Emicida defende ideais e enriquece a discussão ao falar de vulnerabilidade: 'A ideia do cara forte e que não chora já não me interessa mais'
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Emicida defende ideais e enriquece a discussão ao falar de vulnerabilidade: 'A ideia do cara forte e que não chora já não me interessa mais'

Emicida, rapper paulista de 34 anos, é um nome fundamental do movimento negro no Brasil. Nascido em uma família pobre e matriarcal, ele se interessava por HQs e começou sua carreira no hip-hop nas batalhas de rima, vendendo CDs nas ruas, trilhando seu caminho de forma independente e sempre com um lema: "Você é o único representante do seu sonho na face da terra. Se isso não fizer você correr, chapa, eu não sei o que vai" (trecho de "Levanta e Anda").

Hoje, é dono de sua própria e bem-sucedida gravadora, a Laboratório Fantasma — que lançou discos de Drika Barbosa, Rael, Criolo, Coruja BC1 e Fióti —, construiu uma trajetória de álbuns solo cada vez mais relevantes — o mais recente é "AmarElo" —, e toca projetos paralelos à música, como lançamento de livros, participações em programas de TV, entre outros.

Em entrevista recente ao "Nexo", Leandro Roque de Oliveira, o nome de batismo de Emicida, falou de saúde mental e outros temas de seu novo disco. Na Semanda da Consciência Negra, é mais do que necessário seu discurso centrado em amor e empatia, armas que considera revolucionárias. "A ideia do cara forte, que não chora, intransponível, do coração inalcançável, já não me interessa mais", disse ele sobre a figura estereotipada do rapper e, principalmente, do homem negro, que não têm espaço para serem vulneráveis. "Não foi nesse lugar onde encontrei a humanidade. Isso aí é uma camuflagem, uma casca que protege muitas fraquezas."

Quando o assunto é depressão e saúde mental, Emicida garantiu que não tinha uma relação bacana com os dois temas, pois considerava sua interpretação do assunto como algo "desrespeitoso". "As pessoas que me cercaram a vida inteira, por mais que elas também sofram de depressão, também tinham uma relação muito desrespeitosa com esse tipo de patologia. Elas interpretaram isso como uma frescura, e eu cresci pensando o mesmo", declarou. "Por isso acredito que o ser humano precisa ter liberdade de se mostrar vulnerável."

E "AmarElo", seu novo projeto de estúdio, é basicamente sobre isso. "O projeto inteiro fala sobre maturidade, do ponto de vista espiritual e humano", definiu Emicida, um rapper, que "chora, diferente do padrão". "Ser humano é um direito que não temos até hoje. Só ganhei esse direito quando comecei a ser reconhecido pelo meu trabalho, e adquiri o papel de 'sobre-humano'. Por isso, falo sobre vulnerabilidade em 'AmarElo'."

O que motivou Emicida a olhar para sua vulnerabilidade como nunca antes foi o nascimento de suas duas filhas, Estela e Teresa.

"Minhas filhas me deram outra leitura a respeito do que é afeto. Me fizeram descobrir em mim uma pessoa que gosto muito. Porque se você volta para antes da Stela nascer, eu estava tocando o foda-se para o mundo. Elas me deram uma relação com afetividade que eu desconhecia. E aí eu me pergunto: 'Como eu coloco aquilo dentro da minha música?'", avaliou o rapper, que não considera sua trajetória musical como uma carreira, nem se sente contemplado pelo substantivo "causa". Sua música, na verdade, é sua vida.

"Quando estou perto das minhas filhas, acredito que o mundo pode ser melhor. Porque elas são melhores que o mundo nesse momento. E com o meu trabalho, eu estou tentando deixar o mundo no nível das crianças."

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