Gal Costa, uma das maiores e mais interessantes cantoras do planeta
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Gal Costa, uma das maiores e mais interessantes cantoras do planeta

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Apesar da barreira da língua, que aparta a arte feita em português da eficácia comercial que o inglês impõe, o fato é que o Brasil é possivelmente o maior e mais importante produtor de música popular do mundo. Somente a música americana se equipara à variedade, à quantidade, à criatividade e à força da nossa música popular, como uma espécie de coração cultural e artístico do país. E o mesmo limite linguístico que faz com que, na frieza dos números, nossa música não venda tanto quanto a americana mundo afora, se impõe também sobre o reconhecimento de algumas de nossas maiores cantoras – e é nesse inexato hiato que entra a imensidão de Gal Costa, uma das maiores e mais interessantes cantoras do planeta em todos os tempos. 

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Pela musicalidade, força e riqueza de sua arte, Gal Costa se encontra ao lado de nomes como Ella Fitzgerald, Etta James, Nina Simone, Janis Joplin ou Aretha Franklin. E o mesmo vale para outros nomes, como Elis Regina e Maria Bethânia, que têm seu reconhecimento internacional mais restrito justamente pelas tais barreiras de língua. Mas há algo sobre Gal que a coloca em um destaque especial no cenário da música brasileira – e faz dela a mais moderna e interessante cantora que já empunhou um microfone em um palco por aqui. 

É claro que a qualidade de uma cantora do quilate de Gal Costa não é mensurável e só se explicaria pelo inominável que coloca em um corpo e em uma vida e a força de uma voz tão rara e doce quanto feroz. É possível, porém, sugerir três pontos fundamentais para a compreender a expressão única de Gal: a sexualidade, o rock e João Gilberto. Tais ingredientes poderiam formar uma receita amarga ou insípida em outras bocas, mas na carreira de  Gal elas se conjugam com natural e extraordinária harmonia – e podem formar aquilo que só Gal poderia trazer à música brasileira e mundial. Vamos por partes. 

Apesar de preguiçosamente reconhecida hoje como um nome da MPB, a verdade é que Gal foi e é uma das mais roqueiras cantoras brasileiras

Primeiro, João Gilberto. Diferentemente de Elis ou Bethânia, que pareciam dialogar mais com a virtuosidade e a imensa capacidade vocal de nomes como Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Orlando Silva ou Nelson Gonçalves – modernizando a música brasileira a partir dessas e outras influências grandiloquentes. Gal teve como sol maior uma música já efetivamente moderna, especialmente cosmopolita, essencialmente internacional: a bossa nova. João Gilberto foi seu primeiro e maior mestre, e apesar de possuir a capacidade e a força dessas outras grandes vozes do passado, era a elegância minimalista e expressividade delicada de João – atrelada ao anseio internacional, jovem e moderno da bossa nova – que formaram o primeiro canto de Gal como uma cantora profissional. Está com clareza em “Domingo”, seu disco de estreia ao lado de Caetano, e na verdade está, de uma forma ou de outra, em todo seu cantar – mesmo no mais estridente e gritado canto. Gal é a mais internacional de nossas cantoras, e a importância de tal afirmação se dá pela pluralidade de suas possibilidades estéticas, para além de qualquer medida comercial. 

Segundo, o rock. Apesar de preguiçosamente reconhecida hoje como um nome da MPB, a verdade é que Gal foi e é uma das mais roqueiras cantoras brasileiras. Talvez a baiana nascida Maria da Graça Costa Penna Burgos tenha sido a primeira cantora a perceber e praticar a máxima de que a atitude, a postura e a coragem com que se apresenta uma canção atrelam a emoção artística a um sentido existencial quase ideológico – em que o comportamento do artista é também parte do fundamento da obra. 

Gal cantou, especialmente durante o período de seus discos tropicalistas até os discos “Legal”, “Índia” e “Cantar” – com especial destaque para a obra-prima “Fa-tal-Gal a Todo Vapor”, de 1971 – como uma mulher que ao som de guitarras desafiava os costumes, a ditadura militar, a caretice vigente, as noções e permissões impressas sobre o feminino e sobre o que era permitido a uma cantora, honrando de forma exemplar o sentido mais essencial a respeito do que se trata afinal o rock. 

Por fim, a sexualidade é uma marca determinante no surgimento de Gal. A sensualidade objetiva é elemento marcante não só de sua postura, mas também de sua música – e, lembrando se tratar do conservador contexto do fim da década de sessenta, e de uma artista verdadeiramente complexa e rica – não com intenções comerciais, mas sim como força afirmativa, desafiadora e crítica. A sexualidade em Gal é um pouco como foi em Elvis – uma força motora que deslocava a música como uma bomba erótica para o coração do espírito de um país, em nosso caso, ainda regido por uma ditadura militar. Enquanto todos esperavam a guerra ou a morte, Gal convidou o Brasil a dançar – com sensualidade, elegância, fúria e um talento maior do que qualquer eventual deslize em sua discografia, que faz dela a maior cantora do país que melhor produz musica popular no mundo.   

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