Formado apenas por mulheres vítimas de tráfico humano, coral usa a música para curar traumas
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Formado apenas por mulheres vítimas de tráfico humano, coral usa a música para curar traumas

Em uma igreja grande e decorada de festa, perto do movimentado Piccadilly Circus, em Londres, um coral de mulheres se prepara para cantar na frente de uma multidão animada. Para algumas pessoas da plateia, pode parecer que aquela é apenas mais uma apresentação musical dentro dos festejos natalinos na cidade. Só que o Amies Freedom Choir carrega uma responsabilidade muito maior do que a de se cantar afinado. O coral é formado por mulheres sobreviventes da escravidão moderna, traficadas para o Reino Unido pelo Caribe, África, Europa Oriental ou sudeste da Ásia. Elas são apenas algumas das milhares levadas para o país europeu para serem forçadas ao trabalho doméstico ou à prostituição. Um problema que continua a crescer, de acordo com um relatório do Exército da Salvação, que afirma que houve um aumento de 21% no número de vítimas de tráfico em 2019.

Durante os ensaios, as mulheres costumam entoar firmemente e à capela, versos como "Nós somos 'amie', bonitas e fortes'. Além dos ferimentos físicos e das preocupações com a burocracia do sistema de imigração britânico, aquelas que escapam da escravidão geralmente desenvolvem problemas de saúde mental, incluindo transtorno de estresse pós-traumático, depressão e ansiedade. "Quando elas se juntam, têm dificuldade em se levantar e dizer o nome em voz alta. Ficam aterrorizadas com isso", diz a maestrina e diretora de projeto, Adwoa Dickson, em entrevista ao "Guardian". Por isso é que a primeira coisa que elas praticam é dizer seu nome ao grupo. "Elas aprendem a dizer: 'estou aqui, tenho orgulho e possuo esse espaço'", diz Adwoa.

Ao participar do coral, as mulheres encontram um clima de família e apoio para superar traumas / Foto: Divulgação
Ao participar do coral, as mulheres encontram um clima de família e apoio para superar traumas / Foto: Divulgação

O Amies Freedom Choir começou em 2010, pelas mãos de Adwoa e Annabel Rook , como um workshop semanal de teatro para ajudar a reconstruir a confiança das mulheres. Logo, elas perceberam que o canto tinha um efeito “invisível” nas mulheres e decidiram criar um grupo de coral. O projeto fornece uma refeição semanal, despesas de viagem para ensaios e apresentações e até uma creche para os filhos dessas mulheres. Infelizmente, não é sempre que essa rede de apoio e amizade, num clima de família, funciona. "É muito difícil para essas pessoas se apegarem a qualquer coisa que seja boa em suas vidas. Mesmo se você provar a elas que não vai decepcioná-la, pode ser muito difícil confiarem nisso", lamenta Adwoa.

Os efeitos traumáticos são, muitas vezes, fisicamente claros. Adwoa diz que já percebeu que, quando uma das participantes não estava cantando, sentava na cadeira segurando os braços em volta de si mesma, como se tranquilizasse a si balançando para frente e para trás. "No momento em que vocalizaram musicalmente, se transformaram", conta. O coro costuma começar suas atividades com jogos em grupo, antes de passar para os ensaios para aquelas que desejam participar.

Há também um coral de ex-alunas, formado por mulheres que queriam continuar após um ano de atividade. "O coral me mudou. Minha auto-estima, que era tão baixa, aumentou gradualmente, e eu pude interagir e fazer perguntas às pessoas, o que não era capaz antes", diz Racheal Olawaniotogun, uma soprano no coral. Vinda da Nigéria, ela faz parte do grupo há três anos e diz que o canto proporcionou mecanismos de enfrentamento para proteger sua saúde mental. “Quando canto, sinto alegria. Meu interior parece muito leve. Tudo lá fora, o que quer que eu esteja passando, desaparece", diz Racheal, que agora estuda contabilidade.

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A maestrina diz que a confiança que as mulheres demonstram no palco pode ajudar em outras áreas de suas vidas. "Isso significa que, quando estão conversando com advogados e outras pessoas, elas podem ficar na frente deles, olhá-los nos olhos e dizer o que aconteceu com elas", afirma.

Adwoa e Anna pretendem incentivar uma cultura de respeito pedindo às mulheres que assinem um contrato que elas mesmas ajudam a escrever quando ingressam no projeto. "É uma forma de reforçar que todo mundo tem direito a sua própria religião e sexualidade, e ninguém tem o direito de minar isso", explica. As coordenadoras também tentam promover um espírito de consciência cultural, reunindo músicas que incorporam tradições musicais dos países de origem das mulheres. Para Olawaniotogun, a diversidade do coro é uma força. “Existem pessoas diferentes, novos rostos. Você se ajusta e é realmente incrível. Às vezes, quando estou cantando e a música tem um significado para mim, isso me faz chorar porque é muito poderoso", diz.

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