Então, nada melhor que unir o tema "amizade" à composição conjunta com Wilson das Neves — importante cantor e instrumentista carioca, morto enquanto lutava contra o câncer, em 2017 — aliada à interpretação de Zeca Pagodinho — um dos sambistas mais renomados e queridos da história brasileira. E tem mais um detalhe: sabe os metais da faixa? São da Tokyo Ska Paradise Orchestra, banda japonesa de ska e jazz. Bela combinação, né?

DIÁLOGO ENTRE PAI E FILHA EM 'CANANÉIA, IGUAPE E ILHA COMPRIDA'

“Será que o Brown passa por isso? Ou o Djonga? Ou o Rael? (risos)”. Teresa é a filha caçula de Leandro, nascida em junho de 2018, e já apareceu dando risadas e interagindo com o pai no início da sexta faixa de "AmarElo". Voz da dublagem brasileira do personagem Ekko, do jogo League of Legends (LoL), Emicida faz a pequena rir ao brincar sobre a necessidade de ser um rapper “mau”, mas, na verdade, sendo o oposto.
E, ainda em "Cananéia, Iguape e Ilha Comprida", perto dos quatro minutos e meio de música, o alento da voz infantil (seria de Estela, a filha mais velha de Leandro?) toma conta da composição no trecho "a gente pode pôr flores amarelas no cabelo das meninas... e no dos meninos também!".

'AmarElo' é o terceiro álbum de estúdio de Emicida / Foto: Getty Images
'AmarElo' é o terceiro álbum de estúdio de Emicida / Foto: Getty Images

'ISMÁLIA', O POEMA SIMBOLISTA DO SÉCULO XIX

Em analogia ao clássico poema do escritor simbolista Alphonsus de Guimaraens (1870 - 1921), Emicida batizou a oitava canção do álbum com o mesmo nome da obra do século XIX. Em desabafo sobre a frustração de ainda conviver com as consequências do racismo estrutural em 2019, Leandro usa a história de Ismália — a moça que, em meio à loucura, sobe ao alto de uma torre, confunde a lua do céu com o reflexo da lua no mar e se joga na intenção de tocá-la — para mostrar o quanto os avanços de qualidade de vida conquistados pela população negra não significam o suficiente se, no final, "a cor importa demais".
Para trazer a sensibilidade demandada pela música, a voz inspirada pelo afrofuturismo da cantora Larissa Luz, 32, conversa com a interpretação inconfundível da atriz Fernanda Montenegro (que recita a íntegra do poema na faixa) e transmite o pesar e o cansaço por trás da mensagem.

ENCONTROS EM ‘EMINÊNCIA PARDA’ E ‘LIBRE’

Em "Eminência Parda", o carimbó da paraense Dona Onete, o R&B/trap do paulista Jé Santiago e o rap do português Papillon parecem cantar em prol do mesmo objetivo: mostrar que barreiras entre diferentes abordagens artísticas não têm por que existir. O mesmo acontece em "Libre", com o duo franco-cubano de irmãs Ibeyi — atração do Palco Sunset do Rock in Rio 2019 ao lado de Emicida. E, em meio a todos esses encontros, Leandro se apresenta, mais uma vez, como um verdadeiro anfitrião.

‘AMARELO’: AUTOCUIDADO E O ÓDIO A SERVIÇO DO AMOR

"Sujeito de Sorte" não é só um clássico de Belchior (1946 - 2017); é um mantra para repetir para si mesmo, por meio da música, de que vai ficar tudo bem. Emicida sentiu isso e utilizou samples da composição do cantor cearense para comunicar esperança, resiliência, orgulho e amor pela caminhada em "AmarElo". Faixa-título do álbum, a canção traz nuances importantes como o sutil "eu preciso cuidar de mim" (em um minuto e quarenta e sete) e o verso certeiro "'Hoje Cedo' não era um hit, era um pedido de socorro".
Junto às presenças imponentes das cantoras Majur, 23, e Pabllo Vittar, 25, a forma como o compositor guia o ouvinte para a percepção de transformar em combustível sentimentos de ódio, frustração e tristeza, por meio do amor, é o grande ponto-chave do projeto batizado com o nome de uma cor extremamente alegre e vibrante.

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