Garcia Gang, a família de artistas negros que usa música como militância
Inspiração

Garcia Gang, a família de artistas negros que usa música como militância

Partiu de Aori a proposta de unir todos os talentos da família. Mais velho entre os cinco primos Garcia — além dele, Ainá, Hodari, Aisha e Yaminah —, ele enxergou nos talentos individuais de todos — seja no rap ou na MPB — uma oportunidade de promover a ancestralidade comum e usar a música como forma de emanar o amor que os une. Dos nomes africanos e da afetividade que permeia por entre os primos, surgiu a Garcia Gang, festa, grupo e coletivo artístico de afrobeat, rap, R&B, funk e hip-hop formado pelos netos de Lydia Garcia, ativista negra e professora de música. Eles são tudo isso e mais um pouco.

O grupo se apresentou pela primeira vez em agosto, no Rio de Janeiro. O resultado foi tão positivo que eles decidiram organizar outros encontros (e quem sabe até um álbum) no futuro. A festa na cidade reuniu amigos, familiares e convidados. A performance da matriarca, Lydia, foi um dos momentos mais marcantes do encontro. Sem hesitar, no alto de seus 80 anos, dona Lydia subiu ao palco e se apresentou ostentando uma coroa na cabeça. Foi bajulada por todos, súditos instantâneos de sua alegria, em meio aos versos declamados por ela como poesia ou na forma de rap.

Rainha da militância, Lydia é ativista do movimento negro há décadas e teve cinco filhos com o artista plástico Willy Mello. Foram eles que deram origem ao clã artístico que hoje forma a gangue cultural. Dona Lydia é o retrato da alegria e desinibição. Há alguns anos, quando o neto Aori foi convidado para se apresentar com o ator americano Will Smith no boêmio bairro da Lapa, no Rio, ela não hesitou em pedir um convite. Não só foi como fez até uma selfie com o ator e rapper. A foto é exibida com orgulho na geladeira de sua casa, para quem quiser ver.

Dona Lydia exibe com orgulho a foto com Will Smith na geladeira de sua casa / Foto: Arquivo pessoal
Dona Lydia exibe com orgulho a foto com Will Smith na geladeira de sua casa / Foto: Arquivo pessoal

"(A festa da Garcia Gang) Foi um marco bem especial por a gente ter mostrado nossa essência para todo mundo que estava lá, em uma energia incrível. Foi um momento de afirmação da nossa beleza e isso é pregado desde que a gente é criança na família, da nossa força como negro. Acho que a gente tem que viver esse amor, essas afroafetividades", pontuou o brasiliense Hodari, conhecido na cena musical independente e cujo hit “Teu Popô” esteve por várias vezes este ano entre as músicas mais ouvidas no país.

A performance dos Garcia é também uma forma de militância. "Nossos avós são muito fortes na militância negra desde muitos anos. Percebemos que todo mundo tinha seu brilho dentro de suas carreiras artísticas. Foi aí que decidimos nos juntar como forma de comemorar o que está acontecendo com a nossa vida e como é a nossa família, nossa família preta brasileira", contou Hodari.

Aori diz que se reunir em família é um exercício de compreensão, amor e paciência. As trajetórias diversas de cada um dos Garcia fez os primos criarem frutos culturais diferentes. Às vezes, as divergências são agravadas no convívio em grupo, mas nada que os laços de afeto não consigam contornar. "Lidar com uma banda já é algo complicado por si só, em família então...", brinca Aori. "A galera tem um posicionamento muito forte. Às vezes, sendo o mais velho (Aori tem 39 anos) tenho que entender o lado dos mais novos e não ficar em uma liderança agressiva. Às vezes, aquilo que eu já fiz várias vezes, para o outro é um show muito importante. É um evento que a gente faz por amor, porque gosta, porque quer estar junto e celebrar os bons momentos".

A previsão é que a gang dos Garcia volte a se reunir em novembro. Ainda sem locais e datas confirmadas, eles pretendem fazer festas em Brasília e São Paulo, além de reeditar a apresentação do Rio. As três cidades são os redutos da família. Aisha e Yaminah moram na capital paulista. Hodari deixou Brasília e agora vive no Rio, assim como Aori e Ainá. "A gente se organiza via internet e faz um ensaio junto antes do show. Fazemos tudo na base da intuição então as apresentações acabam virando recortes das apresentações individuais de cada um", explica Aori. “ Mais do que fazer um hit pop a gente está construindo um legado que vai passar para minha filha, para os meus sobrinhos. É algo muito sólido”.

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