Gaby Amarantos: 'Chega de falar só de sofrimento. A alegria também pode fortalecer as estruturas'
Rock in Rio 2019

Gaby Amarantos: 'Chega de falar só de sofrimento. A alegria também pode fortalecer as estruturas'

Por Kamille Viola

Gaby Amarantos sempre soube que se apresentar no Rock in Rio era uma questão de tempo. Ela só não imaginava que faria sua estreia no festival fazendo uma das coisas que mais gosta: ajudando a divulgar a cultura de seu estado natal, o Pará. Nesta quinta-feira (3), ela sobe ao Palco Sunset ao lado de alguns dos artistas mais representativos da cena musical de sua terra. A partir das 16h55, o show Pará Pop vai reunir um time de gerações e estilos diferentes, formado por Gaby, Dona Onete, Fafá de Belém, Jaloo e Lucas Estrela. Eles se apresentam acompanhados pela banda de Dona Onete, 80 anos, comandada pelo guitar hero paraense Pio Lobato.

“Estava esperando muito esse momento de ter esse olhar para a música não só do Pará, mas da Amazônia, ainda mais agora, que a gente está falando tanto dela. Quando o Zé (Ricardo, diretor artístico do Palco Sunset) fez o convite, eu fiquei muito feliz, porque acho que era exatamente isso: essa união dessa galera, essa representação. É uma cena muito rica, é muito legal a gente estar lá, em vez de ter só um show de um, um de outro. Poder ter essa pororoca, todo mundo junto lá fazendo esse som e gritando para o Brasil que, além da gente ter que olhar mais para dentro e para a nossa floresta, tem que olhar também para a nossa cultura e se ver mais no espelho”, analisa Gaby.

Gaby Amarantos está muito feliz de poder se apresentar ao lado de outras estrelas paraenses no Rock in Rio / Foto: Estúdio Tereza E Aryanne
Gaby Amarantos está muito feliz de poder se apresentar ao lado de outras estrelas paraenses no Rock in Rio / Foto: Estúdio Tereza E Aryanne

'Eu queria poder só falar de música, de comida, de cultura, de moda e de bofe, das coisas que eu gosto'

Sobre a Amazônia, aliás, a artista frisa que, embora a mobilização nas redes sociais seja muito importante, é necessário ir além na defesa de nossa floresta. Ela conta que está tentando ter uma atitude diferente em relação às coisas que têm ocorrido na sociedade. “Estamos à beira de uma falência social no mundo, falando de um modo geral, com tudo que tem acontecido no planeta. Acho que a gente adotou uma postura que é: aconteceu uma parada, todo mundo corre para o Instagram, posta e: ‘Ah, fiz a minha parte, postei tal coisa que aconteceu.’ Abro um parêntese para dizer o quanto é importante também ter essa força nas redes sociais. Mas as pessoas se limitam apenas a isso”, explica ela.

Olhem para a gente, olhem para a Amazônia, olhem para o Pará.

Amiga do chef Saulo Jennings, do restaurante Casa do Saulo, na comunidade de Carapanari, em Santarém, no Pará, ela busca acompanhar o que está se passando na região junto ao amigo para atuar mais diretamente. “Ele não é só um chef de cozinha, é uma grande liderança — ele nem gosta dessa palavra, mas eu vejo ele assim”, diz. “Estou buscando saber o que está acontecendo, ir para lá. Tem a Brigada da Amazônia, que é uma instituição muito séria que está fazendo várias ações lá. Estou procurando ajudar essa galera, realmente pegar pela mão e fazer alguma coisa para além da postagem. Porque é essa força política que a gente precisa ter — no final das contas, tudo é força política, e a gente vive num país que não quer nem que a gente pense, quanto mais se organize politicamente. Eu tenho me organizado muito assim, nos bastidores, acompanhando tudo com o Saulo, dando meu apoio mais concreto”, argumenta.

Gaby também mostra seu lado engajado no programa "Saia Justa", do GNT, no qual é uma das apresentadoras, ao lado de Pitty, Mônica Martelli e Astrid Fontenelle. Temas como racismo, machismo e gordofobia volta e meia estão em debate. “Na real, eu gostaria de não precisar de fazer nada disso, eu queria poder só falar de música, de comida, de cultura, de moda e de bofe, das coisas que eu gosto. Mas eu preciso também estar nessa plataforma falando desses assuntos, e a gente vai ter que falar disso durante muito tempo”, prevê ela, que é a primeira personalidade da região Norte a participar do elenco do programa. “Os veículos de comunicação relevantes estão começando a perceber esse grito que a gente já vem dando desde, sei lá, 2011: ‘Olhem para a gente, olhem para a Amazônia, olhem para o Pará.’ A galera está começando a perceber e está passando a realmente ecoar isso agora, de uma forma especial, por conta de tudo isso que está acontecendo. Todos esses debates são muito necessários”, diz.

“Na real, eu gostaria de não precisar de fazer nada disso, eu queria poder só falar de música, de comida, de cultura, de moda e de bofe, das coisas que eu gosto", diz Gaby / Foto: Estúdio Tereza E Aryanne
“Na real, eu gostaria de não precisar de fazer nada disso, eu queria poder só falar de música, de comida, de cultura, de moda e de bofe, das coisas que eu gosto", diz Gaby / Foto: Estúdio Tereza E Aryanne

'Eu ser uma mulher rica, preta, poderosa, que veio da periferia já é uma parada muito foda'

Ela conta que busca balancear as coisas, guardando em suas redes sociais um espaço para divulgação de seu trabalho e para falar de assuntos mais leves. Mas reconhece que, mesmo quando está postando, por exemplo, uma foto sua de biquíni nas férias, isso ganha uma importância diferente, por conta de tudo o que ela representa: uma mulher negra, de origem periférica, com corpo fora do padrão e vinda de uma região sobre a qual o Brasil ainda conhece pouco.

Só o fato de eu estar lá postando uma foto de biquíni e dizendo para as pessoas que elas podem, é: eu tenho um corpo político

“É tão foda o que está acontecendo na minha vida, na minha carreira — que já tem um tempo de construção, de caminhada — que só o fato de eu existir já é um ato político. Só o fato de eu estar lá postando uma foto de biquíni e dizendo para as pessoas que elas podem, é: eu tenho um corpo político. É diferente de uma mulher branca privilegiada que está ali usando aquele espaço da mesma forma, não tem o mesmo impacto. Só por eu estar viva aqui, fazendo música, vindo do Jurunas, um lugar tão longínquo do país, para onde o Brasil ainda precisa aprender a olhar mais, já é um ato político. Para mim, é muito mais importante eu estar falando de música, de alegria, de aceitação, de força. Chega de falar só de sofrimento. A alegria pode também fortalecer as estruturas para que a gente construa um país melhor. Eu ser uma mulher rica, preta, poderosa, que veio da periferia já é uma parada muito foda”, conclui.

Gaby planeja um próximo álbum, para 2020, com produção de Rafael Ramos — ela estreou em carreira solo com o disco ‘Treme’, de 2012, e de lá para cá lançou diversos singles, sendo os mais recentes “Cachaça De Jambu”, um feat com Maderito e Waldo Squash, e “Ilha do Marajó (Gira A Saia)”, com Verequete e Waldo Squash. Enquanto isso, ela aguarda sua estreia como protagonista no cinema: no longa “Serial Kelly”, de Renê Guerra, gravado em 2017, ela vive Kellyane, uma cantora de forró que na verdade é uma assassina justiceira. Além disso, a Globo avalia a possibilidade de lançar uma série estrelada por ela, Taís Araújo, Bruna Linzmeyer e Mariana Nunes. “As manas” é um projeto da cineasta Sabrina Fidalgo com Thiago Gadelha e Mariana Lauria, e fala de sexualidade e relacionamentos. Elas já gravaram um piloto da atração, que está em fase de avaliação dentro da emissora.

"Eu tenho um corpo político", conclui Gaby / Foto: Estúdio Tereza E Aryanne
"Eu tenho um corpo político", conclui Gaby / Foto: Estúdio Tereza E Aryanne

Kellyane, 'furacão que vai ser' no cinema

“Estou ansiosa para me ver no filme, porque eu acho que, neste momento que a gente está vivendo, vai ser muito impactante, muito legal, muito importante. A Kelly é bem amoral: nesse Brasil cheio de puritanismo, vai causar bastante (risos). Foi incrível, e eu tenho recebido uns convites bem legais. Porque, mesmo que o longa ainda não tenha saído, a galera que é de cinema já está ligada nesse furacão que vai ser”, conta. “Antes da música, eu fiz muitos trabalhos como atriz em Belém, cheguei a fazer espetáculos. Era uma parada muito legal, que já estava indo para um caminho profissional. Mas aí a música veio mais forte primeiro, e eu falei: ‘Deixa eu dar um foco aqui na música, e aí vai ser mais fácil para depois eu fazer projetos como atriz.’ Eu estava esperando surgirem boas propostas para poder mostrar isso. A minha carreira de música já está bem legal, já tem uma consolidação, então eu quero trabalhar cada vez mais nesse triângulo: como apresentadora, atriz e cantora, meu pilar principal”, revela.

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