Ex-Gang do Eletro, Keila renasce em álbum inspirado pelo produtor Miranda após ficar à beira da morte
Inspiração

Ex-Gang do Eletro, Keila renasce em álbum inspirado pelo produtor Miranda após ficar à beira da morte

Por Kamille Viola

Ela ficou conhecida como a vocalista da Gang do Eletro, destaque do tecnobrega paraense que a apresentou para o Brasil e o mundo. No ano passado, Keila anunciou sua saída do grupo, e passou a se dedicar à carreira solo. Agora, lança seu primeiro álbum, “Malaka”, com produção musical do baiano Felipe Pomar, e direção musical e artística dela própria. No trabalho, que tem dez faixas, ela mistura o tecnobrega a ritmos periféricos como o hip-hop, o funk carioca, o batidão romântico do Nordeste e o trap. Viviane Batidão, do Pará, e TrapFunk&Alívio, da Bahia, são duas das participações do disco. A artista surge literalmente renascida.

Já fazia um tempo que Keila queria alçar novos voos musicais. Ela havia soltado o EP que leva seu nome em maio de 2017. Mas, até então, sua empreitada sozinha era um projeto paralelo. A coragem para se dedicar exclusivamente a ela veio depois que a cantora quase morreu. Em outubro daquele ano, ela sentiu uma dor de dente. Teve que tomar antibiótico e precisava extrair o dente na semana seguinte. Só que ela estava morando no Rio e tinha shows a cumprir em Belém, durante o Círio de Nazaré.

Após quase morrer, Keila se reinventa no álbum 'Malaka' / Foto: Divulgação
Após quase morrer, Keila se reinventa no álbum 'Malaka' / Foto: Divulgação

Na capital paraense, na manhã seguinte à sua chegada, sentiu dor. Tomou um analgésico e foi para a gravação de um programa de TV. Quando terminou, a dor tinha aumentado. Procurou um dentista, que diagnosticou a inflamação, prestes a infeccionar. Como a dor era muita, ele sugeriu que a cirurgia fosse feita mesmo assim. No entanto, dois dias depois, a cantora estava com um abscesso enorme em seu rosto: a bactéria que estava no dente tinha se espalhado pela sua corrente sanguínea.

Eu já não tinha força nem para levantar um braço. Meu organismo já estava meio derrotado. Eu estava caminhando para a morte.

“Eu já estava tão mal que não tinha condições de ir para um pronto-socorro para aguardar. Se fosse ter contato com um pronto-socorro, poderia acabar pegando também uma infecção hospitalar”, lembra ela. “Fiquei um dia na UPA esperando pelo leito. Tomei antibiótico intravenoso, só que não adiantou mais muita coisa, a bactéria já estava resistente, até porque eu já tinha feito tratamento anterior com antibiótico. A Alexia (a mais nova de seus dois filhos) foi tirada do peito à força, não podia mais mamar. E eu delirando de febre. No outro dia, quando a ambulância foi me buscar, eu já não estava mais andando, não respirava mais sozinha, só com aparelho. Foi muito rápido. Eu já não tinha força nem para levantar um braço. Meu organismo já estava meio derrotado. Eu estava caminhando para a morte, já estava com sepse. Foi um terror”, diz.

Ela conta que sua entubação para a cirurgia — para drenar o abscesso em seu pescoço — foi complicada, pois duas amígdalas e a língua haviam inchado muito. Os médicos tomaram todo o cuidado para não prejudicar suas cordas vocais: poderiam fazer traqueostomia, mas insistiram na entubação. “Eu já nem pensava mais em questão de cantar, só queria sobreviver. E ficava fazendo piada. As pessoas achavam que eu estava delirando, porque eu dizia: ‘Não acredito que eu vou morrer com 27 anos, a idade em que todos os ícones da música morrem (risos).’ Aí todo mundo ficava: ‘Para com isso, sua louca.’ É coisa de sagitariano mesmo, a gente faz piada de tudo”, diverte-se Keila, hoje com 29.

No total, foram três semanas internada, em pleno Círio. “Fiquei entubada durante um dia, mais ou menos, na UTI, depois voltei para a enfermaria, onde todo mundo morreu e só eu fiquei. É um hospital do qual todo mundo tem medo, porque as pessoas já chegam lá muito mal e muitas vezes não conseguem sobreviver. A estrutura tem problemas, mas os médicos são incríveis, maravilhosos. Se não fosse a dedicação deles, eu não estaria aqui para contar essa história”, elogia ela.

Mas, para melhorar as defesas e ajudar na luta contra a bactéria, a equipe teve que fazer tratamento com corticoides. As pessoas que estavam acompanhando a artista avisaram que ela sofria de glaucoma e não poderia fazer uso dessas substâncias, mas a resposta foi: “'É o olho ou a vida.” “A consequência disso é que eu perdi a visão do olho direito. Só que eu convivo com isso muito bem, porque tenho problema de vista grave desde criança. Isso nunca foi motivo de impedimento para mim. Eu fiquei com essa sequela, mas estou viva. E cantando”, diz.

Ficar tão perto da morte foi uma experiência transformadora. Ela lembra que, muitas vezes, tinha a sensação de que não ia mais acordar. “A gente sai disso tudo muito mudada, vê o quanto problematiza as coisas, a vida, quando o real problema é quando a gente não tem saúde. Eu até me emociono ao falar sobre isso, porque foi muito difícil, mas também foi muito importante para eu crescer como pessoa. Inclusive nessa questão de que a Gang já era um projeto que para mim não estava mais dando tanto tesão quanto no início. E eu não conseguia me desvencilhar, não tinha maturidade para dizer: ‘Gente, não quero mais’”, reflete. Em fevereiro de 2018, Keila anunciou oficialmente que estava deixando o grupo.

No mês seguinte, no entanto, a cantora passou por outro drama: no dia 22 de março, morria o produtor Carlos Eduardo Miranda, principal incentivador da carreira solo da artista. “O Miranda me perturbou muito. Acho que a palavra ‘perturbar’ é bem real (risos). Porque não é que ele tenha falado assim: ‘Ah, tu tem que fazer carreira solo.’ Quando eu engravidei, fiquei um período parada. Acho que toda semana ele me mandava mensagem: ‘Cadê as músicas? O que tu tá fazendo? Não vai fazer carreira solo? Tu tem que se decidir. Cadê teu rumo, teu caminho?’”, recorda.

Keila usa cores vibrantes em ensaio fotográfico / Foto: Divulgação
Keila usa cores vibrantes em ensaio fotográfico / Foto: Divulgação

Com a saída da cantora da Gang do Eletro, eles tinham combinado de produzir o disco solo de Keila juntos. “Ele mandava para mim várias referências de como eu poderia conectar o tecnobrega com os outros ritmos. Eu saí da Gang oficialmente em fevereiro de 2018. A gente tinha batido um papo e, quando eu cheguei em São Paulo para cantar no Lolla, aconteceu, a gente recebeu a notícia. Eu estava com os meninos do Francisco, El Hombre, tinha sido convidada para fazer uma participação com eles (no festival). Foi um baque para mim, me senti sozinha. Falei: ‘Meu Deus, e agora, o que eu vou fazer?’”, diz.

As ideias que Miranda mostrou a ela foram importantes para a concepção de “Malaka”. “Aproveitei bastante as dicas dele. Ele me colocou no rumo, disse: ‘Acho que tu tem que fazer música sem restrição, levar o tecnobrega para um outro lugar, o que as pessoas geralmente não fazem. Tenho várias referências onde eu te vejo.’ Aí me mandou muitas coisas de cantoras da África, as coisas que surgem das periferias. Ele era um grande estudioso da cultura da periferia, ele estava por dentro de tudo”, elogia Keila.

O baiano Felipe Pomar produziu o álbum ao lado da artista. “É um cara da periferia que me respeita muito como artista, como mulher. É muito difícil encontrar produtores homens que não queiram te dizer como é que tu vai fazer, como é que tu vai conduzir algo. Isso foi uma mudança de comportamento da minha parte, influenciada também por ele — por conta da insegurança, de várias coisas que vieram à tona pelo fato de eu estar produzindo pela primeira vez um disco, e pela primeira vez fora do grupo. Várias coisas foram se embolando”, admite.

O nome do álbum, “Malaka”, é uma ironia com uma forma pejorativa de se chamar a mulher da periferia. “É uma coisa de afrontar mesmo o preconceito”, diz. “E também porque eu, pelo fato de fazer parte da Gang do Eletro e ter essa postura de uma menina de cabelo colorido, toda tatuada, que é dona de si, que não liga para certos padrões, certas coisas, principalmente na questão do palavreado, sempre ouvi muito: ‘Sua moleca doida, tu é muito malaca.’ Aí eu me decidi por esse nome, porque faz parte de mim. E também com a intenção de mudar o sentido dessa palavra, de levar a malaca para um lado mais cultural, uma questão de comportamento”, explica.

“Malaka” tem espaço para o amor (“Kente”), para as desilusões amorosas (“Vou Pisar”, com Viviane Batidão, e “Kanalha”) e a crítica (a contundente “Aperte o Botão”). “Tem música que fala sobre a mulher da periferia, que é subestimada, pelos preconceitos que eu já enfrentei por fazer música de lá, por ser de lá”, reflete.

Nascida e criada na periferia de Manaus, Keila se mudou aos 15 anos para Belém, onde foi morar no bairro do Guamá. “É um o bairro mais populoso e um dos mais violentos daqui. Eu nasci na periferia, isso sempre fez parte do meu mundo, toda essa questão de conviver com a violência, de perder os amigos, de ver gente morrendo, perdendo a vida para o crime, para as drogas, para a polícia. Ver os próprios policiais que são da periferia perdendo a vida para essa guerra, que não é deles, é do governo, é doloroso. Mas a minha intenção é trazer a parte alegre, criativa da periferia”, diz a cantora.

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