Vida Dupla: Erasmo Barros Júnior é neurocirurgião e músico
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Vida Dupla: Erasmo Barros Júnior é neurocirurgião e músico

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Você imaginaria que um dos bons discos de rock nacional em 2018 vem das mãos de dois neurocirurgiões, uma terapeuta ocupacional e um arquiteto? Pois é. “Acta Obscura”, álbum lançado este ano pelos curitibanos da This Lonely Crowd é exatamente isso. O sexto álbum da banda, que existe desde 2009, cai fácil no gosto de quem ama nomes como Mogwai, Smashing Pumpkins, Sigur Rós, Slowdive, Ride, ou então curte o universo ficcional criado por mentes como a de Neil Gaiman, Jorge Luis Borges e Lewis Carroll. Essa mistura de sons é feita por um time de pessoas que se ocupa de música na menor parte de seu tempo. 

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Entre os integrantes, que se identificam por codinomes como Hurleburlebutz, Bonijov,  Trushbeard e Rainha Branca, está Erasmo Barros Júnior, guitarrista/neurocirurgião, que afirma dedicar 85% do seu tempo à profissão convencional, destinando o pouco que sobra para a música. Acha estranho que a combinação dê bons resultados? A funcionalidade desse arranjo maluco entre cirurgias, ensaios, estudos e gravações é a história da vida dele.

Sempre foi claro para mim que eu seria médico e que a música complementaria minha vida como uma ocupação possivelmente tão importante quanto, mas de outras formas

Dá para dizer que música e medicina surgiram quase na mesma época para o jovem Erasmo. A música chegou através do rock, especialmente por trilhas sonoras de filmes como “Labirinto”, “Highlander”, “Goonies”. “Eu achava aquilo fantástico e, indo mais além, acabava me envolvendo com as músicas e com as bandas”, conta o neurocirurgião, que começou a estudar guitarra aos 12 anos. 

Um ano depois, foi a vez de a medicina se firmar como meta profissional. Desde cedo, Erasmo sabia que queria ser neurocirurgião — igual a seu pai, que chegou a dar aula para ele na faculdade. “Eu achava uma especialidade de complexidade fascinante, de uma beleza muito singular”, diz o guitarrista, que mesmo assim não põe na conta da família qualquer pressão pela escolha profissional, em entrevista ao Reverb. “Sempre foi claro para mim que eu seria médico e que a música complementaria minha vida como uma ocupação possivelmente tão importante quanto, mas de outras formas”.

Apesar de ter passado um período mais afastado da guitarra — especialmente por conta dos estudos na faculdade e a residência médica —, o caminho entre os dois universos sempre foi paralelo para Erasmo. Seu registro de músico na Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus) e seu título de neurocirurgião pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia têm a mesma idade: ambos foram tirados há dez anos.”Podemos dizer que 'me formei' oficialmente nas duas coisas na mesma época…”. 

Hoje em dia, mesmo com ele explicando, é difícil entender onde o espaço para a música aparece em uma rotina tão pesada. Durante a semana, seus dias começam sempre às 7h30 da manhã com reunião no hospital e cirurgias ao longo do dia, fora visitas aos pacientes, conversas com os residentes, exames para se ver e se discutir. Isso de segunda a sexta. Aos fins de semana, ele fica de sobreaviso, para o caso de aparecer uma emergência. “Requer um trabalho com uma junta médica em sintonia na maior parte do tempo”, diz. 

A música ganha vez quando ele está no carro. “Indo de casa ao trabalho, e vice-versa, escuto música, na maioria das vezes nossas últimas composições, pré-mixagens, para bolar ajustes e rever arranjos. Nos fins de semana, em períodos de gravação, gravamos o que dá. Muita coisa gravo em casa, com minha mulher (Adriana Gevaerd é a Rainha Branca, baixista da banda); outra parte gravo com o nosso baterista; e, em raras ocasiões, juntamos todo mundo. Daí tocamos o terror!”. 

O segredo, diz ele, é ser eficiente com o que tem disponível. “Consigo render bastante dessa forma, então uma hora de trabalho, seja tocando ou operando, rende muito”.

Com quase dez anos de história, nada indica que o pessoal da This Lonely Crowd planeje crescer a ponto de tirar Erasmo e os outros integrantes de suas profissões. Sim, eles já emplacaram até música em trilha sonora de filme brasileiro (“Amores Urbanos”, dirigido por Vera Egito) e sabemos que as possibilidades são infinitas. Vai que um dia surge a oportunidade de viver do próprio som? Nem adianta, Erasmo não pensa em abrir mão da medicina pela música. O contrário também está fora de cogitação.  

 A neurocirurgia me ensina a ser disciplinado, a ter autocontrole e a me desafiar. Isso ajuda na hora de compor, de ensaiar (...). Em contrapartida, a música me ensina a ser contemplativo e a ter mais paciência para assimilar as dificuldades em uma cirurgia

“Tenho convicção de que a medicina e a neurocirurgia são meu sustento e minha vocação. É um trabalho que me dá uma sensação de realização muito grande, desde a compaixão e a possibilidade de cuidar dos outros, até o desafio de operar alguém e de me empenhar em casos tão complicados. E a música me completa, pois eu tenho certeza que, sem esse meu lado B, eu não ia conseguir ter o lado A. Que nem um disco, tenho que ter os dois lados; e o lado A não vai ser melhor que o B!”, fala com firmeza. 

O comentário dá de encontro com as semelhanças e diferenças que ele encontra na conciliação das duas atividades. Em suas palavras, tanto música quanto medicina requerem dedicação, afinidade e vocação, e as diferenças acabam ajudando. “Prefiro acreditar que as dificuldades de uma são superáveis através de virtudes da outra. Por exemplo: a neurocirurgia me ensina o tempo inteiro a ser disciplinado, a ter autocontrole e a me desafiar. Isso ajuda muito na hora de compor, de ensaiar, de definir um setlist para um possível show e de organizar o tempo quando tenho muito pouco para me preparar. Em contrapartida, a música me ensina a ser contemplativo, a ter mais paciência para assimilar as dificuldades em uma cirurgia”.

No fim, a rotina que parece muito exaustiva e doida funciona, e está a cada dia melhor. “Eu tive o privilégio e a oportunidade de ter um trabalho muito sólido. Minha renda vem inteira da medicina e é ela que paga minhas contas. Inclusive é ela que financia boa parte do que eu fiz e faço como músico”, explica Erasmo, que deixa uma promessa no ar. Afinal, é muito difícil ver a This Lonely Crowd no palco, mas talvez isso mude logo. “Já já a gente arruma uma meia dúzia de shows pra bater a poeira”.

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