Festival reúne músicos para ajudar Audio Rebel, centro carioca de música alternativa
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Festival reúne músicos para ajudar Audio Rebel, centro carioca de música alternativa

O mercado da música está sentindo a crise provocada pelo novo coronavírus, pois foi um dos primeiros afetados e será um dos últimos a voltar à atividade. Um segmento que está gravemente ameaçado é o de casas de shows, em particular as menores, dedicadas à música independente. A Audio Rebel, importante ponto de confluência cultural em Botafogo, Zona Sul do Rio, é uma que luta para não fechar as portas. O festival "Rebel Vive", uma iniciativa de músicos que têm forte relação com a casa, começa nesta quinta-feira (21/5) para ajudar o espaço. Serão seis lives por dia durante oito dias transmitidas pelo Instagram da casa. Entre os artistas dos mais variados gêneros que vão participar, estão João Donato, Kassin, Rubihno Jacobina, Ava Rocha e Marcelo Callado.

Desde a recomendação do distanciamento social em todo o mundo, alternativas têm surgido no meio musical para compensar o adiamento e cancelamento de shows e outros projetos. As lives, por exemplo, já viraram um novo nicho de negócios e têm sido efetivas para angariar fundos para órgãos de saúde e profissionais da música através de doações e patrocinadores.

A Audio Rebel é casa de shows, estúdio e  oficina de instrumentos. Foto: Divulgação
A Audio Rebel é casa de shows, estúdio e oficina de instrumentos. Foto: Divulgação

Mas enquanto os artistas podem fazer shows de suas casas, os espaços têm sido ameaçados com a situação, principalmente os dedicados à música alternativa e que não têm apoio de empresas. Foi pensando nisso que a atriz e cantora Katia Jorgensen resolveu se mobilizar para ajudar a Audio Rebel, que existe há 15 anos como palco e também estúdio de gravação e ensaio e oficina de instrumentos. Ela teve a ideia de organizar algo para ajudar a manter a casa aberta. Entrou em contato com Pedro Azevedo, proprietário da casa, para falar do projeto e chamou o amigo Mihay, músico com quem já se apresentou no local, para ser parceiro na curadoria do "Rebel Vive", que será transmitido pelo Instagram de quinta a domingo, a partir das 17h, até 31/5.

Seis músicos se apresentarão a cada dia e todo valor arrecadado será revertido para a casa. "Nós não imaginávamos que o festival cresceria tanto! A ideia inicial era fazer quatro dias, mas o interesse foi aumentando, os nomes surgindo, os artistas procurando... Já queremos fazer uma segunda edição!", dia Katia, satisfeita, em entrevista ao Reverb. Negro Léo abre a programação às 17h desta quinta-feira, seguido de André Prando, Renato Piau, David Alfredo, Rubinho Jacobina e Kiko Dinucci.

"Eu toquei lá com meu show 'Monstra' em 2017, bem no início de carreira. Lembro que o Pedro abriu as portas sem nem conhecer direito meu trabalho", lembra Katia. "A Audio Rebel é um espaço que tem credibilidade no meio artístico e o clima de família sempre favoreceu o surgimento de parcerias e amizades. Cansei de ir para lá sozinha assistir a shows porque sabia que iria encontrar alguém conhecido", diz.

A cantora Katia Jorgensen  teve a ideia do festival "Rebel Vive". Foto: Caru Leão/Divulgação
A cantora Katia Jorgensen teve a ideia do festival "Rebel Vive". Foto: Caru Leão/Divulgação

O último evento realizado na casa, que tem capacidade para 90 pessoas, foi um encontro sobre métodos de guitarra no dia 14/3. "Tinha participantes do Chile, Argentina, Itália e outros países que já estavam na cidade há dias, se encontrando em ensaios. Seria um balde de água fria desmarcar o evento, que foi o último antes de cancelarmos toda a agenda", conta Pedro Azevedo, destacando que sua média de shows é de 320 por ano. Dois dias antes, Pedro havia percebido que a situação que viria pela frente realmente não seria fácil, pois o show de Mats Gustafsson e Christof Kurzmann, dois nomes reconhecidos do jazz internacional, não teve o público esperado.

Como havia vários shows com boa expectativa para março e abril, Pedro investiu em mercadorias para o bar. "Quando parou tudo, a primeira ideia que tive foi fazer delivery de cerveja, não poderia deixar aquela geladeira ligada. Vendemos tudo no primeiro final de semana", conta, satisfeito. O passo seguinte na sobrevivência foi lançar uma campanha no Eventbrite, site que já era parceiro da casa, chamada Neon Real, nome em homenagem ao saudoso cachorrão-mascote. "É naquele esquema de pré-venda, paga agora para usar quando reabrirmos como ingressos, consumação no bar, horas de ensaio ou gravação e produtos na loja. Além disso, continuo fazendo entregas de discos, livros e cordas que, aliás, é o que tem vendido mais, o pessoal está tocando bastante em casa", diz ele.

A cantora diz que entre os participantes da "Rebel Vive" há alguns que nunca tocaram na Audio Rebel e outros com uma longa história com a casa. Como é o caso do do baterista, cantor e compositor Marcelo Callado: "Minha relação com a Rebel começou há 10 anos, quando me apresentei com minha banda Do Amor. Na época, a casa era mais voltada ao hardcore e o punk, mas no decorrer dos anos, acabou se tornando um polo de musica aberto a artistas de quaisquer estilo musical". Marcelo considera o espaço vital para a cultura carioca. "Esse festival é mais do que importante para que ela continue de portas abertas durante e depois da crise de saúde", destaca ele, que diz que vai fazer uma live básica no dia 24, só com violão, com músicas de seus três discos solo e talvez algumas inéditas entre as que vem gravando em casa durante a pandemia.

Marcelo Callado é um dos artistas que participam do "Rebel Vive". Foto: caroline Bittencourt
Marcelo Callado é um dos artistas que participam do "Rebel Vive". Foto: caroline Bittencourt

Entre os que nunca se apresentaram no local, Katia destaca Anselmo Salles, o organizador do disputado baile charm da feira da rua do Lavradio; Micah, uma cantora de campo Grande que tem um trabalho voltado ao feminismo, e a cultuada Simone Mazzer. Katia, que lança nesta sexta-feira (22/5) um clipe chamado "Zumbi Tropical" carregado de críticas políticas, diz que ela e Mihay vão participar das lives fazendo breves entrevistas com cada um dos convidados. "Como o Instagram é muito dinâmico, os shows não serão muito longos. Antes das apresentações, nós chamamos o músico e abrimos espaço para ele falar de seu trabalho, sobre o que está fazendo da pandemia e outros assuntos", explica ela. A programação completa pode ser vista aqui.

Pedro confessa que tinha receio de entrar na onda das lives. "A Rebel vende a proximidade com o artista e, se fosse para fazer, tinha que ser bem feito para passar esse espírito da casa. Quando conversei com Katia e Mihay, vi que não precisava mais me preocupar", conta.

Durante o festival, as pessoas poderão fazer suas doações pelo site do Eventbrite ou através de depósitos diretamente nas contas bancárias da casa, que serão divulgadas durante a transmissão.

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