Fã de pagode e da ‘sofrência’, a cabo-verdiana Cremilda Medina mantém viva a morna cantada por Cesária Évora
Inspiração

Fã de pagode e da ‘sofrência’, a cabo-verdiana Cremilda Medina mantém viva a morna cantada por Cesária Évora

De uma família de cinco filhos, Cremilda Medina veio a kodé. A palavra em crioulo cabo-verdiano — chamada de “a língua do povo” no país cujo idioma oficial é o português — quer dizer “caçula”. A menina nascida na ilha de São Vicente, uma das dez que formam o arquipélago de Cabo Verde, exercia o papel de mais nova como qualquer criança no país deveria. "A brincar pelas rochas", como ela conta, em entrevista ao Reverb. Aos 29 anos, Cremilda se destaca como uma das mais belas vozes da atualidade na morna, gênero musical tradicional do país insular. Seu trabalho lhe valeu prêmios internacionais (duas vezes como Best World Music no International Portuguese Music Awards, nos EUA; a segunda, em duo com Tito Paris, o mais famoso cantor cabo-verdiano vivo), além de menção entre as “herdeiras de Cesária Évora” em reportagem da francesa RTF1 , e destaque em veículos importantes como o jornal lisboeta “Público” .

A família de Cremilda não tem músicos. A mãe era doméstica e o pai trabalhava no porto, a carregar e descarregar os barcos que atracavam. Por ser a mais nova e fora da idade escolar, a cantora costumava ir com a mãe para as casas onde ela exercia suas tarefas e, no decorrer do dia, passava nas docas para entregar o almoço ao pai. “Ver os navios, os contentores, os carros carregados de carga e ver o meu pai de capacete… Para mim, era o maior herói do mundo. E eu tenho um respeito enorme pela profissão da minha mãe. Porque é uma profissão que tu deixas uma pessoa entrar na tua casa para cuidar dela enquanto tu sais para ir buscar o sustento para os teus.”

Cremilda Medina é uma das mais expoentes vozes da morna / Foto: Tó Gomes / Divulgação
Cremilda Medina é uma das mais expoentes vozes da morna / Foto: Tó Gomes / Divulgação

Das viagens do pai, que trazia fitas cassetes na mala, e dos encontros em família ao redor do rádio, Cremilda foi se aproximando de todo tipo de música. Ouvia-se mais aquelas que vinham de Portugal e de outros países da África, como o Senegal. Depois, com o avançar da adolescência, o gosto musical mudou um pouco. “Comecei a entrar naquela fase, como vocês brasileiros dizem, da sofrência, a ouvir músicas românticas”, ela ri. Ela conta que a ilha em que cresceu, São Vicente, é chamada de Brasilin, por conta da paixão pelo carnaval. “Nós adoramos pagode, novela, carnaval e futebol”, brinca. Um pouco desse amor pela folia está em seu encantador vídeo para “Berço d'Morabeza” .

“A minha mãe adora Roberta Miranda. Então sempre ouvimos essas músicas do coração, como os pagodes, em casa. Mas essa descoberta do cantar foi um atrevimento meu. Eu sempre fui uma miúda no meu canto, tímida. Até que um dia, iam fazer um concurso para crianças cantarem e representarem as suas escolas, e na minha sala da escola primária ninguém quis participar. E eu disse: ‘Peraí, que nós não vamos ficar de fora, nós temos que ir!’ E lá fui eu, com uns oito ou nove anos. Mas, no dia do concurso, eu só chorava, não cantei nada”, relembra.

Cremilda é fã de pagode mesmo. “Parece que vocês, brasileiros, conhecem os caminhos do coração!”, ela diz. “Vocês entendem o coração e conseguem explicar isso em toda música. Parece que, principalmente o pagode, tem mais sofrência para mim. É tipo quando você ouve uma pessoa falar e pensa: ‘essa pessoa está a ler os meus pensamentos? Sabe dos meus sentimentos?’”, ri. Nas redes sociais, ela compartilha letras do Grupo Revelação e segue Marília Mendonça.

O apreço pelo gênero consagrado por Cesária Évora (1941-2011) veio de observar a mãe cantar enquanto realizava as tarefas domésticas. “Às vezes, ela abria o portão e ficava a olhar para a ilha de Santo Antão, onde viviam os pais dela, a cantar. E eu perguntava: ‘Ô, mãe, por que ficas a cantar e a olhar para a ilha de Santo Antão?’ E ela dizia: ‘Para matar a saudade dos meus pais. Isso aproxima-me deles’”, conta.

A força dos sentimentos cantados no gênero assustavam Cremilda. “Eu não gostava de morna porque a morna tem muito sentimento. Uma coisa que eu tenho em mim é que eu não gosto de cantar só por cantar. Como a morna canta sentimentos fortes, eu não sabia lidar com eles, então preferia deixar lá e não encarar”, revela. “Até o dia em que percebi que o dia em que minha mãe me faltar, para me aproximar dela, terei que cantar mornas.”

Tímida, a cantora lembra da única vez que viu Cesária de perto — e hesitou em cumprimentá-la, algo de que se arrepende até hoje. “Eu a vi uma vez no aeroporto e ela tinha o semblante muito cansado. Pensei em ir lá e dizer um ‘olá, prazer’ mas, como havia muita gente à volta dela, preferi não me achegar. Se soubesse o que sei hoje, teria ido, porque nunca mais a vi.”

A entrevista dada ao Reverb acontece em meio à quarentena causada pela pandemia do coronavírus. Simpática e com um largo sorriso, Cremilda fala de Cinfães, vilarejo no distrito português de Viseu, de onde é seu marido. A cantora viajou para lá para fazer uma apresentação no dia 18 de março. O concerto foi cancelado e ela permaneceu em terras portuguesas enquanto a vida normal não é retomada. Na espera, aproveita para organizar seu segundo álbum, sucessor do muito elogiado “Folclore”, lançado em 2017, que trazia, entre outras pérolas, “Sou Crioula” , com letra do escritor angolano José Eduardo Agualusa (“Sou do mar, amo o longe e a distância / Rituais d'adeus e sôdade / Canto pra acalmar a ânsia / Das ondas que devoram a cidade”). “Eu já deveria estar em estúdio, mas devido a toda essa situação ainda não foi possível, o que é compreensível”, lamenta. “Por um lado, dá para ouvir as músicas para treinar e me familiarizar melhor com elas”, diz.

No primeiro disco, Cremilda buscou músicas que refletissem sua raiz, ao mesmo tempo em que procurou dar espaço para novos compositores. O álbum é uma mistura de canções originais e músicas que foram gravadas muito antes da cantora nascer. Deste segundo grupo ela pretende tirar as faixas que vão integrar o próximo disco. “No ‘Folclore’ foi ter as músicas e não ter nome para o álbum. Agora, no início, foi ter nome para o álbum e não ter músicas. Mas agora já começo a ter as inspirações”, conta, sem revelar o nome escolhido. Até dezembro do ano passado, Cremilda dividia a vida entre a música e o trabalho como assistente administrativa em uma instituição bancária, onde ficou por seis anos até decidir largar o emprego e apostar somente na carreira musical.

Fã de pagode, ela se inspira na música brasileira: ‘Vocês, brasileiros, conhecem os caminhos do coração! / Foto: Nenas Almeida / Divulgação
Fã de pagode, ela se inspira na música brasileira: ‘Vocês, brasileiros, conhecem os caminhos do coração! / Foto: Nenas Almeida / Divulgação

Ela admite, com humildade, que não tem tino para compôr. “Já tentei várias vezes, mas eu acho que é uma criança de quatro anos que está a escrever”, diverte-se. “Nós somos ricos em composições de pessoas que já faleceram e não tiveram o seu devido crédito. Temos que valorizar o trabalho do autor, porque é um trabalho totalmente difícil. É preciso inspiração e capacidade”, explica.

Entre as músicas tradicionais de seu repertório, algumas têm trechos cantados na língua do povo. Ao falar sobre o tópico, ela lembra de uma história engraçada que viveu durante um show nas Ilhas Canárias, arquipélago espanhol localizado na costa africana. “Eu queria ensinar para as pessoas um bocadinho do crioulo. Comecei a falar com o meu espanhol todo falso e fiquei a perguntar: ‘Vocês estão a compreender?’. E eles me responderam: ‘Sim!’. Então eu falei: ‘OK! É o seguinte, eu canto: ‘Óh nha Antone escaderod’ e vocês respondem: ‘Escaderod, escaderod’”, relembra. “Eles disseram que sim e eu comecei a música. Quando chegou na parte que eu havia combinado, eu cantei: ‘Óh nha Antone escaderod’ e eles responderam: ‘Calderón, calderón!’”, gargalha. “Eu tentei dizer que não era ‘calderón’, mas ficou marcado, tudo em uma boa vibe” (assista no vídeo abaixo).

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