Fiona Apple, após oito anos, finalmente tem um novo álbum, histórias de superação e anedotas para contar
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Fiona Apple, após oito anos, finalmente tem um novo álbum, histórias de superação e anedotas para contar

Os primeiros vislumbres de “Fetch the Bolt Cutters” começaram em 2012, mesmo ano em que lançou seu último álbum "The Idler Wheel...". Desde então, Fiona Apple vem trabalhando em casa, lenta e minunciosamente, em seu novo trabalho que ainda não tem data de lançamento. Em uma longa entrevista à revista "The New Yorker", que envolveu conversas por vários meses, a cantora de 42 anos falou das novas músicas e sobre sua vida marcada pelo sucesso precoce, vícios, casamentos complicados e a luta contra depressão e outros problemas de saúde mental.

Fiona começou a compor aos sete anos. Aos 16, resolveu transformar em música seus textos marcados por tristeza — e um trauma sexual. Com ajuda do pai, gravou três canções e 78 demos. A primeira fita compartilhada chegou às mãos do produtor Andrew Slater, que contratou uma banda, reservou um estúdio em Los Angeles e produziu seu primeiro álbum, o hoje tido como clássico "Tidal", lançado em 1996. Resultado: 2,7 milhões de cópias vendidas.

Fiona Apple em um show em Chicago, em 1996. Foto: Getty Images
Fiona Apple em um show em Chicago, em 1996. Foto: Getty Images

Esse primeiro trabalho, com canções sofisticadas como "Shadowboxer" e o hit "Criminal", trouxe uma carga muito pesada para uma jovem de 19 anos que, desde a infância, lidava com transtorno obsessivo-compulsivo, depressão e ansiedade. A virada do milênio se tornou um período instável para Fiona, que era adorada pelos fãs, mas, segundo algumas avaliações, não tinha tanto respeito da imprensa, que frequentemente a tratava como uma curiosidade nos tabloides.

Na entrevista para a "New Yorker", Fiona relata situações cruéis que enfrentou, como um estupro aos 12 anos e relacionamentos abusivos, como o que teve com o diretor Paul Thomas Anderson, com quem viveu por três anos e descreve em termos pouco lisonjeiros, como frio e intempestivo. Casado há 19 anos com a atriz Maya Rudolph, com quem tem quatro filhos, ele compreensivelmente preferiu não comentar. No anedotário destacado nas notícias sobre celebridades, ficou destacada a descrição de Fiona da "noite excruciante" passada com Paul na casa de Quentin Tarantino, regada a muita cocaína. Depois disso, jura, nunca mais tocou na substância. Mas chegou a passar uma noite na cadeia, no Texas, em 2012, por posso de maconha e haxixe.

Há tempos que a cantora decidiu se recolher em sua casa tranquila em Venice Beach, de onde raramente sai, a não ser para passear de manhã cedo na praia com a cachorra Mercy. É nessa tentativa de paz que ela vem compondo, ao longo dos últimos anos, o novo álbum, intitulado "Fetch the Bolt Cutters", uma referência a uma cena de "The Fall", seriado policial onde Gillian Anderson é uma investigadora de crimes sexuais. A personagem cita a frase depois de encontrar a porta de uma sala onde uma garota foi torturada. Como todos os projetos de Fiona, este estava demorando muito para surgir e é profundamente pessoal — traçando suas mágoas, confrontos com a própria fragilidade e recorrentes voltas por cima.

O novo trabalho tem 13 faixas, entre elas, “Newspaper”, “On I Go”, “The Drumset Is Gone”, “Rack of His”, “Kick Me Under the Table”, “Ladies” e “I Want You to Love Me”. Sobre “Rack of His”, ela diz que começou a escrever anos atrás sobre um relacionamento. "Quando terminei, era sobre um relacionamento diferente”, brinca. E há tambem “For Her", marcada por versos contundentes como “Good mornin’! Good mornin’/You raped me in the same bed your daughter was born in” (“Bom dia! Bom dia!/ Você me estuprou na mesma cama em que sua filha nasceu”).

A primeira música que gravou foi "On I Go", inspirada em um canto de Vipassana (ligado à tradição budista) que cantou em seu telefone enquanto caminhava no Topanga Canyon. Quando voltou para casa, começou a avançar, regravando e reescrevendo músicas em intervalos irregulares, muitas vezes sozinha, em seu quarto. No começo, ela gravou longas tomadas sem cortes, usando objetos aleatórios como instrumentos e fazendo arquivos com nomes do tipo "tambores de feijão".

Fiona Apple e Sebastian Steinberg, no baixo (no alto), em um show em 2013. Foto: Getty Images
Fiona Apple e Sebastian Steinberg, no baixo (no alto), em um show em 2013. Foto: Getty Images

Em 2015, ela reuniu a banda com o baterista Amy Aileen Wood, um dos três músicos que havia contratado para ajudar a criar o novo álbum; o baixista Sebastian Steinberg, do grupo Soul Coughing dos anos 1990, e Davíd Garza, cantor, compositor e guitarrista. Ela e Sebastian tocam juntos há anos e compartilham experiências intensas, às vezes dolorosas, incluindo uma prisão, durante uma turnê em 2012, por posse de haxixe. Ele, que trabalhou com a cantora em "Idler Wheel", disse que o novo álbum vem inspirado pelo fascínio de Fiona em usar uma banda "como um organismo em vez de um agenciamento — algo natural".

Além dos músicos, a cantora vem contando com a parceria de Amber, sua irmã mais velha, que opina e participa das gravações. Ela mora há quatro anos com uma engenheira lésbica Zelda Hallman, mas descreve o relacionamento como "intimidade platônica". Zelda filmou boa parte das entrevistas registradas para "New Yorker".

O disco conta ainda com uma pequena participação da atriz britânica (e amiga de Fiona) Cara Delevingne.

A cantora revela que ainda coleciona aqueles cadernos de anotações de onde saíram suas primeiras músicas. Ela costuma escrever novas letras ao lado das mais antigas. Durante uma das entrevistas, pegou uma pilha deles, procurando algumas frases que escrevera aos quinze anos. "Minha letra era tão diferente", ela se maravilhou, virando as páginas. Ela encontrou uma anotação no diário de 1997: "Estou insegura com os caras da minha banda. Eu quero passar mais tempo com eles! Mas parece impossível sair e se divertir". Ela ri: "Eu não consigo nem reconhecer essa pessoa... imagina, 'quero sair e me divertir!'", espanta-se com sua versão adolescente.

Enquanto não lança o disco, Fiona vem trabalhando em outras frentes, como trilhas sonoras. Ela aceitou o convite de Sarah Treem, uma das criadoras da série "The Affair", para fazer uma cover de "The Whole of the Moon", hit de 1985 do grupo escocês Waterboys, para o final do programa. Ela compôs também para o desenho animado da Fox "Bob's Burgers" e alguns números para a comédia musical "Central Park".

Em janeiro, apesar de animada com algumas novas mixagens, a cantora ainda estava apreensiva. Ela só conseguia ouvir as faixas com fones de ouvido. Mas quando a banda se reuniu para ouvir as últimas versões e trocar opiniões, aparentemente mais relaxada, Fiona conseguiu se sentir confortável escutando o álbum nos alto-falantes. Ela demostrou, inclusive, planos para relançar "When the Pawn. . . ” em vinil, mas mudando a arte da capa original feita por seu ex, o cineasta Paul Thomas Anderson. "É um ótimo álbum", avalia. Olhando para trás em seu catálogo, ela acha que sua única música fraca é "Please Please Please", de "Extraordinary Machine", de 2005, escrita a pedido da gravadora para "completar" o repertório do disco.

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